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Nordeste vê à distância explosão do álcool

Falta de terras propícias trava impulsão do setor no Nordeste; produtores cobram R$ 832,5 milhões de subsídio do governo federal

Berço da cana-de-açúcar no Brasil, o Nordeste assiste à distância à explosão de investimentos em novos projetos para a produção de álcool. “O Nordeste não é convidado na festa do álcool”, diz o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Alagoas, Pedro Robério Nogueira, referindo-se à falta de perspectiva de crescimento do setor na região.

Enquanto no centro-sul surgem novas usinas (30, nos últimos dois anos), o Nordeste tem movimento inverso. Em Pernambuco, 18 fecharam as portas nos últimos 15 anos. Em Alagoas, foram 10 que fecharam ou foram transferidas para o Sudeste e o Centro-Oeste. A última usina aberta em Alagoas, a Agrisa, inaugurada em 2000, mal chegou a funcionar. Ocupada por movimentos de sem-terra, parou a produção.

A região dominou a produção de açúcar no país até meados dos anos 60, mas, a partir daí, foi perdendo cada vez mais espaço no mercado nacional, a ponto de responder por só 12% da cana produzida atualmente.

O retrocesso pode ser visto na comparação da safra de 89/90, quando o Nordeste produziu 60,47 milhões de toneladas de cana, com a de 2006/7, que foi de 55,34 milhões de toneladas, uma redução de 10%. Nesse mesmo período, a produção do centro-sul aumentou 127%, de 164 milhões para 372 milhões de toneladas.

Sem terra disponível

Um dos motivos para o Nordeste ficar fora da euforia do álcool é não ter mais terras disponíveis propícias para o cultivo. “Dezessete por cento do território de Alagoas está ocupado com cana-de-açúcar, e não vai passar disso”, diz o governador do Estado, Teotônio Vilela Filho (PSDB), cuja família é proprietária da usina Seresta. Para ele, o crescimento só é possível com ganhos de produtividade.

Pernambuco quer instalar cinco usinas no sertão, mas depende de investimentos de R$ 2 bilhões do governo federal na construção de canais de irrigação. O governador Eduardo Campos viajou ao Japão, em junho, para apresentar o projeto à trading Itochu, que busca fechar contratos de compra de álcool por 20 anos em parceria com a Petrobras. Por enquanto, são apenas estudos.

O Nordeste tem custo mais elevado de produção da cana, porque parte do plantio é em área montanhosa, o que dificulta a mecanização e exige mais mão-de-obra.

“O Nordeste tem 12% da produção e 35% da mão-de-obra empregada. Lidamos com o homem, e o centro-sul lida com a máquina”, diz o presidente do Sindicato da Indústria de Pernambuco, Renato Cunha.

Subsídios

Os usineiros nordestinos passaram a produzir açúcar e álcool no Triângulo Mineiro, em São Paulo, em Goiás e em Mato Grosso. O grupo João Lyra (do empresário e ex-senador João Lyra) já tem 60% de sua produção fora do Estado. “Ao Nordeste restará um papel residual no mercado”, afirma Nogueira.

Os mesmos usineiros que são competitivos no centro-sul pedem a volta do subsídio para produzir no Nordeste. O porta-voz principal desse pleito é o senador João Tenório (PSDB-AL), ex-presidente da cooperativa dos usineiros de Alagoas. Segundo ele, o Nordeste merece uma política pública semelhante à recebida pela Zona Franca de Manaus e pelo pólo automobilístico.

O setor cobra R$ 832,48 milhões de subsídio do governo federal para compensar a diferença de custo com o centro-sul acumulada nas safras de 2002 a 2006.

Quase metade do subsídio (R$ 408,9 milhões) é reivindicada por Alagoas, ficando Pernambuco em segundo, com R$ 235 milhões. O restante seria distribuído entre os produtores da Bahia, da Paraíba, do Rio Grande do Norte, de Sergipe, do Ceará e do Maranhão.

“A equalização de custos é demanda permanente. Quando houver um movimento [reivindicando ajuda federal], estarei presente”, diz Vilela Filho.

Usineiros e fornecedores de cana-de-açúcar têm alto endividamento com o setor público. A última relação dos devedores do INSS, divulgada em março, aponta débito previdenciário de R$ 1,01 bilhão das usinas de Alagoas e de Pernambuco. O cálculo inclui as ativas e as que faliram. Não existe dado oficial disponível sobre o débito atualizado do setor.

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