Usinas

Lá vamos nós de novo

Confira artigo de Arnaldo Luiz Corrêa, da Archer Consulting

Arnaldo Correa
Arnaldo Correa

O mercado futuro de açúcar em NY fechou a sessão de sexta-feira (4) com uma pujante recuperação comparativamente à semana anterior. O contrato futuro com vencimento para março/23 encerrou a semana cotado a 18.68 centavos de dólar por libra-peso, 110 pontos acima do fechamento da sexta-feira, equivalentes a pouco mais de 24 dólares por tonelada. Os demais vencimentos fecharam todos no campo positivo com variações entre 31 e 108 pontos (de 7 a 24 dólares por tonelada).

O petróleo tipo Brent (que serve de referência para a Petrobras) e o WTI igualmente encerraram a semana em alta após o governo chinês declarar que fará mudanças substanciais na restrição de mobilidade imposta por conta da política de covid-zero. A notícia da abertura trouxe um alívio para o desalentado mercado de commodities. A China é a locomotiva do planeta, como sabemos. Se eles espirram, o resto do mundo pega pneumonia.

Com o petróleo subindo 5% na semana, a defasagem do preço da gasolina cobrado na refinaria pela Petrobras e o preço negociado no mercado internacional está ao redor de 13%. Independentemente disso, o etanol hidratado negociado na B3 se recuperou e negocia a menos de 100 pontos de desconto em relação ao açúcar em NY.  O dólar despencou em relação ao real chegando a negociar a R$ 5,0200 na sexta-feira, a menor cotação desde junho, mas fechando a R$ 5,0600.

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A informação que vem de várias usinas dá conta de que o preço de muitos dos insumos que compõem a formação de preço da cana/açúcar/etanol está menor nesta safra do que na safra passada. Lembrando que o dólar chegou a negociar próximo de R$ 5,8800 no ano passado e a escassez de alguns insumos químicos provocou a elevação substancial de seus preços, em sua maioria negociados em dólares.

Assim, partindo de uma base anterior artificialmente tão alta, espera-se que o custo de produção do açúcar em reais por tonelada seja mais baixo. Curiosamente, ocorre que como o real se valorizou frente à moeda americana – e tudo indica que pode se valorizar ainda mais com a entrada de dinheiro novo vindo do exterior – o custo de produção em centavos de dólar por libra-peso deve subir!!

Note que o maior concorrente do Brasil – a Índia – assistiu sua moeda se desvalorizar em relação ao dólar americano. Dessa forma, com a desvalorização da rúpia concomitante à valorização do real o que vimos foi o custo de produção dos dois países convergirem.

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Nossos dados apontam que o custo de produção estimado na Índia está em torno de 18.50 centavos de dólar por libra-peso, enquanto o custo caixa no Centro-Sul, sem depreciação, amortização, nem custo financeiro, fica em torno de 14.50 centavos de dólar por libra-peso. Mas, se incluirmos todos esses, o custo médio salta para 17 centavos de dólar por libra-peso FOB Santos. Caso a moeda brasileira atinja R$ 4,6000 (uma valorização de 8.5%), o custo de produção do Centro-Sul se iguala ao custo de produção indiano. Inacreditável.

Obviamente há de se reconhecer que a Índia deu um salto nos tratos culturais nos canaviais, usando novas variedades e tendo volume hídrico adequado. Caso ocorra – como se espera – uma correção nos preços da Petrobras e a manutenção das expectativas em relação ao retorno dos tributos federais sobre os combustíveis suspensos pelo presidente da república com visível fim eleitoreiro, não é uma verdade irrefutável que a próxima safra será mais açucareira. As usinas fazem conta e muita gente tem expressado opinião diferente acerca do mix de produção.

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O problema reside na política a ser adotada pelo próximo governo. A deputada e presidente do PT, Gleisi Hoffmann, confirmando sua capacidade inesgotável de falar sandices, postou numa rede social que é contra a distribuição de dividendos da Petrobras, pois a empresa “tem de servir ao povo brasileiro”. Tivesse o mínimo necessário de neurônios no cérebro, a deputada lembraria que a Petrobras é uma empresa de economia mista. O anacronismo dessa gente é conhecido, mas não menos espantoso. A deputada está preparando o terreno para dar respaldo às barbaridades que o presidente eleito pretende fazer com a tal conversa de “abrasileirar” o preço da gasolina. O setor que se prepare.

Há de se louvar, no entanto, a Lei das Estatais aprovada no governo Temer que estabelece que os membros do Conselho de Administração e os indicados para os cargos de diretor, inclusive presidente, diretor-geral e diretor-presidente tenham experiência profissional de no mínimo 10 anos na área de atuação da empresa.

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A lei veda a nomeação de políticos ou pessoas que tenham atuado nos últimos 36 meses como participante de partido político ou cargo em organização sindical. O PT quer apontar o senador Jean Paul Prates que, pela regra atual de governança está impedido. Será que a empresa está mesmo blindada ou já vai começar cedo a farra da malta petista?

Arnaldo Luiz Corrêa é gerente de Riscos do mercado de commodities agrícolas, diretor da Archer Consulting e graduado em Administração com MBA em Gestão Empresarial pela FGV.

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