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O álcool tem asas

O presidente Lula sabe que o álcool pode virar moeda de troca de negócios internacionais. Até os países de agricultura forte estão dispostos a produzir álcool de biomassa. E estão certos. Configura-se claramente um mercado mundial de álcool carburante, mercadoria que pode virar commodity. Só que, por causa do protecionismo – gerador de distorções -, ainda há certo artificialismo nesse incipiente mercado energético. Como líderes que somos na produção e exportação de álcool, no seu uso direto nos motores e na mistura com a gasolina (oxigenante), na produtividade e desenvolvimento tecnológico, temos importante papel a desempenhar na formação do mercado internacional do álcool.

Num primeiro momento, o Brasil pode vender álcool aos países que ainda não têm uma produção interna suficiente para atender às demandas ambientais emergentes. Também podemos vender equipamentos e serviços, a começar pela vizinhança latino-americana. O governo brasileiro já está ajudando na venda de tecnologia para países como a Colômbia, por exemplo, que tem uma indústria canavieira bem interessante e com rendimentos totais iguais aos nossos. Aliás, a gasolina precisa ser uniformizada no Mercosul. Só para citar, o Brasil mistura 25% de álcool, o Paraguai 12%. Também não seria difícil incluir Uruguai e Argentina num acordo.

Mas as possibilidades são tão grandes que não dá para avançar sem a diplomacia, fiadora de acordos governamentais. Em virtude das desigualdades internacionais, vender álcool no spot mundial pode se tornar simples como trocar duplicatas. Uma transação exemplar pode ser feita entre o Brasil e a Alemanha: nós produzimos uma quota de carros a álcool, eles nos pagam uma parcela de sua dívida ambiental. Gol duplo.

Também será preciso encarar o Japão, o único país que assumiu a condição de importador de álcool e quer fazer um contrato de longo prazo. Quando estiver misturando 12 bilhões de litros de álcool por ano, a demanda será equivalente à atual produção brasileira. Teoricamente, se garantíssemos essa produção, eles fechariam negócio. É hora então de pensar numa proposta, que não depende só da iniciativa privada, mas do governo também. Por que não elaborar contratos progressivos a partir da exportação de 500 mil litros, por exemplo, com crescimento a cada safra, que traga confiabilidade ao mercado japonês e planejamento para aumento da oferta no Brasil?

A liderança do Brasil na produção de cana, açúcar e álcool está consolidada. Com todos as questões em torno do carro a álcool, o Brasil é uma referência mundial no assunto. Embora seja capaz de substituir a gasolina, o álcool firmou-se mesmo como aditivo, pois a indústria automobilística está há um século assentada sobre o petróleo. Agora, com o lançamento dos motores bicombustível, aptos a consumir tanto gasolina quanto álcool, este é, definitivamente, alternativo. Só que tem muito mais futuro do que a gasolina, pois é renovável e não polui.

Transcendendo o aspecto puramente energético, o álcool tornou-se o insumo certo para ajudar na redução dos níveis de poluição ambiental, reversível mediante a redução na emissão de gases poluentes, oriundos da queima de combustíveis fósseis.

Está recolocada na ordem do dia a questão da biomassa como fonte energética, tema de intermináveis discussões nos anos 70 e 80. Vale recordar que agora em setembro teremos os 30 anos do embargo do petróleo promovido pela Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep), estopim da crise que desencadeou o Proálcool, o primeiro grande programa nacional a gerar um combustível renovável para substituir a gasolina.

Enfim, outros países estão vislumbrando o que os brasileiros já sabem: é vantagem produzir internamente um combustível alternativo. Nossa experiência diz que a transformação de biomassa em carburante é uma grande alavanca econômica. E polivalente, pois gera emprego no campo e na cidade. Inadmissível não aproveitarmos a dianteira que levamos nesse assunto.

Somente há pouco conseguimos convencer nossos parceiros da Global Alliance, formada por produtores de açúcar de cana (Austrália, Índia e Tailândia, entre os maiores), da vantagem de poder fabricar um produto alternativo – o álcool. Não foi à toa que conseguimos ser os maiores e os melhores na produção de álcool e açúcar. Foi fruto de um intenso trabalho de pioneirismo.

É preciso compreender que a cana-de-açúcar é o único vegetal superavitário em energia. Esse é o busílis da questão. Graças ao bagaço – fora a palha, queimada ou deixada no campo como adubo -, a cana gera toda a energia do sistema de produção de açúcar e álcool. A sobra energética é vendida para as companhias de eletricidade. O balanço energético canavieiro é positivo, ao contrário do milho, da beterraba etc., que precisam de energia de fora. Para produzir um litro de álcool de milho, os americanos gastam o equivalente a 1,4 litro de álcool (balanço energético negativo).

Os Estados Unidos produzem álcool de milho para aproveitar suas sobras do cereal. Mesmo não sendo um grande insumo energético, como a cana, o álcool de milho é bom negócio devido aos subsídios lá existentes. Como reconheceu o presidente Lula, os americanos fazem primeiro o que é melhor para eles. Fazem álcool – de milho. Podem comprar fora.

Em médio prazo, todos os países vão ter de importar alguma quantidade de álcool até começar a produzir internamente. Agora, com uma boa política comercial, podemos abocanhar alguma coisa até no mercado americano, que é muito grande. O Brasil já exporta álcool para diversos mercados. Na Europa está se tornando obrigatório misturar álcool à gasolina para cumprir a nova legislação ambiental (Protocolo de Kyoto).

Temos, portanto, um horizonte para gerar empregos, receitas e divisas com nossa experiência na produção de álcool. Com um presidente da República com uma postura pró-ativa – sou testemunha pessoal -, só não marcamos esse gol se não quisermos.

Maurilio Biagi Filho é empresário, presidente da Usina

Moema e da Cevasa; conselheiro da Unica e membro do CDES

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