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Vem aí o diesel de cana

O primeiro diesel renovável, obtido da cana-de-açúcar, começará a ser produzido, em escala piloto, a partir do início de 2009, em Campinas, no Techno Park, anunciou ontem a Amyris-Crystalsev, uma joint-venture recém-formada pela Amyris Biotech, líder mundial no desenvolvimento da próxima geração de biocombustíveis, e a Crystalsev, uma das maiores tradings e comercializadoras de etanol do Brasil. A Santelisa Vale, usina de Sertãozinho, será a primeira produtora no mundo do novo combustível em escala comercial. O diesel de cana chegará ao mercado em 2010. O valor do investimento na joint-venture não foi revelado.

O diesel pertence à segunda geração de combustíveis renováveis a partir da cana (o primeiro foi o etanol). O presidente da Amyris, John Melo, explicou que o diesel é biologicamente formulado por meio da fermentação da cana para criar hidrocarbonetos, a mesma estrutura molecular encontrada em combustíveis tradicionais de petróleo. O processo de produção do novo diesel em uma usina é semelhante ao da produção de açúcar e álcool. A diferença é que, no momento da fermentação, a levedura Sacaromice cerevisiae (tradicional fermento biológico) que passou por um processo de reengenharia, separa o óleo existente no processo do caldo da cana. O óleo passa então pela finalização química obtendo, assim, hidrocarbonos.

Pesquisas e testes indicam que esse combustível alcançará escala comercial de forma mais rápida e econômica do que os biocombustíveis já disponíveis no mercado, além de reduzir em 80% as emissões em relação ao óleo diesel tradicional. A idéia não é a de substituir o diesel convencional, mas misturá-lo em altos níveis com outros combustíveis de petróleo.

BARRIL. Segundo Melo, é possível adicioná-lo a uma taxa de até 80%, mantendo as mesmas características. Para o consumidor, o preço será competitivo em relação ao petróleo fóssil, com barril até US$ 60. Hoje o barril está em US$ 120.

A Amyris investiu cerca de US$ 100 milhões no desenvolvimento de uma plataforma de tecnologia que permitiu a reengenharia de microorganismos em “fábricas vivas” para a produção sem danos ao meio ambiente de inúmeros produtos utilizando matérias-primas renováveis, como cana e celulose.

Essa tecnologia surgiu de um projeto para desenvolver uma fonte secundária de Artemísia, um ingrediente-chave para um remédio contra a malária. Nesse caso, a Amyris fez a engenharia de micróbios que podem produzir sinteticamente Artemísia para suprimir limitações atuais no fornecimento desse ingrediente.

AVIAÇÃO. O processo permite obter, além do diesel, gasolina e combustível de aviação. O foco, no entanto, será o diesel, informou o presidente da Crystalsev, Rui Lacerda Ferraz. O grupo não informou os investimentos que serão realizados no Brasil, mas a Santelisa Vale estima que aplicará entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões nas adaptações da usina para transformá-la em uma biorefinaria para a produção do diesel, diz o presidente da usina, Anselmo Rodrigues.

A meta é produzir um bilhão de galões de diesel de cana em cinco anos, a partir de 2010. Atualmente a Santelisa é a segunda maior produtora de açúcar e etanol do Brasil e primeira em co-geração de energia elétrica a partir do bagaço e espera moer este ano 18 milhões de toneladas de cana, produzindo 25 milhões de sacas de açúcar e 770 milhões de litros de etanol, além de produzir e exportar 420 mil Mwh de energia a partir do bagaço. Essa quantidade de energia é suficiente para abastecer uma população de um milhão de habitantes por ano.

Centro passa a ser vitrine

O centro de pesquisa e desenvolvimento da Amyris-Crystalsev em Campinas será uma espécie de vitrine da tecnologia de produção do diesel de cana, informou o diretor-geral da joint-venture, Roel Collier. A plataforma de tecnologia para fazer a reengenharia das leveduras já está pronta, ou seja, não será necessário desenvolver as leveduras no Brasil. Assim, nos laboratórios em Campinas serão trabalhados métodos e modelos para melhorar a tecnologia para escala comercial. “Em outubro começamos a operar um laboratório-piloto nos Estados Unidos e, a partir de 2009, começamos no Brasil a “tropicalizar” o processo, testando com todo tipo de caldo de cana, por regiões, entre outros”, informou.

Ele disse que a Amyris decidiu lançar seu primeiro produto usando matéria-prima de cana-de-açúcar devido aos benefícios ambientais e contando com a posição mundial de liderança do Brasil na produção de combustível alternativo. O plano inicial é abastecer o mercado interno, mas a joint-venture planeja comercializar mundialmente os combustíveis renováveis. O mercado global de diesel é crescente, e a expectativa é de que atinja mais de dois trilhões de litros até 2020. Já no Brasil, projeta-se um crescimento de 45 bilhões de litros em 2007 para mais de 80 bilhões de litros em 2020.

A instalação do centro de pesquisa em Campinas, comentou Collier, levou em conta o fato de a cidade estar em uma região conhecida por ser um pólo de inovação e pela sua localização estratégica, entre São Paulo e o principal centro sucroalcooleiro brasileiro, Ribeirão Preto. O Techno Park hospedará, também, uma instalação piloto que deve começar a funcionar no início de 2009.

AS EMPRESAS

AMYRIS – empresa de tecnologia com sede em Emeryville, nos Estados Unidos, fundada em 2003. É uma empresa de capitais privados que incluem os investidores Kleiner Perkins Caufield & Byers, khola Ventures, TPG Ventures e DAG Ventures. Tem cerca de 150 funcionários e está focada atualmente em trazer para o mercado combustíveis de hidrocarbono renováveis como diesel, gasolina, combustível jato para a indústria de transporte

RYSTALSEV – responsável por comercializar produtos de 17 unidades produtoras no interior de São Paulo, Minas e Goiás, atua também na prestação de serviços para usinas, como uma trading company na compra, revenda de produtos e administração dos ativos do grupo. No ano passado assinou memorando com a Dow Chemical para a construção do primeiro pólo alcoolquímico integrado do mundo para a produção de polietileno com etanol de cana-de-açúcar

SANTELISA VALE – segunda maior produtora de açúcar e etanol do Brasil e primeira na co-geração de energia elétrica a partir do bagaço da cana. A empresa, com mais de 70 anos de história, é referência em tecnologia e inovação no segmento, oferecendo soluções de energia renovável. A empresa é resultante da fusão, no ano passado, entre a Companhia Energética Santa Elisa e a Companhia Açucareira Vale do Rosário

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