Mercado

Energia, estratégia e negócio

Os três substantivos do título podem muito bem ser aplicados ao setor sucro-alcooleiro sem medo de errar. Presente no estado de Mato Grosso através de 11 plantas industriais, que produzem tanto álcool como açúcar, espalhadas pelo estado atendendo uma certa não superposição, o setor, apesar de ser uma das atividades mais antigas do país, remontando aos tempos da colônia, ressurge dentro da fixação do Governo Geisel de buscarmos a independência e até a liderança no campo energético. Daí ser um produto estratégico ligado a energia. E é um negócio porque concebido tendo o setor privado como agente econômico.

Estive no bem montado Sindicato dos Produtores do estado esta semana. Além de uma boa estrutura física, possui um bom quadro de técnicos e toda uma massa crítica. Uma boa e prática conversa com o diretor executivo, Jorge dos Santos, que definiu o setor para mim. De ! cara fiquei sabendo que longe de uma commodity, trata-se o álcool de um produto industrial com qualidades, difícil padronização, transporte especializado e que sofre pressão da política energética de países e da conformação da matriz mundial. Caracteristicamente suas plantas industriais localizam ao lado da matéria prima, a cana, que por sua vez exige grandes extensões de terras para o cultivo. Isso, aliado ao fato de problemas de conforto ambiental obrigarem a situar em certas distâncias das áreas urbanas, gera um custo adicional do preço da mão de obra.

A sua presença significativa em Mato Grosso se explica exatamente pela boa oferta de terras que deve compensar a distância do mercado consumidor do sul e sudeste do país. Isto acaba sendo um complicador em termos de logística. Além do uso intensivo de terra, usa também também muita mão de obra, daí também estratégico para a economia do país. Está em processo de avanço tecnológico visando mudar a fama de falhas sociais e ambientais. Tem um bom histórico de luta junto a setores de proteção ambientais e com sindicatos de trabalhadores. E ainda enfrenta a concorrência pela propriedade da terra de outros setores tais como a pecuária, agricultura, etc.

Joga com importância na economia local. Tem um faturamento próximo de 1,1 bilhão/ano, com geração de 150 milhões de impostos, massa salarial de 35 milhões e ocupa 17 mil pessoas. Podemos dizer que sem contar o valor da terra, temos algo em torno de 3,3 bilhões de reais imobilizados no setor. Ou seja, além de uso intensivo de mão de obra e terra também demanda razoável capital.

Feita a definição, duas constatações deste humilde economista. Anteriormente o setor enfrentava um problema de ordem estrutural, portanto difícil. A escalada do petróleo, discursos e protocolos de defesa ambiental propiciaram uma corrida de capitais para o setor. Acreditando numa corrida mundial para o consumo, fábricas surgiram. Exemplificando, o chamado Centro! Sul (Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e os dois Mato Grosso’s) saiu de uma produção em 2006 (já contaminada por este ambiente) de 16 milhões de litros para 24 milhões em 2008. Paradoxalmente, a escalada do petróleo que juntamente com a tecnologia flex (bicombustível) não deixaram esta superoferta matar o segundo ressurgimento do álcool. E plantas continuam a ser planejadas.

Este desenho do mercado gerou uma concorrência do tipo “salve-se quem puder”, transferindo os trunfos da regra de comercialização para a distribuição que acabou tiranizando os produtores que por sua vez se canibalizam. É uma opinião muito particular a minha. Mas vejo esta combinação de tiranização e canibalização grave para o setor. Daí a solução ser a busca do mercado externo para romper este desequilíbrio oferta/demanda e ai é com o governo. Reunião de Lula e Obama sem falar das barreiras ao etanol brasileiro (em torno de 15 centavos de dólar por litro) é uma quase-reunião.

O problema acima levou ao estreitamento da margem de lucro e este ao endividamento. A crise atual, que é basicamente de crédito, trouxe complicações na hora das renovações de dívidas. Fontes secando, significam crédito encarecendo e daí é uma historia fácil de imaginar onde isto vai dar. Pelos números envolvidos acho que o setor requer um tratamento particular das intervenções governamentais junto a crise. Com todo respeito à preferência deste governo de atender apenas aos flagelados. Quem sabe está esperando o despejo dos desempregados no mercado.

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