A safra 2026/27 começa cercada de incertezas para os fornecedores de cana-de-açúcar de São Paulo. A avaliação é de Maria Christina Pacheco, presidente da Associação dos Fornecedores de Cana de Capivari (ASSOCAP). Em entrevista ao programa JornalCana 360, ela traça um panorama que combina desafios climáticos, pressão de custos, debate sobre o Consecana e a necessidade urgente de reposicionar o etanol junto à sociedade.
Segundo a dirigente, o campo já dá sinais de alerta logo no início do ciclo. “O produtor olha o canavial e se pergunta: cadê a cana?”, resume. A combinação de seca prolongada, calor acima da média e chuvas irregulares comprometem o desenvolvimento vegetativo. Em 2025, a região registrou cerca de 970 mm de chuva, bem abaixo da média histórica de 1.400 mm, o que impactou diretamente o vigor das lavouras, explica Christina.
O resultado são canaviais com crescimento lento, perfilhamento reduzido e maior incidência de falhas, um cenário que não faz parte do histórico produtivo da região. Para tentar mitigar os efeitos, os produtores intensificam o uso de adubações complementares.
“O custo está alto e as pragas estão mais agressivas. Sem água, muitos produtos simplesmente não entregam o resultado esperado”, observa.
Etanol de milho avança, mas integração é o caminho
Ao analisar o avanço do etanol de milho no Brasil, Maria Christina adota um tom realista e estratégico. Na região de Capivari, onde predomina a produção de açúcar e o clima inviabiliza a safrinha, ela não vê espaço para plantas industriais de milho. Ainda assim, enxerga o modelo como um vetor importante de transformação para o setor bioenergético.
“O milho encontrou uma solução estrutural para seus excedentes. Se não exporta, vira etanol e ração. Isso é fantástico para a cadeia”, afirma. Ela destaca vantagens competitivas do milho, como o ciclo curto, menor risco climático e o aproveitamento de coprodutos como DDG e óleo, que impulsionam cadeias de proteína animal ao redor das usinas.
Para a presidente da ASSOCAP, o ponto central não é a disputa entre matérias-primas, mas a construção de complementaridade. “O milho pode ser um grande parceiro da cana. Quando o açúcar estiver mais atrativo, a cana direciona. Quando não, o etanol — seja de cana ou de milho — sustenta o mercado”, explica.
O maior desafio: comunicar o etanol
Na avaliação de Maria Christina, o gargalo mais crítico do setor não está apenas no campo ou na indústria, mas na comunicação. Apesar de o Brasil ter uma das frotas flex mais avançadas do mundo, menos de 30% dos veículos utilizam etanol de forma recorrente. Mitos sobre desempenho, consumo e partida a frio ainda afastam o consumidor.
“Temos uma conta errada que se perpetuou. Não é só preço. É meio ambiente, saúde, qualidade do ar”, defende. Para ela, cana e milho precisam atuar de forma conjunta para mostrar à população os benefícios ambientais do etanol, especialmente às novas gerações. “Não adianta defender o meio ambiente e abastecer com gasolina”, provoca.
A dirigente também critica a falta de visibilidade do agro brasileiro. “A gente produz duas safras e meia na mesma área, com eficiência que o mundo inteiro reconhece, mas não sabe. Estamos muito dentro da porteira e pouco presentes no debate público”, afirma.
União como estratégia para o futuro
Diante de uma safra desafiadora, de um mercado em transformação e de um consumidor ainda mal informado, Maria Christina Pacheco defende mais articulação entre produtores, indústria e entidades. Para ela, fortalecer o Consecana, integrar cadeias produtivas e investir em comunicação são passos decisivos para garantir sustentabilidade econômica e social ao setor.
“O etanol não é só um combustível. É uma solução ambiental, econômica e estratégica para o Brasil. Mas, para isso, precisamos falar com a sociedade de forma clara, unida e consistente”, conclui.