Ociosidade ainda marca etanolduto paulista

2014 - 05 - 16 Etanduto LogumLocalizado em Ribeirão Preto (SP), epicentro da produção de cana-de-açúcar do país, o primeiro trecho do duto de etanol inaugurado pela Logum Logística, empresa criada para construir e operar um novo sistema logístico de transporte do biocombustível, ainda está com elevada ociosidade. A operação teve início em agosto e, desde então, o volume movimentado não chega a ocupar 10% da capacidade instalada total.

Esse primeiro trecho leva o etanol (anidro e hidratado) de Ribeirão até o polo petroquímico de Paulínia (SP), onde se concentram as principais petroleiras e distribuidoras de combustíveis do país. O duto também chega a Barueri, na Grande São Paulo (ver mapa).

 

Conforme dados disponíveis no site da Logum, em março, último dado público de movimentação disponível, o duto transportou seu maior volume desde a inauguração: 31,6 milhões de litros, ante uma capacidade mensal de 358 milhões. Entre agosto de 2013 e março deste ano, foram 134,5 milhões de litros, ou 6,3% da capacidade do duto.

 

Procurada, a Logum preferiu não comentar a situação. Fontes próximas à empresa afirmam que questões fiscais e operacionais atrasaram o ritmo de crescimento previsto. No entanto, os mesmos interlocutores garantem que, até o fim deste ano, o volume mensal vai subir de forma a alcançar, nos 12 meses de 2014, cerca de 1 bilhão de litros. “A meta é adicionar 1,5 bilhão de litros por ano”, afirma uma fonte ligada à empresa.

 

Ribeirão Preto é, por enquanto, o único ponto de captação de etanol do duto. As 27 usinas instaladas na “região administrativa” de Ribeirão – formada por 13 municípios – produziram juntas, na última temporada (2013/14), cerca de 2 bilhões de litros, ou 8% da produção de toda a região Centro-Sul (25 bilhões de litros).

 

Mas, por enquanto, apenas os sócios da Logum fecharam contratos com a empresa – ainda assim, há cerca de um ou dois meses. Além de Camargo Corrêa e Uniduto Logística (cada uma com 10%), a Logum tem como acionistas a trading Copersucar, a Raízen (produtora de etanol e distribuidora de combustíveis), a Odebrecht Transport, pertencente ao grupo Odebrecht (que também detém produção de etanol) e a Petrobras, cada uma com 20%.

 

Fontes próximas à Logum afirmam que o primeiro obstáculo foi a demora na autorização do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) para o transporte interestadual de etanol com as devidas isenções fiscais. Somente com essa autorização a companhia pôde oferecer o serviço entre Ribeirão Preto (SP) e Rio de Janeiro. Parte desse trecho (entre Paulínia e Rio) é operado pela Transpetro (Petrobras).

 

Até agora, os sócios da Logum investiram, proporcionalmente às respectivas participações, R$ 1,8 bilhão no projeto. O duto de Ribeirão Preto foi projetado para transportar 4,3 bilhões de litros de etanol por ano até Paulínia. Além da produção da região, também dará sustentação ao recebimento de produto de outros Estados, quando todo o projeto – até Jataí (GO) – for concluído. Até o momento, está sendo construído um outro trecho de duto, de 116 quilômetros, ligando Uberaba (MG) até Ribeirão Preto. A inauguração deverá ser realizada ainda este ano, segundo cronograma da Logum.

 

Valor apurou que os sócios acordaram que, após a conclusão do trecho mineiro, a prioridade será construir terminais para receber e carregar em barcaças o etanol vindo da região de Araçatuba – que seguirá por hidrovia até Anhembi (SP), de onde o produto será escoado por dutos até Paulínia. “Quando o projeto da Logum foi concebido, há cinco anos, o cenário era de construção de dezenas de novas usinas de etanol por ano. Agora, o cenário é diferente. Se houver demanda por transporte de etanol ao longo do trajeto traçado, vamos seguir com a construção dos trechos seguintes. Caso contrário, vamos postergar”, afirmou uma fonte próxima à empresa.

 

A Logum também busca, neste momento, aumentar a capilaridade do duto na Grande São Paulo. Para isso, segundo apurou a reportagem, negocia com a Petrobras o uso dos dutos da estatal para levar o etanol até outros pontos da região, como Guarulhos e Ipiranga. Tudo isso, ajudaria a área comercial da Logum a fechar contratos com outros potenciais clientes, basicamente distribuidoras de combustíveis e tradings.

 

Usinas de médio porte e comercializadoras não estão, por enquanto, vendo atratividade no sistema, segundo apurou o Valor. Em grande parte, isso está ocorrendo porque os contratos com as melhores tarifas oferecidas pela Logum implicam compromissos de transporte por longos períodos (15 anos) e cláusulas que obrigam o pagamento pelo serviço – mesmo que, por alguma eventualidade, o transporte não seja utilizado pelo detentor do etanol em um determinado período.

 

Além disso, dizem especialistas, perde-se flexibilidade comercial com contratos de longo prazo, na medida em que os grupos que aderem a esse compromisso não podem mudar a estratégia de carregar mais ou menos produto para vender na entressafra – quando costuma haver mais volatilidade de preço e, portanto, mais oportunidade de ganho.

 

Muda, ainda, a programação logística da usina, explica um especialista. Normalmente, quando as unidades vendem etanol, fica a cargo das distribuidoras buscar o produto na porta da usina. Ao aderir ao contrato com a Logum, o transporte até o ponto de recepção do duto passa a ser responsabilidade da indústria.

 

Mesmo para comercializadoras que movimentam volumes de etanol de várias usinas, a atratividade, por enquanto, ainda é baixa. Como se trata de um trecho relativamente curto, entre Ribeirão e Paulínia, com cerca de 300 quilômetros por estradas, o transporte rodoviário ainda traz mais vantagens econômicas e operacionais, mesmo se comparado com os contratos “spot” da Logum, que têm duração de 90 dias.

 

“Vejo alguma atratividade no trecho entre Ribeirão Preto e Rio de Janeiro, que tem quase mil quilômetros. A economia na comparação com o rodoviário seria na ordem de 30% a 35%”, afirmou uma fonte ligada a uma companhia de comercialização de etanol.

(Fonte: Fabiana Bastista – Valor Econômico)

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