As dificuldades do setor

As empresas do setor estão parando. O desemprego aumenta. A recuperação judicial, na maioria dos casos, não viabiliza a retomada. A quebra já faz parte do cenário. A volta da CIDE e o aumento do etanol na gasolina contribuem mas não resolvem.

A bioenergia, etanol e bioeletricidade, não são mais protagonistas da matriz energética brasileira.

Em entrevista ao Estado de São Paulo, edição de 04 de janeiro, o ex-Ministro Roberto Rodrigues propõe uma nova edição do PROER, adaptado ao setor sucroenergético. É a afirmação enfática, por uma das melhores e competentes cabeças do setor do agronegócio brasileiro, que a situação é absolutamente grave.

Merece todo apoio a proposta do Ministro Roberto Rodrigues. Considerando as dificuldades econômicas que o país atravessa, onde o governo federal mal está dando conta de manter-se em pé, o setor pode e deve construir alternativas que contribuam para recolocar no bom caminho as empresas que compõem esta atividade, sem contar, portanto, com recursos em moeda do tesouro nacional.

O alto endividamento, as dificuldades contábeis, o preço atual do barril de petróleo, dificultam a financiabilidade dos projetos de exploração e ampliação do refino e sugerem repensar a matriz de combustíveis líquidos. Bem como, um possível novo modelo climático com impacto forte na reserva hidrológica de energia, convoca para uma importância maior da bioeletricidade. É uma janela de oportunidade.

Mas, sem uma grande reestruturação o setor sucroenergético terá uma dificuldade maior para superar a crise atual. A implementação de qualquer proposta somente não será mais complexa do que deixar o setor à deriva. Portanto, não desconheço as dificuldades.

As dificuldades: alto endividamento, baixo investimentos para manter a capacidade produtiva, aumento de custo da produção, preços dos produtos tangenciado os custos e, principalmente, falta de um programa do governo federal para o etanol e a bioeletricidade.

Os players envolvidos nessas dificuldades e que têm interesse na solução: (1) as empresas do setor sucroenergético que precisam superar as dificuldades para evitar a quebra; (2) as diversas instâncias de governo que não podem prescindir dos empregos gerados, dos tributos arrecadados, da contribuição com a matriz energética e com a pauta de exportação; (3) os bancos que carregam o endividamento do setor; (4) as multinacionais de fertilizantes e herbicidas que não querem perder um mercado expressivo (5) as tradings que ganham sobre a comercialização dos produtos; (6) os empregados do setor que precisam manter os postos de trabalho; (7) a indústria de bens de capital fornecedora do setor; (8) as empresas prestadoras de serviço que contribuem para o desenvolvimento do setor.

Os interesses são muitos. Como articular estes interesses em favor de uma proposta?

Dos países emergentes possivelmente o Brasil é o que tem ferramentas jurídicas e financeiras mais desenvolvidas que se bem articuladas, considerando os interesses envolvidos, podem contribuir para a retomada.

Três aspectos devem merecer um tratamento emergencial (1) o elevado endividamento; (2) o passivo tributário; (3) a falta de recursos para investimentos, que se resolvidos propiciará às empresas do setor terem fôlego para cuidar de outros aspectos importantes da reestruturação.

A maior parte do endividamento é com bancos. Algumas unidades têm conseguido negociar com os bancos. Neste aspecto a nossa proposta é que o endividamento venha a compor o capital de fundos de private equity. Nesta modalidade de solução os fundos participam da gestão da empresa, a partir de premissas de desempenho previamente acordadas.

O passivo tributário poderá compor um REFIS especialmente constituído para as empresas do setor, com prazo de carência de um ciclo da cana. No período de carência seriam pagos os juros incidentes sobre o programa de refinanciamento e os tributos correntes do ano em curso.

A falta de recursos para investimentos poderá ser suprida por um fundo especialmente constituído que vai ao mercado buscar dinheiro para alavancar os investimentos. Este fundo poderá ser constituído por agências de fomento, como o BNDES, o BID, que têm conexões com mercado financeiro internacional.

Atendidos estes aspectos emergenciais a reestruturação terá que caminhar para as questões da gestão, com o objetivo de melhorar o resultado e desenvolver mecanismos que levem as empresas para a Governança Corporativa. Comprometer-se com estes aspectos deve ser pré-condição para a reestruturação emergencial.

O primeiro desafio é compor um grupo de trabalho para aprofundar e detalhar estas propostas.

Contribuirá muito se o governo definir um planejamento para o etanol e a bioenergia. Contribuirá ainda mais se em qualquer movimento em favor da retomada do setor despontar um líder. Lider no sentido histórico.

É preciso superar este nó górdio que asfixia toda a cadeia. As condições agronômicas, a tecnologia industrial, a agregação de novos produtos estão disponíveis para um salto de produtividade. O mercado é demandante por etanol e energia elétrica.

A cadeia produtiva sucroenergética pode mais. O Brasil pode mais.

Não haverá futuro sem resolver o presente.

Escrito por José Rubiano.

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