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País ganharia pouco com liberalização

A prioridade do Brasil nas negociações internacionais, a Rodada Doha, terá um impacto praticamente insignificante no combate à pobreza no País e ainda aumentará o desemprego em São Paulo, Rio de Janeiro e na Zona Franca de Manaus. Esta é a conclusão de um dos estudos apresentados ontem pelo Banco Mundial (Bird) sobre os impactos da liberalização negociada em Genebra e que deve ser concluída até o final de 2006. Segundo a avaliação, só 235,8 mil brasileiros sairiam da condição de pobreza como resultado de Doha, 0,37% da população nacional.

O estudo faz parte de uma série de relatórios encomendada pelo Bird. O impacto das negociações para o Brasil, ainda que positivo, é muito modesto, diz um dos autores do estudo, Joaquim Bento de Souza Ferreira Filho, da Escola de Agricultura da USP. Segundo o estudo, a conclusão é clara: Mesmo choques comerciais importantes não geram uma dramática mudança na estrutura da pobreza e da distribuição de renda no Brasil. Outro estudo mostra que, em 15 anos, o impacto seria um pouco mais significativo. Mesmo assim, a abertura total dos mercados, possibilidade recusada pelo Brasil nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC), retiraria da pobreza no máximo 3% da população. No estudo, pobres são os que têm renda mensal de até US$ 48 (R$ 115).

Não se pode acreditar que o comércio e o acesso aos mercados ricos resolverão a questão da pobreza no mundo. Há muito mais o que fazer, disse Thomas Hertel, consultor do Bird.

Em todo o mundo, o banco avalia que só 4,5 milhões de pessoas deixariam de ganhar US$ 1 por dia com a Rodada Doha. Ela precisará ser muito ambiciosa para que não acabe sendo irrelevante para o combate à pobreza, estimou Hertel, lembrando que a redução dos subsídios à exportação só beneficia grandes produtores, e não os trabalhadores rurais. Ele defende um amplo corte de tarifas entre os próprios países emergentes.

Para realizar os estudos, os especialistas montaram dois cenários. No irrealista, seria estabelecido o livre comércio no mundo e eliminação total de subsídios.

Mesmo assim, o número de pessoas no Brasil que sairia da pobreza somaria só 481 mil.

O segundo cenário é de um corte mais modesto nas tarifas.

No setor industrial, por exemplo, 50% das barreiras seriam retiradas. No setor agrícola, tarifas cairiam em até 75%, os subsídios domésticos seriam reduzidos e o apoio à exportação seria eliminado. Nessas condições, os especialistas reconhecem que as famílias mais pobres teriam os maiores ganhos no Brasil. A avaliação é de que a renda da camada mais miserável no País aumentaria em 1,3%, ante uma leve queda na renda da população mais rica.

DESIGUALDADES

Para os economistas, isso é um avanço no combate às desigualdades no País. Mas os resultados seriam tão tímidos que pouca diferença fariam de imediato.

Mesmo no caso de um total livre comércio, o aumento de renda das famílias mais pobres seria de 3,6%.

Segundo os especialistas, o impacto reduzido da abertura provaria ao Brasil que o País ainda está pouco exposto internacionalmente e que o agronegócio será o grande trunfo brasileiro no comércio internacional e o principal responsável por criar empregos para os pobres.

Segundo o estudo, as 235 mil pessoas que seriam retiradas da pobreza no Brasil são as que hoje trabalham no setor agrário. Não por acaso, as regiões mais beneficiadas pela rodada da OMC serão tanto os Estados mais pobres como os que se dedicam à produção de alimentos para a exportação. Praticamente todo o setor agrícola brasileiro ganharia com a liberalização. As atividades na indústria do açúcar aumentariam em 4,5%, enquanto o setor de carnes teria um aumento de 7,78%. No geral, as atividades agrícolas teriam uma expansão de 1,35% no Brasil. Com maiores possibilidades de lucro na agricultura, até mesmo as terras no País teriam uma valorização de 7,7%.

Na prática, os ganhos com as exportações de alimentos apenas neutralizariam as perdas com automóveis, eletroeletrônicos, máquinas, químicos e outros produtos de alto valor agregado. As atividades no setor de autopeças poderiam ter uma queda de 3,3% com a conclusão das negociações na OMC, enquanto o setor de sapatos perderia 5% e o de materiais elétricos, 1,2%.

Os Estados mais industrializados sentiriam mais impacto da liberalização, entre eles São Paulo e Rio de Janeiro, ante a maior penetração de produtos importados. O Estado de São Paulo teria um aumento de 0,72% no número de pobres, o Produto Interno Bruto estadual recuaria 0,25% e o número de postos de trabalho cairia 0,21%.

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