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País pode crescer 3,5% e até mais este ano, diz Delfim

Otimista em relação ao desempenho da economia no segundo ano de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-ministro da Fazenda e deputado federal pelo Partido Progressista (PP), Antonio Delfim Netto, aposta no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2004 de 3,5% ou mais. O ministro diz, ainda, que acredita que a recuperação econômica será sustentável pelos próximos anos.

“O custo para a recuperação da credibilidade foi muito alto em termos de crescimento econômico, perda de renda dos trabalhadores e manutenção de altos níveis de desemprego. Mas sem esses sacrifícios, o País não teria recobrado as condições para uma nova etapa de desenvolvimento, que espero comece em 2004 e se sustente nos próximos anos, desde que não negligenciemos as exportações e o equilíbrio fiscal”, afirma Delfim Netto.

O ex-ministro não deixa de criticar, porém, a política monetária adotada pelo Banco Central no ano passado e destaca que mesmo com a melhora das contas externas, o Brasil continua vulnerável internacionalmente. “Se você quiser chamar erro de cautela, eu diria que eles (membros do Copom) foram excessivamente cautelosos. Em dezembro, como agora, creio que havia margem para uma redução mais acelerada da taxa básica de juros. Não adianta fazer hoje a engenharia de obras feitas: o BC considerou que as metas de política monetária são o sal da vida”.

Apesar das alfinetadas em algumas decisões do Governo, Delfim Netto faz um saldo positivo do primeiro ano de administração petista. Ele diz acreditar na adesão do setor privado à Parceira Público-Privada (PPP) nos investimentos em infra-estrutura.

Jornal do Commércio – O ano de 2003 foi marcado pelo ajuste fiscal. O senhor concorda com a posição do Governo de promover superávit elevado?

Antonio Delfim Netto – O ajuste fiscal já vinha sendo realizado no Governo passado desde a assinatura do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que estabeleceu um superávit primário nas contas públicas de 3,75% do PIB. Era a exigência mínima para dar tranqüilidade aos credores das enormes dívidas contraídas naquele Governo, inclusive com o FMI. O que o Governo Lula fez foi ampliar a meta do superávit para 4,25%, diante da necessidade de recuperar a credibilidade externa e a confiança, abaladas pelo terrorismo pré-eleitoral. Os números do mercado mostram que o Governo Lula alcançou o objetivo.

Jornal do Commércio – Qual a sua expectativa de crescimento econômico para o ano de 2004? Este crescimento é sustentável ou, mais uma vez, será um movimento de “stop and go”?

Antonio Delfim Neto – O custo para a recuperação da credibilidade foi muito alto em termos de crescimento econômico, perda de renda dos trabalhadores e manutenção de altos níveis de desemprego. Mas sem esses sacrifícios, o País não teria recobrado as condições para uma nova etapa de desenvolvimento, que espero comece em 2004 e se sustente nos próximos anos, desde que não negligenciemos as exportações e o equilíbrio fiscal. Há uma expectativa generalizada de que o PIB deve crescer 3,5% em 2004. A crença também ajuda o crescimento. Pode ser 3,5% e até mais.

O Orçamento de 2004 prevê aumento da capacidade de investimentos do Governo dos R$ 4 bilhões de 2003 para R$ 12 bilhões. Esse montante é suficiente para evitar gargalos futuros com o crescimento da economia?

É claro que esses números são pobres, mas é preciso entender que o crescimento depende muito mais do ânimo do setor privado, que é que vai decidir quanto e quando investir. O setor crítico para os próximos anos é o da energia. O Governo tem que fazer a sua parte definindo claramente os marcos regulatórios e convencendo os investidores de que não desrespeitará contratos e garantirá rigorosamente o direito de propriedade urbana e rural.

Jornal do Commércio – O senhor acredita que o setor privado terá grande participação nos investimentos do País este ano na área de infra-estrutura? Será que os empresários estão efetivamente interessados em aderir à Parceria Público-Privada (PPP)?

