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Novo perfil da indústria sucroalcooleira do País

Está surgindo no Brasil um novo perfil de empreendedores. Trata-se de um grupo de executivos que enxerga, na eficiência energética das usinas sucroalcooleiras do país, uma oportunidade de negócio – a co-geração de energia através da queima dos resíduos industriais. As usinas brasileiras já utilizam esses resíduos com sucesso: a co-geração de energia por meio da queima do bagaço da cana-de-açúcar, resíduo sólido do processo, produz energia suficiente para suportar a própria usina e exportar o excedente para outras empresas fornecedoras de energia.

Atualmente, a rede elétrica nacional recebe das usinas 1,8 GW. A busca por maior eficiência potencializará a utilização da vinhaça, resíduo líquido do processo, como fonte energética, como ocorreu com o bagaço, originalmente considerado sem uso e cuja queima tinha por único fim a eliminação de resíduos. Estudos indicam que, até 2011, o Brasil deva atingir a capacidade de exportar 4,2 GW de energia proveniente da co-geração via bagaço, uma vez que para cada litro de etanol produzido, doze litros de vinhaça são gerados deste processo.

Surge assim uma alternativa com a vinhaça: por meio da biodigestão anaeróbica, processo químico de digestão de matérias orgânicas para produção de biogás, o metano gerado produz energia elétrica em motores com eficiência de 40% (comparados às caldeiras de co-geração mais disseminadas que apresentam 18% de eficiência). Neste caso, uma usina que processa dois milhões de toneladas/ano, poderia, durante a safra, gerar energia suficiente para abastecer 1.500 residências durante um mês.

Das cerca de 350 usinas no país, poucas estão avaliando esta nova proposta. Mas a tendência é que o governo estabeleça os processos regulatórios, impulsionando a busca por novas alternativas para a utilização da vinhaça. Se olharmos as usinas por este ponto de vista, a safra de 2008/2009 produziu no Brasil 291,6 bilhões de litros de vinhaça a partir dos 24,3 bilhões de litros de etanol, segundo informações da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Este volume de vinhaça equivaleria a aproximadamente 1.400 MW de capacidade instalada, ou quase metade do potencial da hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira que, em funcionamento, pode produzir até cerca de 3.000 MW de energia.

A geração e eficiência energética estarão definitivamente na pauta do setor nos próximos dois anos. No que se refere à vinhaça, países como Índia, Guatemala e Filipinas tomaram a dianteira. Na Índia, por exemplo, onde predomina a produção de açúcar e se utiliza o etanol em destilarias para produção de bebidas alcoólicas, essa tecnologia já está em operação há aproximadamente 10 anos, gerando 2 MW com motores a biogás.

Localmente também estamos colhendo frutos. No ano passado, o BNDES desembolsou cerca de R$ 3,6 bilhões para investimentos em caldeiras e na automatização dos processos do setor de açúcar e álcool. No dia 09 de fevereiro, o mesmo órgão aprovou um financiamento de R$ 80 milhões para a usina açucareira de Guaíra, no interior de São Paulo, para ampliação de sua geração de eletricidade.

O amadurecimento da indústria e a demanda energética do país criam condições para que a geração de energia pela vinhaça saia do conceito e vire realidade, num prazo curto de tempo, uma vez que já existem tecnologias para o desenvolvimento destas plantas no país.

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