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Prevenções ao surto do etanol

Os estrangeiros chegam e investem pesado, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) vai aplicar US$ 2 bilhões; o governo italiano, mais US$ 480 milhões; outros países da União Européia (UE) estudam oportunidades; quatro prestigiados investidores norte-americanos (entre eles o ex-presidente do Banco Mundial James Wolfenson) constituíram no Brasil o Fundo Brenco; o megafinancista George Soros trouxe US$ 900 milhões; os presidentes Bush e Lula fecham acordo para expandir fabricação e fazer do produto uma commodity a ser negociada nas Bolsas do mundo inteiro. É o surto do etanol no Brasil, o biocombustível renovável, a energia limpa que o mundo passou a olhar com curiosidade e cobiça, sobretudo depois que os cientistas assombraram a humanidade com a notícia de que o aquecimento global, provocado por emissão de gases dos combustíveis fósseis, tem agravado a enfermidade do planeta, ameaçando a sobrevivência humana.

O fenômeno tem sido apresentado por aqui como a grande chance que se abre ao Brasil e aos brasileiros. E é verdade.

Mas pouco ou nada se fala sobre os efeitos colaterais, as ações preventivas para evitar danos, os cuidados que devem acompanhar a bem-vinda invasão dos

biodólares no País que The Wall Street Journal já chamou de Arábia Saudita do etanol. Se a pergunta for feita aos empresários do ramo, a unanimidade vai responder: melhor manter o governo fora para não atrapalhar, o BNDES financia novos empreendimentos e ponto final, pára por aí. Mas não há como fugir do papel que cabe ao Estado de zelar pelo equilíbrio ecológico, proteger o meio ambiente, não permitir desmatamentos criminosos. O problema é que, no Brasil, as instituições que tratam do meio ambiente, regulam e fiscalizam negócios de energia estão loteadas entre partidos políticos ou dominadas por preconceitos ideológicos (caso do Ibama) que paralisam projetos, impedem o progresso e costumam decidir mais por critérios políticos do que por capacitação técnica e gerencial.

Caberia, então, às empresas privadas a iniciativa de garantir a expansão de terras plantadas com cana sem incendiar florestas, ampliar a construção de usinas sem poluir o meio ambiente, não destruir lavouras de alimentos essenciais para plantar cana e não esquecer de investir em logística, na construção de dutos para transportar o álcool até os portos de exportação.

Mas as empresas brasileiras estão dispostas e preparadas para cumprir este papel? Algumas, sim, outras, não.

Mas preocupa a reação de alguns empresários contra a decisão da UE de criar uma lei exigindo de exportadores de biocombustíveis do mundo inteiro certificados de sustentabilidade ambiental para seus produtos. A Europa tem por meta abastecer 10% de sua frota de veículos com etanol até 2020, admite que terá de importar maciçamente o produto e reconhece a força do Brasil como grande supridor, mas não queremos que ocorram desmatamentos ou problemas ambientais em outras partes do mundo, definiu um representante da UE.

Em resposta, o diretor-técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) de São Paulo, Antonio Pádua Rodrigues, condenou a iniciativa dos 27 países da UE, vendo nela uma tentativa de barrar as exportações do Brasil, impondo barreiras além das tarifárias.

Há dias a TV Globo mostrou imagens, feitas na madrugada no interior de São Paulo, de florestas incendiadas para plantar cana, dando razão aos europeus. Mas felizmente há outros empresários que pensam diferente de Rodrigues. O presidente do Sindicato da Indústria de Açúcar e Álcool de Minas Gerais, Luiz Custódio Cotta Martins, por exemplo, aprovou e justificou o certificado ambiental: Não podemos admitir que um produto ambientalmente correto tenha práticas ambientalmente incorretas. A atitude adequada do Brasil seria antecipar-se e voluntariamente instituir o certificado ambiental para o etanol, provando que por aqui também perseguimos o progresso preservando o meio ambiente. O problema é quando a questão chega ao governo e passa a enfrentar aquela velha disputa de poder político: quem emite o certificado, o Ibama ou o Ministério da Agricultura?

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