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Uma questão de segurança alimentar

Numa conjuntura de menor crescimento econômico internacional, determinada este ano pelo crash imobiliário norte-americano, as estimativas de novo recorde na safra brasileira de grãos devem ser comemoradas com ênfase. Afinal, o agronegócio tem sido um dos principais pilares de sustentação de nosso superávit comercial, não só por sua eficiência, como pelo fato de as exportações de algumas commodities estarem influenciadas por preços internacionais aquecidos em função do aumento da demanda e diminuição dos estoques em todo o mundo. Além disso, dentre os setores de atividade medidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para o dimensionamento do PIB nacional, a agropecuária foi o que apresentou expansão mais expressiva em 2007, evoluindo 5,3%.

Os bons resultados da atividade decorrem de sua expressiva profissionalização, investimentos em mecanização e o consistente aporte tecnológico, cujo parâmetro é o desempenho de institutos de pesquisa públicos e privados, entre os quais a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) — uma referência mundial. São fatores que potencializam a vocação rural do País, somando-se à sua invejável disponibilidade de terras agricultáveis, clima e solo propícios. Este ano, também favorecem as safras, os generosos índices de chuvas, que, de quebra, afastaram o risco de racionamento de energia elétrica.

Na agropecuária, portanto, há um viés de circunstâncias geográficas, climáticas, tecnológicas e relativas à gestão que a impulsiona e lhe possibilita contribuir muito para alavancar a economia brasileira. Em contrapartida, o setor também enfrenta sérios gargalos, cuja solução lhe permitiria alcançar patamares ainda mais elevados. Isto precisa ser considerado uma prioridade, pois quando se trata de alimentos e matéria-prima para a bioenergia, está-se referindo à própria equação da sobrevivência, num planeta cada vez mais ameaçado pela escassez de recursos naturais e carente de combustíveis limpos e advindos de fontes renováveis.

Em síntese, nossa produção agropecuária, por maior que seja, tem ainda imenso potencial (e necessidade!) de fomento. Exemplo incontestável disso é o trigo. Seu cultivo interno cresceu 62,3%. Bastou, entretanto, que os argentinos anunciassem, na segunda semana de abril, que suspenderiam as exportações devido a seus problemas com os agricultores e pressões inflacionárias, para que a cadeia produtiva da farinha entrasse em pânico em nosso país. Teremos de comprar maiores volumes dos Estados Unidos e Canadá, cujo produto é mais caro, com impacto no preço do pãozinho francês nosso de cada dia.

Assim, não se pode mais postergar a solução dos obstáculos que afetam o setor. Os dois mais agudos são a precariedade da infra-estrutura, que, como se sabe, provoca imenso desperdício e maiores custos, e o antigo dilema dos fertilizantes, um drama que acaba de ganhar novos, instigantes e preocupantes episódios. O aumento dos preços agrícolas decorrente da majoração do vital insumo (cuja maior demanda mundial, em especial na China, pressiona as cotações) vem-se transformando numa questão mais séria do que se imaginou a princípio.

Sabe-se que 64% da demanda nacional dos adubos são supridos pela importação. Há, até mesmo, quem levante a existência de um oligopólio controlador dos preços e gerador de aumentos. O fato é que tal alta tem origem no crescente aumento de demanda internacional pelo produto. Esta é a verdadeira causa da elevação do custo de importantes lavouras, dentre elas soja, milho, cana-de-açúcar, café e algodão herbáceo, responsáveis por 78% do consumo de fertilizantes no País. Suposições à parte, o que interessa, na verdade, é estabelecer políticas capazes de ampliar a oferta nacional do insumo. Ter alternativas viáveis nesse sentido é uma questão de segurança alimentar.

Dessa maneira, cabe às autoridades adotarem medida eficaz e justa, de modo que mais empresas possam produzir no Brasil e, as já existentes, produzirem ainda mais. Tais providências também atenuariam a dependência da importação, o que é fundamental, pois na economia globalizada não podemos estar dependentes de apenas alguns poucos fornecedores internacionais que, inclusive, têm adotado restrições às exportações de seus produtos. É necessário pôr fim aos fatores que limitam o agronegócio, pois se a terra depende dos fertilizantes para se manter produtiva, a economia brasileira depende da terra — adubo do PIB —, para seu crescimento sustentado.

*João Guilherme Sabino Ometto, engenheiro (EESC/USP), é vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e presidente do Grupo São Martinho

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