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Açúcar em alta no mercado mundial

Plínio Nastari, presidente da Datagro Consultoria

Após atingir 30,4 centavos de dólar por libra-peso no mercado de Nova York em fevereiro, e cair para 13,0 centavos em maio, o preço do primeiro futuro de açúcar voltou a subir novamente, atingindo máximo de 24,69 centavos em 16 de setembro. Desta vez o motivo não é a Índia, mas sim o Brasil.

A recente alta vem sendo gestada nos últimos meses por episódios como a seca na Rússia e o excesso de chuvas no Paquistão, que contribuíram para reduzir as perspectivas de um excedente mais significativo na safra 10/11, depois de dois anos de déficit. Excedente que hoje não é nem de perto suficiente para aplacar a queda na relação estoque-consumo mundial atualmente em nível considerado muito baixo, em torno de 32%.

Mas nenhum desses fatores tem afetado tanto o mercado quanto a falta de chuvas na região Centro-Sul do Brasil, em 2010. Em micro-regiões importantes tem sido observ ada estiagem agrícola superior a 160 dias, afetando em níveis muito acima do que seria possível prever a cana disponível para moagem no segundo semestre deste ano.

Em condições normais, uma ligeira estiagem pode até ter efeito benéfico para a cana-de-açúcar, pois o estresse contribui para sua maturação, e a perda de tonelagem por hectare é quase sempre compensada por aumento no teor de açúcares contidos em cada tonelada.

Mas estiagem prolongada como a que vem sendo observada neste ano acaba resultando em perdas reais, pela deterioração da qualidade da matéria prima e maiores perdas na extração industrial. A estiagem está fazendo com que esteja ocorrendo uma antecipação do corte de talhões antes de completarem o ciclo completo de 12 meses. Canas colhidas entre janeiro e março de 2010 estão com crescimento comprometido, tornando praticamente certo que não haverá moagem significativa na entressafra, como ocorreu nos dois anos anteriores.

Avaliações agronômicas i ndicam que deverá ser menor a disponibilidade de canas para moagem no inicio da próxima safra, pois a brotação das soqueiras está bem menor do que seria considerado normal.

A produção de açúcar brasileira na safra 10/11 será recorde, devendo atingir 37,8 milhões de toneladas, 14,9% mais do que no ano anterior.

O volume a ser exportado deve ultrapassar 25,3 milhões de toneladas, crescendo 15,8%. Todo esse crescimento tem encontrado dificuldades para o seu escoamento na região Centro-Sul, a maior produtora e exportadora. Os investimentos em infra-estrutura portuária não acompanharam o ritmo de expansão da produção e das exportações nessa região, valorizando ainda mais os espaços já ocupados e os ativos instalados.

Para o mercado, o que importa é o futuro. As conseqüências agronômicas da seca no Centro-Sul passaram a ser acompanhadas de perto pelo mercado mundial, visto que o Brasil é responsável por 48% das exportações totais.

A valorização do açúcar compen sa a apreciação do real, garante fluxo importante de divisas com suas exportações, permite redução do endividamento das empresas, e dá novo fôlego a investimentos em mecanização de colheita e plantio. Mas não tem gerado, até o momento, um renascimento do interesse pela construção de novas unidades industriais.

Enquanto isso, a demanda doméstica potencial por etanol continua em expansão acompanhando o ritmo de crescimento da frota flex, que já ultrapassa os 11 milhões de veículos. Demanda que poderá se materializar, ou não, dependendo do preço relativo entre o etanol hidratado e a gasolina, abrindo a perspectiva de que a demanda de gasolina varie de forma significativa, e inversa, à do etanol.

O preço mais elevado deve estar, de maneira quase geral, sendo recebido com euforia pela indústria brasileira.

Mas ela não deve esquecer que esse preço é também muito bem-vindo por produtores em outros países produtores, e que o açúcar permanece sendo a commodity agrícola com a maior volatilidade de preço.

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