Antonio Delfim Neto – Na medida em que a Parceria Público-Privada atender aos requisitos que citei anteriormente, garantindo o respeito aos contratos, não tenho dúvidas que os investimentos vão aparecer. O setor privado brasileiro já mostrou, em outras épocas, que não despreza as oportunidades e elas hoje estão se multiplicando após tantos anos de carência de investimentos na infra-estrutura de transportes e energia, principalmente.

Jornal do Commércio – O senhor acredita que o desemprego será reduzido em 2004 com a volta do crescimento econômico?

Antonio Delfim Neto – Os empregos vão voltar, não tão rápido como todos gostaríamos porque o ritmo de crescimento começa lentamente no início, aproveitando os fatores disponíveis e só mais adiante pode produzir queda significativa da taxa de desemprego. A demora se deve ao fato sobre o qual tenho insistido: primeiro é preciso maturar os investimentos que vão produzir o aumento da produção e da oferta de novos postos de trabalho.

Jornal do Commércio – Mesmo com a redução dos juros, a relação dívida/PIB tem se mantido estável. O senhor acredita que o Governo deveria acelerar o ritmo de redução da Selic em 2004? Em que nível o senhor espera que a taxa básica de juros esteja no fim deste ano?

Antonio Delfim Neto – Para meu gosto, o Banco Central deveria ter sido um pouco mais ousado em 2003, principalmente para evitar o agravamento da crise social e de emprego que estamos vivendo há seis ou sete anos.

Antes da decisão do Copom de dezembro, o senhor cobrou redução de 1,5 ponto percentual na Selic e o resultado foi corte de um ponto percentual.

Jornal do Commércio – Na sua opinião, o Banco Central errou nas decisões de política monetária ao longo do ano, com a manutenção dos juros altos por muito tempo e lentidão ao reduzir a Selic?

Antonio Delfim Neto – Se você quiser chamar erro de cautela, eu diria que eles foram excessivamente cautelosos. Em dezembro, como agora, creio que havia margem para uma redução mais acelerada da taxa básica de juros. Não adianta fazer hoje a engenharia de obras feitas: o BC considerou que as metas de política monetária são o sal da vida.

Jornal do Commércio – Pela primeira vez em dez anos o Brasil terá superávit nas contas externas. O senhor acredita que este resultado é uma tendência para o futuro? O Brasil conseguiu reduzir a vulnerabilidade externa?

Antonio Delfim Neto – É verdade que em 2003 as contas externas melhoraram de forma muito importante, graças aos saldos comerciais. Conseguimos inverter o sinal do balanço de pagamentos para positivo, mas a vulnerabilidade continua extremamente alta. É só olhar o que temos que pagar em juros e amortizações nos próximos anos e o comportamento da dívida líquida em relação ao PIB, hoje em torno de 56%. Há muito trabalho pela frente. As exportações têm que continuar com crescimento vigoroso, pois ainda estamos longe de ter um perfil adequado do pagamento de juros e amortizações em relação ao volume anual de nossas vendas externas.

Jornal do Commércio – Qual o balanço que o senhor faz do primeiro ano do Governo Lula?

Antonio Delfim Neto – Minha expectativa após as eleições era boa quanto à performance do presidente Lula e de sua equipe econômica. O que posso dizer é que os resultados foram bem superiores ao que imaginava, conhecendo as tremendas dificuldades que tinham sido colocadas nos seus caminhos.

Não era fácil quebrar a espinha da inflação e isso foi conseguido. O Governo reforçou os estímulos a dois setores que deram a melhor resposta na economia: a agricultura e as exportações; melhorou o equilíbrio fiscal pelo corte de despesas e não pelo habitual recurso ao aumento de impostos.

O Governo se empenhou e obteve a aprovação das reformas da Previdência – bastante satisfatória – e tributária – avançou menos do que o desejado e terá que ser retomada – e iniciou finalmente o processo de redução dos juros . Mantenho para 2004 uma expectativa altamente positiva, principalmente porque a economia recuperou as condições para voltar a crescer e é o que vai resolver os problemas fundamentais do emprego e da renda dos brasileiros.

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