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Sistemas de gestão chegam ao campo

Há alguns anos, investir em softwares que automatizam funções administrativas era uma idéia no mínimo inusitada para os empresários agrícolas brasileiros. Ainda assim, esta foi a melhor solução à mesa quando, no início de 2000, o Grupo Nova América – uma empresa familiar do interior de São Paulo que possui negócios nos ramos sucroalcooleiro, de cítricos e portuário – sentiu a necessidade de integrar as informações contábeis de seus empreendimentos.

Após uma pesquisa de mercado, o grupo – que emprega 6,7 mil pessoas e deve fechar o ano com faturamento de R$ 1,4 bilhão – optou por um sistema da americana Oracle. Com investimentos de US$ 4 milhões, o projeto estreou em meados de 2001.

“Precisávamos padronizar a contabilidade de nossos diferentes negócios. Além disso, como exportamos, faturamos em reais, dólar e euro, o que precisa ser consolidado”, conta Alberto Asato, diretor superintendente do Grupo Nova América.

Não se trata de um caso isolado. Nos últimos anos, o agronegócio – um setor historicamente avesso a investimentos em informática – começou a olhar para a tecnologia da informação com menos desconfiança.

Trata-se de uma conseqüência da competição internacional, o que levou à necessidade de maior profissionalização administrativa. As fusões também impulsionaram esse processo.

Para os fornecedores de sistemas de gestão empresarial – os chamados ERPs – não poderia haver melhor notícia do que a adesão do setor, que responde por um terço do produto interno bruto do Brasil, à lista de potenciais compradores. O campo era a última fronteira para essas empresas, que fornecem tecnologia para empreendimentos de todos os setores produtivos.

A mudança não aconteceu do dia para a noite – na verdade, nem mesmo está concluída. As áreas que envolvem maior beneficiamento, como usinas de cana-de-açúcar e fábricas de sucos, estão mais maduras no uso de informática. A história é diferente para quem lida apenas com plantio e colheita de grãos.

“É preciso separar o produtor de sementes de quem beneficia. No segundo caso temos uma indústria normal, com toda a necessidade de informatização que isso implica”, afirma Eduardo Couto, diretor comercial da RM Sistemas, uma fornecedora nacional de softwares de gestão.

Por isso, apesar das oportunidades recentes oferecidas pelas companhias de agronegócios, os fornecedores de software de gestão são cautelosos com os investimentos na área. Há dois mercados diferentes, explica Laércio Cosentino, presidente da holding Totvs (pronuncia-se Tótus), que reúne a Microsiga e a Logocenter.

O primeiro envolve a venda de módulos como contabilidade e folha de pagamento – o arroz com feijão das empresas de ERP – e não exige nenhuma abordagem específica das companhias de TI.

O segundo mercado compreende a oferta de sistemas específicos para os potenciais clientes do campo. “Existem quase 20 segmentos nos agronegócios, que exigem softwares diferentes”, diz Cosentino.

É uma questão que todos os fornecedores do setor consideram com atenção. “As aplicações específicas para uma avícola, por exemplo, são muito diferentes das requeridas na cultura de grãos”, compara Meva Su Duran, diretora de produtos da alemã SAP.

O ponto principal, dizem os fornecedores, é identificar segmentos com massa crítica suficiente para garantir o retorno do investimento. A Microsiga tem concentrado sua atenção nas cooperativas agrícolas, enquanto a Logocenter abre espaço nas usinas de açúcar e álcool, diz Cosentino. Ambas já entraram no segmento de laticínios.

A SAP também atende cooperativas e a área de cítricos – é o sistema utilizado pela Citrosuco, do grupo Fischer. “Toda as atividades relacionadas ao plantio na Citrosuco, como tratamento da terra e colheita, estão dentro dos nossos softwares aplicativos”, diz Meva.

Para atender às particularidades dos empreendimentos agrícolas, muitas fornecedoras de ERP fazem acordos com desenvolvedoras especializadas em agronegócios. É o caso da brasileira Datasul, que trabalha em parceria com a Próxima, uma pequena companhia nacional que desenvolveu sistemas de gestão para o setor sucroalcooleiro.

Jorge Steffens, presidente da Datasul, afirma que tem cerca de cem clientes na área de agronegócios. “O campo investiu muito em tecnologia de colheita, defensivos, máquinas agrícolas. Mas na parte de gestão ainda há muito por fazer”, afirma.

Já a subsidiária nacional da americana Oracle criou, em janeiro deste ano, uma divisão específica para o setor de agronegócios. “É uma prova da importância que damos ao setor”, diz André Papaleo, diretor de soluções de agribusiness da empresa.

Para reforçar sua atuação nesse segmento, a Oracle também optou por uma política de parcerias. São cerca de 15 empresas, entre integradores de sistemas e fornecedoras de softwares específicos para o campo. “Da porteira para dentro, a parte agrícola específica é toda coberta pelos parceiros”, afirma Papaleo.

A RM Sistemas, que possui mais de 80 clientes no setor de agronegócios, foi pelo mesmo caminho. Para a parte de plantio, a companhia fez parceria com a Athena, empresa focada em consultoria agrônoma que desenvolveu um sistema de cálculo do custo de colheita, analisando as variáveis da lavoura – do clima à preparação do solo. Couto, da RM, acredita que o atual momento de dificuldades do campo, devido a fatores como seca, valorização cambial e queda no preço das commodities, não reduziu a demanda. “Continuamos vendendo bem. A profissionalização da gestão é uma tendência irreversível no setor.”

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