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Gasolina = Álcool

A consolidação dos motores bicombustíveis animou muita gente a arriscar o investimento em um dos vários modelos flex disponíveis no Brasil. Mas, com o aumento recente do álcool hidratado, a idéia de economizar foi ficando cada vez mais distante, especialmente para quem mora na Bahia, onde historicamente a diferença de preço da gasolina e do álcool nunca foi muito expressiva.

Do ponto de vista técnico, no entanto, não há grandes vantagens em escolher um veículo bicombustível em detrimento de um motor a gasolina ou a álcool. Especialistas afirmam que seria justamente a possibilidade de não se tornar refém dos preços dos combustíveis o grande atrativo dos carros flex.

O representante autônomo Márcio Maia, 24 anos, foi um dos que apostaram na idéia. Depois de comprar um Fiat Siena zero financiado, no ano passado, ele pensava em passar um bom tempo rodando a álcool, mas o aumento do combustível fez com que tomasse uma decisão inusitada. “Acabei adaptando o carro para rodar com GNV, o que custou mais R$2.520, um dinheiro que não podia gastar agora”, conta ele, que parcelou o kit gás em nove vezes.

O Siena – que Márcio só dirige com o ar-condicionador ligado – faz 13 km com um litro de gasolina (R$ 2,54), 11 km com um litro de álcool (R$ 1,75) e 17 km com um metro cúbico de gás (R$ 1,28). “Ainda tem um detalhe: enquanto estou usando o gás, não posso misturar gasolina e álcool, por causa do sensor eletrônico. Ou um, ou outro”, diz.

Escolha – Comprar um carro bicombustível, na opinião do engenheiro automotivo Júlio César Câmara, não é exatamente um grande negócio. “A principal vantagem não é técnica, é mais do ponto de vista econômico. O motor flex tem as mesmas vantagens de qualquer outro motor”, opina.

Ele explica que, quando o automóvel roda com álcool, ele consome em média 30% mais em relação à gasolina para fazer o mesmo percurso. “Se o álcool estiver 30% mais barato que a gasolina, tanto faz usar um como outro. Se o álcool custar mais que 70% do preço da gasolina, é melhor usar a gasolina. Hoje em dia não há mais tantas variações como antigamente, quando o álcool chegou a custar metade do valor da gasolina e valia a pena rodar com ele”, relembra.

Câmara alerta ainda para o fato de que – se for para rodar exclusivamente com gasolina, como é o caso em épocas em que o álcool não está tão mais barato assim – o carro com motor bicombustível ainda tem um desempenho ligeiramente menor. O motivo é que, para estar apto para rodar com os dois combustíveis, ele tem que utilizar um valor intermediário de queima de combustível.

“Os motores flex têm uma taxa de compressão que não é a ideal nem para a gasolina, nem para o álcool. Mas não se pode dizer que seja uma desvantagem. É preciso encarar como um preço que se paga para ter essa comodidade de poder rodar com um ou com outro combustível”, minimiza.

Componentes do carro flex são duráveis

Na opinião do engenheiro Júlio César Câmara, a durabilidade das mangueiras e partes internas do motor é praticamente a mesma para o uso de álcool ou gasolina, desde que se utilizem combustíveis de boa qualidade. A presença de outros solventes misturados à gasolina causa carbonização e pode ser prejudicial à conservação do motor.

Já o álcool brasileiro, que antes era difícil de ser adulterado e tinha a vantagem de ser menos poluente, pode ser misturado à água, o que causaria uma maior corrosão. “O governo quer trabalhar com um corante que permita identificar se o produto é de qualidade ou não, mas logo vão descobrir uma forma de adulteração. De qualquer forma, o motor bicombustível, em termos de corrosão, não está mais vulnerável que o motor comum para combustível específico”, adianta.

O mecanismo-chave dos bicombustíveis é o sensor eletrônico de oxigênio que fica localizado no escapamento e identifica a queima que está ocorrendo no motor (a proporção de álcool que há no combustível). “A gasolina tem 25% de álcool. Se for álcool apenas, é 100%. O sistema se adapta. Tenho um colega que está até fazendo uma planilha para ver as quantidades de uso alternado de um e outro, mas acho que não vai resultar em grande economia não. Desde que não se coloque nada que não seja álcool nem gasolina, não tem problema. Teve um caso em São Paulo em que abasteceram um carro flex com diesel e o motor ficou imprestável”, conta.

Apesar disso, Júlio Câmara conta que o sensor que identifica o combustível é extremamente robusto. “Não costuma ter nenhum problema e funciona muito bem. Se, por acaso, ele for danificado, automaticamente, o sistema passa a funcionar no nível da última quantidade de combustível que foi utilizado, misturado ou não”, garante Câmara, acrescentando ainda que o sensor novo custa entre R$400 e R$600, mas que o kit-conversor para flex é um embuste. “Um carro flex não é só colocar aquilo ali. A bomba é modificada, o sistema de compressão é outro. Esse kit pode gerar um alto consumo e desgaste no motor”, adverte.

SAIBA MAIS

O calor gerado pela queima de gasolina é maior que o calor gerado pela queima da mesma quantidade de álcool

A gasolina tem maior capacidade de gerar calor e potência no motor. Isto significa que, para percorrer uma mesma distância, o consumo do álcool é maior do que o da gasolina. Considerando o preço médio da gasolina para o consumidor final em Salvador como sendo R$ 2,59 e o do álcool combustível R$ 1,79 e fazendo um comparativo de um automóvel movido a gasolina que faz 10 km/l de gasolina e um automóvel que roda 7 km/l de álcool, temos a seguinte situação:

Comparativo de custo

Gasolina R$2,59/litro

Álcool R$1,79/litro

Km rodado (gasolina) R$ 0,259

Km rodado (álcool) R$ 0,256

Considerando 1.500 km rodados mensalmente, o usuário do carro a álcool gastaria por mês R$ 384, enquanto que o usuário do carro a gasolina gastaria, no mesmo período, R$ 388,50, não calculados outros gastos. Conclusão: a compra de um veículo movido a álcool já não é tão vantajosa economicamente.

Fonte: Leonardo Teixeira/Laboratório de Monitoramento de Combustíveis da Unifacs.

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