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Regras sem intervenção

O Grande evento sobre etanol realizado pela Unica nos últimos dias 4 e 5 foi uma extraordinária reafirmação da agroenergia como o novo paradigma da agricultura. Já não pairam dúvidas de que a geoeconomia agrícola mundial sofrerá profundas alterações, seja porque países hoje miseráveis devem se transformar em produtores de biocombustíveis para os ricos, seja porque a produção de alimentos poderá ser em parte deslocada, seja pela positiva interferência nas mudanças climáticas.

Temas controvertidos foram tratados com seriedade científica.

Foi assim com a recorrente questão de que o aumento da produção de etanol e biodiesel reduzirá a oferta de alimentos: ficou claro, e a maior expressão nesse sentido foi dada pelo ex-premiê espanhol Felipe González, que esse é um “falso dilema”, como já o sabíamos desde sempre aqui no Brasil. E o eventual aumento do preço do milho nos Estados Unidos, determinado pelo uso desse grão para produção de etanol, é apenas uma circunstância, e o simples crescimento da área plantada de milho neste ano naquele país, de 15%, tende a reequilibrar os preços.

Da mesma forma, o crescimento da oferta de cana no Brasil em 11% neste ano já derrubou o seu preço. É claro: sempre que um produto agrícola tem preços maiores, aumenta a produção muito depressa, e o mercado logo ajusta eventuais desnivelamentos de preço. Esse tipo de ciclo é característico da agricultura. Também ficou esclarecido -e aqui foi o governador Serra o principal expositor- que a floresta amazônica não é o melhor lugar para plantar cana, porque é muito quente e úmida, o que inibe o processo fisiológico natural do amadurecimento da gramínea. Por isso, os canaviais brasileiros crescerão principalmente sobre áreas de pastagens degradadas, o que trará o benefício da produção de alimentos onde antes não havia, dado que, na renovação dos canaviais a cada cinco anos, é possível produzir comida. É por isso que dois municípios canavieiros por excelência -Jaboticabal e Sertãozinho- são os maiores produtores de amendoim.

Foi evidenciada a vantagem ambiental dos biocombustíveis, seja porque as plantas -matérias-primas para eles- seqüestrem CO2, seja porque eles emitem menos CO2 que os combustíveis fósseis. Assim, os biocombustíveis terão maior relevância na redução do aquecimento global.

Por último, não sobra dúvida alguma sobre o papel preponderante que o Brasil terá na construção de uma nova civilização, em cujo umbral nos encontramos, do combustível renovável, ecológico, democrático (porque qualquer país pode fazer o seu). Pela primeira vez, temos a chance de conduzir um processo universal a partir do nosso conhecimento, e não iremos a reboque de ninguém: ao contrário, seremos a locomotiva do processo.

Para tanto, mais uma vez ficou clara a necessidade de uma grande coordenação entre os setores público e privado para o desenvolvimento da grande estratégia nacional para inserção global, discutindo logística, estocagem, tecnologia, recursos humanos, alcoolquímica, zoneamento agroecológico, financiamento e tantos outros temas. Mais uma vez ficou claro que essa estratégia precisa articular as ações de todos os agentes governamentais para definir as regras todas para o modelo de produção que queremos, com uma certeza: nada de intervenção do governo! Passou o tempo para isso. Mas regras claras são necessárias, para que os agentes econômicos, os produtores e os consumidores saibam como agir.

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