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Replicar boom do gás de xisto é uma missão difícil na China

Quando a Royal Dutch Shell PLC deu início a um projeto multimilionário para explorar gás de xisto na China alguns anos atrás, a aposta parecia ganha. A China tem uma das maiores reservas de gás de xisto do mundo, o maior mercado de energia e um governo empenhado em aumentar a produção.

Mas para a Shell e sua sócia estatal, a China National Petroleum Corp., a realidade nos campos está mostrando que a aposta pode ser mais arriscada.

O terreno acidentado da região, a falta de infraestrutura e as profundas formações de gás criam duros desafios técnicos. A área é tão densamente habitada e cultivada que os locais de perfuração são construídos a até 120 metros das casas em municípios como Maoba – causando transtornos a moradores que reclamam do barulho e da poeira e se preocupam com o meio ambiente. Para diminuir a resistência, a Shell e seus sócios estão compensando moradores e os governos locais pelo uso da terra e das estradas e por outros incômodos.

A experiência da Shell na China, onde ela está se expandindo antes de suas concorrentes, mostra que não será fácil reproduzir o boom do gás de xisto dos Estados Unidos. Embora outros países também tenham gás de xisto – as reservas da China, Argentina, Argélia e México são maiores que as dos EUA, segundo a Administração de Informação sobre Energia dos EUA -, uma série de obstáculos torna a exploração desses recursos muito mais difícil do que em lugares como o Texas e a Pensilvânia.

Em alguns países ricos em xisto, inclusive na China, há escassez de estradas adequadas, prestadores de serviços treinados e padrões de segurança modernos. Outros, como França e Bulgária, ergueram barreiras legais à técnica de fraturamento hidráulico, ou “fracking”, necessária para a exploração do gás de xisto. E ao contrário dos EUA, onde os proprietários de terras são também donos do gás no subsolo, os minerais em muitos países pertencem ao Estado, de modo que os moradores têm pouco incentivo para apoiar a perfuração.

O Brasil e a Argentina passarão por esse teste em breve. A petrolífera estatal argentina YPF SA assinou em julho acordo com a Chevron Corp. para explorar Vaca Muerta, uma formação de gás de xisto no sul do país. De acordo com a AIE, o campo teria 8,7 trilhões de metros cúbicos de gás recuperável. O Brasil pode ainda este ano fazer as primeiras licitações de campos de gás de xisto.

Na China, desde o início do projeto de exploração da Shell, em maio de 2010, até março de 2013, a empresa já perdeu 535 dias de trabalho em 19 poços devido a “bloqueios espontâneos nos municípios” ou solicitações de governos para interromper as operações, disseram executivos da empresa em março, num documento entregue durante um evento do setor. Grande parte das reclamações dos moradores deriva de disputas sobre pagamentos, diz o documento.

Os executivos da Shell dizem que a empresa está num estágio preliminar no seu projeto de gás de xisto na China – ela só perfurou cerca de 30 poços – e é ainda cedo para se falar em sucesso ou fracasso. Eles dizem que a perfuração está dentro do cronograma e que uma população numerosa e uma geologia difícil são o tipo de desafio que petrolíferas encontram ao entrar em novas regiões. A Shell não revelou o custo estimado do projeto, mas afirmou que está gastando US$ 1 bilhão por ano na China com o desenvolvimento de fontes não convencionais de combustível, como o gás de xisto.

A própria formação rochosa é de extração mais difícil na China. As forças subterrâneas são altas, e já houve deformações na tubulação do revestimento de alguns poços da Shell no país, segundo um documento da empresa. “Em geral, você tem que perfurar mais fundo” na China para chegar ao gás de xisto, disse o diretor de tecnologia da Shell, Gerald Schotman.

Preocupações com o meio ambiente também estão aumentando na China. O país ainda não finalizou a regulamentação do fraturamento hidráulico e, para combater a inflação, o governo controla o preço de venda do gás, o que pode afetar os lucros.

Mesmo assim, o consumo de energia crescente, reservas abundantes e o interesse do governo em substituir o carvão pelo menos poluente gás natural tornam a China um destino atraente para grandes petrolíferas como a Shell.

“O gás natural tem o potencial de provocar uma revolução energética semelhante à que já está em curso na América do Norte”, disse o diretor-presidente da companhia, Peter Voser, num discurso na China em 2012.

A China pretende elevar a proporção de gás natural para 8% do total do consumo de combustíveis no país até 2015, a partir de cerca de 4% em 2010. O governo tem uma ambiciosa meta de produzir 6,5 bilhões de metros cúbicos de gás de xisto por ano até 2015, comparado com quase zero no ano passado.

Um dos motivos do interesse da Shell na China é que ela ficou, em grande parte, de fora do boom de gás de xisto nos EUA. Firmas menores foram as pioneiras do “fracking” no país, abocanhando muitas das áreas mais ricas. Quando as grandes petrolíferas como a Shell e a Exxon Mobil Corp. compraram seus blocos, elas pagaram prêmios altos numa hora em que os preços do gás já estavam em queda.

A Shell e a CNPC descobriram gás num poço exploratório em 2011. Aí, em 2012, a Shell saltou na frente de suas rivais ao se tornar a primeira – e até agora única – empresa estrangeira a firmar um acordo de compartilhamento da produção com a CNPC na Bacia de Sichuan. Concorrentes da Shell como ConocoPhillips Co. e Chevron também estão explorando xisto na China, mas não fizeram contratos deste porte.

Em Maoba, moradores como o agricultor Deng Fagui receiam que as operações comprometam a qualidade da água. Ele disse que a água que retira de um poço para beber e tomar banho vem perdendo a transparência desde que a perfuração começou, em abril. A Shell afirma que toma providências para impedir a poluição dos lençóis freáticos.

A Shell compensa os moradores pelo uso da terra e outros transtornos. Um dono de terra que concede uma área de cerca 700 metros quadrados para a exploração deve receber pelo menos US$ 1.400 ao longo de dois anos em troca, diz um funcionário do governo local, Chen Jiayou. A Shell afirma que os pagamentos são transferidos para o alto escalão das prefeituras, que os distribui para os líderes comunitários, em alguns casos em dinheiro.

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