Mercado

Doha, base para acordo UE-Mercosul

Negociação entre os dois blocos dependerá de um pacto menos ambicioso na OMC. Um avanço nas negociações comerciais entre a União Européia (UE) e o Mercosul, paralisadas desde 2004, dependem da conclusão da Rodada Doha, de liberalização do comércio global no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). Esta foi a tônica das conversas durante o primeiro encontro da Cátedra Mercosul da Sciences Po de Paris, realizado na sede da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio) na última sexta-feira.

Para que haja uma retomada das negociações bilaterais UE-Mercosul é preciso um avanço na Rodada Doha. Os europeus esperam a conclusão das negociações multilaterais na OMC para retomarem o diálogo com o bloco sul-americano. E, se houver um acordo ambicioso em Doha, eles dificilmente irão fazer mais concessões para o Mercosul, afirmou o presidente executivo do Conselho de Relações Internacionais da Fecomercio, Mário Marconini. Segundo ele, o Brasil, assim como o bloco, deveria negociar acordos bilaterais, paralelamente à Rodada Doha, a exemplo do que fazem os Estados Unidos e a própria UE com as ex-colônias. O Brasil não pode continuar à margem dos acordos bilaterais.

Não houve avanço nas negociações entre UE e Mercosul desde 2004 e elas só deverão ser retomadas com a conclusão de Doha, disse a diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), Sandra Rios. A partir daí é que serão negociadas cotas para o setor automotivo e o corte de tarifas para produtos agrícolas, disse ela, lembrando que carne, açúcar e leite são os itens que mais interessam para os produtores brasileiros. De acordo com a pesquisadora, apesar de o acordo com a UE não ter ocorrido naquela época, o comércio bilateral entre o Brasil e a UE tem crescido a passos largos, a uma média de 18% ao ano.

A UE é o maior parceiro comercial brasileiro, superando os Estados Unidos, que lideram o ranking por país. Em 2006, o fluxo comercial Brasil-UE somou US$ 50 bilhões, dos quais US$ 30 bilhões em exportações brasileiras. Esse volume poderia ser, no mínimo, 5% maior com a existência de um acordo UE-Mercosul, disse Marconini, fazendo um cálculo modesto.

Estudo realizado pela Universidade de Manchester e divulgado no mês passado pela imprensa previa que o acordo bilateral UE-Mercosul poderia render acrescentaria ao Mercosul algo em torno de US$ 9 bilhões.

Iniciada em 2001 na capital do Catar, a Rodada Doha também andou paralisada, devido ao impasse sobre a questão agrícola, especialmente em função da não redução dos subsídios dos EUA e da UE que impedem o acesso a esses mercados pelas nações mais pobres.

O pesquisador do Instituto de Estudos Políticos de Paris, Alfredo Valadão, disse que durante o encontro na Fecomercio foram elaboradas algumas propostas para serem levadas para a próxima reunião plenária anual entre os dois blocos prevista para outubro. Nosso interesse é que haja progresso nas negociações.

kicker: Especialistas avaliam que dificilmente UE cederia mais no setor agrícola antes de concluir as conversas no campo multilateral

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