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Os fazendeiros de Minnesota

Saiu no “New York Times”, na semana passada, a seguinte declaração sobre o Brasil: “No futuro, o país pode se transformar em uma potência como a Opep e determinar os preços da soja em todo o mundo”.

A frase não é de um brasileiro ufanista -foi dita por um especialista em soja da Universidade de Minnesota, Seth Naeva, que se diz preocupado com o crescimento das exportações agrícolas brasileiras. É mais um sinal de que o avanço brasileiro em agronegócios incomoda concorrentes mundiais. Alguns incidentes comerciais das últimas semanas apontam na mesma direção, como o embargo chinês à soja, o obstáculo russo e argentino à carne brasileira e a disputa do algodão com os EUA.

A própria declaração do professor de Minnesota foi feita no contexto de uma nova reação contra um produto do agronegócio brasileiro, o álcool. Os fazendeiros de Minnesota estão indignados com uma multinacional norte-americana, que, aliás, tem sede nesse mesmo Estado norte-americano, porque ela está montando um plano para exportar álcool brasileiro para o mercado dos EUA.

Para reduzir a poluição, vários Estados norte-americanos já adotaram a mistura do álcool à gasolina. O Brasil é o maior e mais eficiente produtor mundial de álcool combustível. Pode fornecê-lo ao consumidor norte-americano por um preço muito menor do que o do álcool de milho produzido pelos fazendeiros de Minnesota. Mas existe uma pesada restrição tarifária de US$ 0,54 por galão que praticamente impede a exportação brasileira.

Para driblar essa tarifa, a multinacional norte-americana planeja construir uma fábrica em El Salvador, cuja função seria desidratar o álcool brasileiro e reexportá-lo para os EUA. A operação pode funcionar porque os EUA mantêm um acordo que beneficia produtos de Caribe com isenção tarifária, dentro de certos limites.

É possível que a reação dos fazendeiros de Minnesota frustre a operação caribenha da multinacional. Mas essa escaramuça, como as outras na área de commodities, exige que os próprios brasileiros se dêem conta da importância que o Brasil começa a assumir no cenário mundial dos agronegócios.

Sinais claros disso estão nas estatísticas sobre as exportações brasileiras. Fui mexer nos dados semanais e observei um detalhe importante, mais relevante até do que o superávit semanal da balança comercial, que se aproxima da casa do bilhão de dólares: o Brasil exportou, na terceira semana de junho, US$ 440 milhões por dia útil, em média. Esse valor, multiplicado por 240 (número médio de dias úteis por ano, no Brasil), totaliza US$ 105 bilhões. Ou seja, o nível atual das vendas externas aponta um valor anual já superior a US$ 100 bilhões em exportações. Não vale, nesse caso, dizer que isso é produto de alta sazonal, porque na mesma época do ano passado a média diária era de US$ 294 milhões, que apontava exportações anuais de apenas US$ 70 bilhões.

As estatísticas animadoras revelam que o dinamismo não se restringe a produtos do agronegócio. A média diária de exportações de manufaturados, de US$ 197 milhões na terceira semana de junho, também cresce de forma surpreendente -40% em relação a julho do ano passado.

A esta altura, é impossível contestar a idéia de que o crescimento que começa a se desvendar na economia se deve, primordialmente, ao ímpeto exportador. Vem daí também a expansão do emprego e da massa salarial, que, em breve, poderá puxar a demanda interna. Então, a pergunta que se faz neste momento é se a produção conseguirá atender ao mesmo tempo à demanda interna e às obrigações assumidas com os clientes internacionais.

Alguns setores industriais já operam praticamente à plena capacidade e não poderão expandir produção sem novos investimentos. Já estamos atrasados, mas ainda é tempo de olhar com cuidado para esse crucial problema da paradeira nos investimentos, uma advertência que, é bom lembrar, vale principalmente para o governo.

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