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Joia maltratada

Às voltas com a maior crise de preços desde a ciração do Pró-álcool (1975), a indústria do etanol vem sendo assombrada por fantasmas do passado. A supervalorização nas bombas ocorrida nos últimos seis meses atingiu em cheio o bolso e a confiança do consumidor. O risco de desabastecimento existe e o governo parece ter perdido a paciência.

A mando do presidente Luiz Inácio Lula da Silva os ministérios de Minas e Energia e Agricultura devem retomar as disc! ussões de medidas que sejam, ao mesmo tempo, estruturantes e saneadoras. O plano é reformular o sistema de financiamento voltado ao setor sucroalcooleiro, definir novos critérios para a estocagem do produto nas destilarias e incentivar ações que estimulem a comercialização futura de álcool. Tudo isso em meio a reajustes que parecem não ter fim.

O efeito cascata da pior entressafra da história recente do país começou no campo, contaminou as distribuidoras e escolheu os postos como destino final. Em junho, o litro do etanol anidro ou hidratado deixava a destilaria custando cerca de R$ 0,60 (sem frete e impostos). De lá para cá, a escalada não parou. Hoje, ambos flertam com a casa de R$ 1,30 e quase toda semana os donos de carros flex são surpreendidos por aumentos na hora de abastecer. Para piorar, nada indica que os reajustes terminaram, especialmente porque a moagem da cana para a produção de álcool em larga escala só come! ça a partir de abril.

Justificativas

Enquanto isso, as vendas de etanol continuam perdendo força e a gasolina voltando à condição de preferência nacional. Encher o tanque com álcool combustível é vantajoso apenas em Mato Grosso, conforme a última pesquisa de preços da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Há seis meses, o cenário era o inverso: o etanol figurava imbatível em 21 estados e no Distrito Federal. A pressão exercida pelo presidente Lula e pelos ministérios da área de energia sobre as usinas tem como objetivo reequilibrar o mercado no curtíssimo prazo, restabelecendo a normalidade até a entrada da próxima safra.

O setor sucroalcooleiro diz não se incomodar com cobranças, mas quer do mercado e do governo contrapartidas à altura. Segundo os usineiros, não foi a opção por produzir açúcar em vez de etanol, e sim o excesso de chuvas e a queda na produtividade das lavouras, que ! levaram à explosão dos preços ao consumidor. “Tivemos movimentos em contrário. Os preços no início da safra estavam baixos demais, a expectativa de produção foi muito grande, as empresas não tinham capital de giro. Ofertamos mais produto do que cabia na demanda, o que levou ao preço baixo, e a safra terminou com baixos estoques”, explica Antonio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

A solução de emergência serviu para estancar os altos níveis de endividamento, aliviou o caixa das destilarias, mas também deixou sequelas. O aumento de preços é, segundo os analistas, uma delas. A outra é a dificuldade de garantir etanol em quantidade suficiente em épocas de baixa produção. Não por acaso o governo decidiu reduzir o volume de álcool anidro na gasolina de 25% para 20% por litro. A nova mistura, que entrará em vigor em 1º de fevereiro, pretende preservar estoques, fundamentalmente — embora não elimine por completo os riscos de falta de produto.

Os meses de entressafra (novembro a abril) não reservam boas notícias nem aos motoristas nem aos produtores. Outros repasses podem ocorrer e há quem aposte que o litro do álcool possa subir mais R$ 0,05 ou R$ 0,10 até março. Em um gesto sem precedentes a Unica recomendou, há duas semanas, a retirada integral do imposto de importação (a tarifa é de 20%) mantido pelo Brasil como forma de facilitar a entrada de etanol estrangeiro. O pedido é visto com preocupação pelos especialistas e pelos órgãos de comércio exterior, que interpretam o fato como um tipo de atestado de incompetência declarado.

Os produtores afirmam que querem a livre concorrência e que não seria justo continuar barrando os concorrentes quando o maior desejo do setor no Brasil é abrir portas no exterior. Por outro lado, concordam que, para evitar oscilações tão bruscas como as vistas nos últimos meses, é preciso ter políticas de longo prazo. Para eles, a crise atual não é diferente das out! ras. “Você tem de reduzir a oferta de etanol na safra para que não haja uma queda de preço tão significativa e ao mesmo tempo exista mais disponibilidade de produto na entressafra e não ocorra um aumento de preço tão expressivo”, completa Pádua. Se os mecanismos de proteção ao produtor e ao consumidor estivessem funcionando, argumenta o diretor da Unica, não haveria crise. “Não dá para o etanol ser competitivo com preços baixos do Rio Grande do Sul até o Amapá”.

Puxão de orelhas

Em um evento público na semana passada, o presidente Lula culpou os usineiros pelos aumentos nos preços do etanol, criticou o setor e pediu seriedade aos empresários. Segundo Lula, o álcool quase acabou pela má conduta das destilarias, do governo e da indústria automobilística. A crise neste momento pode colocar em risco todo o trabalho de publicidade feito pelo Brasil junto aos europeus, japoneses e americanos, afirmou Lula.

Aposta no mercado

Desde o ano passado, há dinheiro públi! co disponível para as usinas investirem no negócio e se protegerem dos solavancos do mercado. As taxas de juros caíram e as dívidas foram renegociadas. Só para estocagem o governo liberou R$ 2,3 bilhões. Pouco ou quase nada, porém, foi capaz de conter as turbulências provocadas pela entressafra e pela crise econômica mundial.

O recurso destinado à formação de estoques, por exemplo, foi pouco acessado pelos produtores porque os bancos exigiam garantias que os usineiros não tinham. Os empresários foram obrigados a despejar alguns bilhões de litros de etanol abaixo do custo de fabricação para se manter de pé. O litro do etanol em alguns postos do país chegou a ser comercializado a R$ 1 ou menos em 2009.

Essa superoferta distorceu o sistema de comercialização, que agora procura se ajustar da pior e mais traumática maneira. José Nilton de Souza Vieira, coordenador geral de acompanhamento e avaliação do Departamento do Açúcar e do Álcool do Ministério da Agricultura, di! z que a meta é normalizar o setor o quanto antes. De acordo com ele, o governo não tem como e não quer controlar tudo. O interesse do Estado é encontrar saídas que evitem altas e baixas tão bruscas. “O excesso de intervenção acaba sendo um fator de insegurança para o investidor”, reforça.

Os mecanismos de blindagem ao setor sucroalcooleiro, como estoques e novas linhas de financiamento, deverão estar maduros em 2011. Até lá, o consumidor continuará refém da sazonalidade tão conhecida pelos donos de carros flex. “A crise é inerente a um mercado que ainda é insipiente”, adverte o técnico do Ministério da Agricultura. O caminho a ser adotado pelo governo prevê a regulação pelo próprio setor, sem participação do setor público. “Estamos apostando no mercado”, completa Vieira. (LP)

Reserva

O modelo de estocagem de etanol obriga que as usinas reservem meio litro para cada litro de álcool produzido e comercializado. O val! or do combustível anidro e hidratado financiado é de R$ 0,70 (valor de referência). Quando estiver no auge, o programa de estoques privados deve responder por 5 bilhões de litros.

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