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“O Brasil tem tudo para exportar a tecnologia dos biocombustíveis”

Afirmação é de Besaliel Botelho, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA)

Besaliel Botelho

Assim como países tentam exportar a tecnologia de veículos elétricos ou eletrificados – caso dos híbridos -, o Brasil tem tudo para exportar a tecnologia dos biocombustíveis – caso do etanol.

A avaliação é do engenheiro eletrônico Besaliel Botelho, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) que, nesta entrevista ao JornalCana, afirma que por dominar a tecnologia do flexfuel e por já demonstrado sua capacidade técnica com o Proálcool e com outras tecnologias, “as biomassas [incluindo a da cana] são essenciais na política industrial do setor automotivo brasileiro.”

Mas alerta: “não podemos olhar apenas o mercado interno.”

Graduado em Engenharia Eletrônica e Telecomunicações, Botelho é CEO da Robert Bosch na América Latina e, na entrevista a seguir, comenta também sobre tendências do mercado automotivo.

JornalCana – O senhor defende o etanol diante do avanço dos veículos elétricos e eletrificados. Por quê?

Besaliel Botelho – Como entidade técnica, a Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) sempre defende quaisquer tecnologias automotivas que tragam benefícios tangíveis aos consumidores e à sociedade.

No entanto, em relação ao uso de matrizes energéticas e porque o Brasil domina a tecnologia do flexfuel e também do biodiesel, entendemos que as biomassas são essenciais na política industrial do setor automotivo brasileiro.

JornalCana – Os elétricos e eletrificados estão chegando, mesmo diante dos preços incompatíveis com a renda média brasileira e diante a falta de estrutura de recarga de baterias. Em sua opinião, eles tendem a substituir a atual frota de automóveis (de 39 milhões de unidades, segundo o Sindipeças)? Em quanto tempo?

Besaliel Botelho – Os principais polos produtivos internacionais de automóveis têm caminhado para os veículos elétricos e eletrificados, cenário no qual o Brasil se configura como subsidiária.

É natural, portanto, que as matrizes queiram direcionar suas tecnologias, a partir de suas bases, transferindo-as para as subsidiárias.

Mas como o Brasil é rico em biomassas, possui característica própria, sem precedentes no mundo.

Daí, entendemos que o país precisa e deve se utilizar dessa riqueza, mantendo a economia em atividade, tanto no campo como na indústria. Sem dúvida, os veículos elétricos e eletrificados vão se estabelecer no Brasil.

Mas, diante de seu próprio questionamento, primeiro vão atender aos nichos muito específicos de mercado.

Por enquanto, não vão atingir a grande massa de consumidores.

JornalCana – Montadoras como a Volks e o grupo de tecnologia Bosch, de quem o senhor é presidente na América Latina, entre outros, investem em tecnologias de células de combustível a etanol e em chips para híbridos. São aportes como esses que irão ditar o futuro do etanol?

Besaliel Botelho – Entendemos que sim. Precisamos acelerar esse processo para que o Brasil esteja pronto quando o setor e o mercado interno estiverem aptos a receber essa tecnologia.

JornalCana – A capacidade atual das 352 usinas de cana (e 16 de etanol de milho) do país vai a 36 bilhões de litros anuais de anidro e hidratado. O incentivo ao consumo de etanol, também por meio de programas como o RenovaBio, estima oferta de 50 bilhões de litros até 2030. Ocorre que o empresário do setor precisa investir para chegar a tanto e, diante das incertezas e concorrência com os elétricos, demonstra insegurança. O que fazer para incentivá-lo?

Besaliel Botelho – Entendemos que as palavras-chave são previsibilidade e consumidor. A decisão final sempre será do consumidor em optar por esta ou aquela tecnologia, cujo lastro tem na economicidade o ponto alto dessa escolha.

Se o consumidor brasileiro entender que o etanol traz benefícios econômicos, certamente o seu consumo vai aumentar, até porque – do ponto de vista tecnológico – esse combustível já está consagrado.

Em relação à previsibilidade, todos os players, e também o consumidor, precisam dessa condição sine qua non para se manter fiel. Caso contrário, em especial o consumidor vai migrar para outras tecnologias.

JornalCana – Como o setor sucroenergético e a cadeia de fornecedores de bens de capitais e de serviços desse setor pode – e deve – participar da ampliação do consumo de etanol em outros países, caso da Índia, que antecipou a ampliação de mistura do biocombustível à gasolina em 2023?

Besaliel Botelho – Do mesmo modo que outros países tentam exportar a tecnologia de elétricos, o Brasil tem tudo para exportar a tecnologia dos biocombustíveis.

Não podemos olhar apenas o mercado interno.

A engenharia automotiva nacional já demonstrou sua capacidade técnica, primeiro com o Proálcool, depois com o flexfuel, biodiesel, gás, entre outras tecnologias.

Temos tudo para mostrar ao mundo que a saída não é apenas por meio da eletrificação veicular, até porque precisamos e é nosso dever difundir o conceito “do berço ao túmulo” para demonstrar que o veículo elétrico nem sempre é o mais limpo.

JornalCana – Como o senhor avalia a tendência do etanol no Brasil, enquanto tecnologia (etanol celulósico ou 2G, de milho) e maior produção sem afetar o meio ambiente?

Besaliel Botelho – É mais um ponto positivo para a indústria da cana. E, nós da indústria, acompanhamos muito de perto, por entender que novamente o Brasil pode oferecer mais tecnologia ao mundo.

Quem é Besaliel Botelho

Graduado em Engenharia Eletrônica e Telecomunicações pela Universidade de Karlsruhe, na Alemanha, Besaliel Botelho possui MBA em Administração Internacional de Negócios pela Universidade Estadual de São Paulo.

Está na segunda gestão seguida à frente da presidência da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) no biênio 2021/2022.

Ingressou no Grupo Bosch no Brasil em 1985 e, desde então, atuou em diferentes áreas de engenharia e desenvolvimento de produto e vendas técnicas, sendo responsável por projetos locais e internacionais. Entre outros, foi responsável pelo desenvolvimento da tecnologia flex fuel.

Em 1997, Botelho assumiu a direção da divisão de negócios Gasoline Systems e posteriormente em 2006 assumiu a vice-presidência executiva da Robert Bosch América Latina, onde atua como CEO desde outubro de 2011.

Além de sua trajetória dentro da Bosch América Latina, Botelho é membro da MEI (Movimento Empresarial para Inovação, da CNI – Confederação Nacional da Indústria), e atua no conselho executivo do Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores). Também representou a SAE Brasil (Society of Automotive Engineers) de 2009 a 2010 como presidente.

Delcy Mac Cruz

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