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O projeto do mundo movido a álcool

A exportação brasileira de álcool industrial e carburante este ano promete superar o excepcional desempenho de 2004, quando um crescimento de 300% elevou o volume para 2,3 bilhões de litros, a maior parte para apenas seis mercados. No setor, a exportação virou obsessão, independentemente do preço internacional ou da taxa de câmbio.

Em 2005, a cadeia sucroalcooleira quer transmitir ao mundo o seguinte recado: “Somos confiáveis, o petróleo se aproxima do pico de produção (estimado para entre 2010 e 2015) e o álcool combustível é a solução pronta”.

Investimento em logística, sobretudo em área costeira, uma operação de triangulação via Caribe e América Central e a abertura de novos mercados mundiais podem transformar o volume do ano passado em novo patamar a partir do qual não se recua.

Apesar da deficiência da logística interna – que começa a ser resolvida -, a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica) diz que o Brasil tem estrutura portuária, com alguns ajustes, para suportar com tranqüilidade o embarque de 4 bilhões de litros por ano. Algumas previsões, da Transpetro, por exemplo, falam em 10 bilhões de litros em seis anos.

Para o Grupo Cosan, a maior companhia de álcool e açúcar do mundo, a marca de 4 bilhões de litros é factível até 2010. “O desafio brasileiro agora é abrir mercados e provar que somos capazes de assegurar o fornecimento mundial e do mercado interno, que também cresce”, diz Pedro Isamu Misutami, diretor-superintendente da Cosan. A empresa espera exportar 320 milhões de litros de álcool este ano, o dobro do alcançado na safra 2003/2004.

À Cosan interessa desempenhar papel central no assunto exportação. Quer dar o exemplo, levar empresários ainda desconfiados do setor a entender a relevância do jogo geopolítico em curso no mundo.

LONGO PRAZO

O fim anunciado do petróleo como base energética do Planeta não parece distante, sustentam insuspeitos especialistas. Isso significa que produtores mundiais de energia renovável terão inexoravelmente espaço no futuro. A obsessão exportadora brasileira deriva daí.

Mas nada é tão simples. Misutami explica: “Falta consciência no setor sucroalcooleiro brasileiro. Ainda existe boa parte, uns 40%, que considera apenas a lei de Gerson. Se o açúcar tem bom preço, exportamos; se é álcool, então vamos de álcool”. Mesmo em grupos capitalizados falta o desprendimento, a “visão de longo prazo” que será capaz de reunir o setor em ambiente sem ambivalência.

Isso talvez tenha levado o Brasil a exportar mais, mas quase sem contrato. Ao que parece, a consolidação do modelo exportador depende de acordos de longo prazo, mas deve aparecer apenas quando o Brasil ampliar a exportação e garantir a oferta. São questões que não aparecem nas estatísticas, mas podem ser determinantes na transformação do País numa plataforma mundial de energia renovável.

“O mercado potencial de etanol só será concretizado se adotarmos políticas internacionais que permitam que o produto tenha preços competitivos e oferta constante e estável. As condições objetivas estão dadas para a transposição desse objetivo. Basta que as visões de curto prazo não se sobreponham às de natureza estratégica”, escreveu em artigo recente Eduardo Pereira de Carvalho, porta-voz do setor e presidente da Unica.

Carvalho reafirma a necessidade de abrir mercados e nesse particular exportar é um passo. Mas não só. “Devemos entender o seguinte: a abertura de mercado para o álcool combustível não é uma proposição de natureza comercial, é uma proposição de natureza estratégica, amparada em decisões governamentais”, diz.

A expansão da oferta de álcool no mercado internacional é importante, mas é fundamental o esforço diplomático brasileiro de convencer os países a criar leis que instituam a necessidade de uso de aditivo em combustíveis fósseis e isso não serve apenas ao cumprimento do Protocolo de Kyoto.

Os conflitos de natureza geopolítica no mundo, dizem analistas, trouxeram para bem mais perto de nosso tempo o chamado pico de produção, momento a partir do qual o preço apenas subirá. A mistura de etanol ao combustível fóssil pode suavizar este problema com ligeira redução do consumo.

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