Mercado

Petróleo e álcool aceleram aproximação Brasil-Índia

Humberto Saccomandi e Mônica Scaramuzzo De São Paulo

As relações diplomáticas entre Brasil e Índia estão em seu período mais intenso já há alguns anos, mas só em 2005 isso se manifestou claramente no comércio entre os dois países, que quase dobrou. A disposição da Índia é acelerar esse processo. Para isso, propõe, entre outras coisas, investimento de US$ 700 milhões no setor de petróleo, parceria com a Petrobras em prospecção na costa indiana, e levar Vale do Rio Doce e Embraer para operarem no país. Além disso, o governo indiano deve decidir em breve se adota um programa similar ao Proálcool, que poderia ter a participação de empresas brasileiras, inclusive na área de motores flex.

Com quase 1,1 bilhão de habitantes, uma economia crescendo 8,5% (em 2005) e um governo mais agressivo e aberto para negócios, o país é a nova sensação no cenário internacional, tornando-se um pólo de investimento e comércio.

Isso já se fez sentir em 2005, quando o comércio bilateral com o Brasil quase dobrou. Na pauta de exportações indiana domina o diesel, mas crescem medicamentos e produtos petroquímicos, siderúrgicos e têxteis. Nas exportações brasileiras, mais distribuídas, destacam-se açúcar, óleo de soja e álcool, mas o que mais cresce são os manufaturados, como aviões.

E justamente no setor de cana-de-açúcar e álcool pode surgir uma grande oportunidade de negócios entre os dois países, disse ao Valor o vice-chanceler indiano, Anand Sharma. Após anos estudando o modelo brasileiro, a Índia está prestes a decidir se adota um amplo programa de incentivo ao álcool. Caso isso ocorra, o país quer buscar no Brasil parcerias para ganhar tecnologia e produtividade e implementar a mistura do combustível na gasolina. “Estamos finalizando os estudos de viabilidade e extensão. A implementação do programa de álcool na Índia depende agora de uma decisão política do governo”, disse Sharma.

Atualmente 9 dos 27 Estados da Índia fazem mistura de 5% de álcool na gasolina. A Índia é o segundo maior produtor de cana e de açúcar do mundo, atrás do Brasil. Nos últimos dois anos, porém, regiões produtoras do país foram afetadas por uma forte estiagem, o que reduziu drasticamente a produção.

A implementação do programa de álcool teve de ser adiada por causa da seca. Nos últimos dois anos, a Índia tornou-se o maior importador do álcool brasileiro. No ano passado, importou 414,2 milhões de litros (US$ 115,174 milhões). Em 2004, 478,6 milhões de litros (US$ 92,9 milhões), segundo a Unica (União da Agroindústria Canavieira de São Paulo).

Sharma vê oportunidades para atuação brasileira em várias etapas, desde cooperação tecnológica na produção e cana e álcool, até estocagem e distribuição.

O interesse indiano se deve sobretudo à sede de energia numa economia em forte expansão e que tem uma classe média de 300 milhões de pessoas com cada vez mais poder aquisitivo. É fundamental assim reduzir a dependência do petróleo importado.

Mesmo com a busca por combustíveis alternativos, o petróleo ainda é a matriz energética mais importante da Índia e o setor onde robustos investimentos estão concentrados. O país precisa garantir suprimento de petróleo e ampliar a produção local.

Segundo Sharma, a ONGC, maior petrolífera estatal da Índia, está em processo de assinar uma cooperação com a Petrobras para exploração de petróleo no Brasil e para que a empresa brasileira prospecte petróleo na costa indiana. Ele afirmou que já há um acordo de princípio entre os dois países nesse sentido. “O potencial off-shore na Índia não é muito explorado e as reservas ainda não foram completamente mapeadas.”

R. Viswanathan, diretor para a América Latina do Ministério das Relações Exteriores indiano, disse que a ONGC pretende investir US$ 700 milhões numa plataforma off-shore no Brasil. A estatal já investiu US$ 5 bilhões pelo mundo e quer diversificar seus investimentos na América Latina.

Segundo Viswanathan, outra estatal indiana, a Railway Indian, também estaria negociando uma parceria para prestar consultoria para a Companhia Vale do Rio Doce na recuperação da malha ferroviária da companhia. O país quer ainda atrair investimentos da Vale na exploração de minério de ferro e manganês.

Outra empresa na mira da Índia é a Embraer. Com um mercado de aviação em franca expansão, o país já vem comprando aviões brasileiros, mas quer convidar a companhia a produzir em joint-venture na Índia. “Precisaremos comprar cerca de cem aviões por ano pelos próximos cinco ou seis anos”, afirmou o embaixador da Índia no Brasil, Hardeep Singh Puri.

Empresas indianas já estão presentes nos setores de TI e farmacêutico no Brasil, operações que devem continuar crescendo, mas para Sharma os investimentos e o comércio bilaterais ainda não refletem o grau de aproximação entre Brasil e Índia. Os dois países pleiteiam um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, lideram o G-20 nas negociações na OMC e formam o G-3 (com a África do Sul), grupo de líderes regionais de três continentes.

Segundo ele, falta “disseminação de informação” sobre as possibilidade de negócios. Isso o trouxe a São Paulo na sexta, onde participou de um encontro empresarial. “Se o comércio dobrou em um ano, pode quadruplicar em breve. O primeiro passo é o mais difícil”.

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