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Prioridade no Papel

Na formatação de um novo modelo de oferta de energia elétrica para o Brasil, o programa do Governo Lula prevê o emprego da Geração Distribuída (geração elétrica feita junto ao consumidor, independente da fonte de energia ou dimensão do gerador). A idéia, embora não seja nova, ficou restrita, no passado, às emergências e às aplicações isoladas no sistema. Daí a nossa preocupação: mudou o governo, muda-se a filosofia, mas muitas cabeças pensantes ainda rezam pelas velhas cartilhas.

Defendemos a Geração Distribuída como parte integrante do sistema elétrico brasileiro por motivos tão óbvios, só não considerados pelos pensamentos retrógrados que não enxergam a eficiência energética, também, como importante fator econômico no atendimento da demanda e que ignoram as novidades técnicas nesta área.

Hoje, por exemplo, não existem mais as dificuldades técnicas para sincronizar os geradores distribuídos com o sistema elétrico nacional (operação “em paralelo”). Para o sistema elétrico, quando um deles é ligado, é como se uma carga de igual potência estivesse sendo desligada. Além disso, o custo da energia proveniente da Geração Distribuída vem sendo reduzindo, tornando-a competitiva junto ao consumidor. E mais: a tendência é tornar a Geração Distribuída mais eficiente por meio da co-geração (aproveitamento do calor/frio no processo) e pela utilização de combustíveis de custo zero, como os resíduos agro-industriais (cana-de-açúcar) e urbanos (como o lixo).

O modelo tradicional do setor elétrico nacional peca por abrigar unicamente grandes geradores centralizados que exigem longas linhas de transmissão e distribuição com suas perdas associadas. De acordo com informações da própria ONS, se instalado na Europa, o sistema elétrico brasileiro interligaria Lisboa a Moscou.

No entanto, embora tenha as dimensões do continente Europeu, o “nosso” sistema atende uma carga equivalente à da Inglaterra ou à da Itália com áreas 25 vezes menores do que a do Brasil. Desta forma, para garantir a estabilidade e atender os horários de ponta, o sistema brasileiro abriga investimentos elevados e equipamentos ociosos que podem ser substituídos com vantagem caso a Geração Distribuída seja considerada, mesmo que como energia complementar, e adaptada a ele.

E nem estamos ainda considerando outras vantagens. As soluções de Geração Distribuída podem ser implantadas rapidamente e de forma mais gradual, por exemplo, permitindo reduzir a ociosidade do sistema.

Para os consumidores com vocação para a Geração Distribuída, a vantagem direta é a energia mais barata e de maior qualidade, já que são menores os riscos de interrupções. Indiretamente, os ganhos também podem ser importantes para empresas que têm resíduos de processo combustível e vocação para co-geração, pois aumentarão a economicidade por meio da reciclagem desses produtos.

Já para empresas elétricas, a Geração Distribuída é uma oportunidade de novos negócios que transcende as fronteiras de concessão. Com efeito, nem todos os consumidores com potencial de Geração Distribuída desejam investir e/ou operar estas unidades complexas e estranhas às suas atividades-fim.

Assim, criam-se oportunidades para as empresas que, ao considerarem a Geração Distribuída, podem melhor planejar as suas redes, evitando ou adiando investimentos e, ainda, prestar serviços diferenciados. As empresas precisam agir logo e trabalhar bem, pois este é dos ramos do serviço onde efetivamente não existe o “monopólio natural”. A idéia é simples, mas exige uma autocrítica e análise interna profunda para rever os novos papéis e missões das empresas nessa nova realidade. Felizmente algumas empresas já estão raciocinando com a nova lógica.

Mais cedo ou mais tarde, a Geração Distribuída sairá do papel. Os erros recentes do setor afastam novos investidores cuja situação internacional é também crítica. Não há também como reeditar o fôlego econômico dos “anos dourados do setor elétrico” (60/70) que contava com recursos dos estados, Banco Mundial e mecanismos (empréstimo compulsório, Imposto Único, reinversão de dividendos da União, Imposto de Renda com alíquota de 6%, etc), extintos em 1988. Por isso, esperamos que a proposta contida no programa para o setor elétrico durante a campanha eleitoral não tenha sido apenas um item politicamente correto apresentado pelo governo eleito.

O engenheiro Jayme Buarque de Hollanda é diretor geral do INEE – Instituto Nacional de Eficiência Energética e diretor do Fórum de Co-geração e Geração Distribuída.

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