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Do carvão à cana, a polêmica da exploração

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou nova polêmica ao defender segundafeira, em Madri, o etanol brasileiro, seu tema predileto nas recentes viagens internacionais.

Durante encontro com empresários espanhóis, depois de discorrer sobre as virtudes do combustível, Lula foi questionado sobre as condições de trabalho dos cortadores de canade-açúcar no Brasil. E reagiu indagando se o corte da cana seria mais “penoso” que trabalhar numa mina de carvão. O mineral foi o combustível da Revolução Industrial, no século XVIII, e a principal fonte de energia da Europa até meados do século XX. Porém, as condições subumanas de trabalho se tornaram um estigma das minas de onde era extraído o carvão.

— A comparação é equivocada do ponto de vista histórico, e não se justifica. (Lula) quis justificar uma condição de trabalho das mais indignas que existem no Brasil, a dos cortadores de cana, que ele bem conhece — disse o historiador Jacob Gorender, observando que os cortadores de cana enfrentam trabalho duro, são mal pagos, não têm proteção trabalhista, assistência médica e moram em péssimas condições.

“Comparação não é digna de um líder operário” Um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), Gorender se afastou do partido, mas faz questão de ressaltar que apóia o governo Lula, a quem diz admirar pela sua história: — Mas essa comparação foi extremamente infeliz e injusta, não é digna de um líder de origem operária como ele.

O professor Roberto Romano, do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), também considerou inapropriadas as declarações de Lula. Segundo ele, Lula usou de retórica para fugir da pergunta e pode ter irritado potenciais investidores para o projeto do etanol: — Ele foi esperto, ágil, e tapou a boca de muita gente. Mas as coisas não funcionam assim.

Não é dessa forma que se faz o trato político internacional.

Para Romano, quem ouviu a resposta de Lula continuou em dúvida sobre as condições de trabalho nos canaviais do país: — Ele simplesmente respondeu retoricamente, como é de seu costume. Trata-se de pensamento abstrato no pior sentido da palavra.

Em defesa do presidente, o consultor sindical João Guilherme Vargas Neto disse que a declaração foi pertinente e não teve a intenção de esconder problemas nas usinas. Segundo ele, o processo de mecanização no campo é a melhor resposta, desde que o governo adote políticas para aproveitar a mão-dedeobra que deixará os canaviais.

Segundo ele, a mecanização já alcança 66% da área plantada de cana em São Paulo, índice que chega a 80% no Centro-Oeste — nas regiões que concentram a produção de cana no país: — É como numa guerra: é preciso produzir o etanol e, para isso, tem de se lutar para melhorar as condições de trabalho.Isso está sendo feito.

O debate sobre o trabalho nas minas de carvão não se limita à academia. A literatura dita social guarda centenas de páginas sobre o tema. Um desses exemplos é “Germinal”, considerada a obra máxima do escritor francês Émile Zola (1840-1902), que descreve a vida de uma comunidade de trabalhadores de uma mina de carvão na França, durante o auge da Revolução Industrial.

Para escrever o livro, Zola trabalhou dois meses na extração de carvão. Conheceu o problema do calor e da umidade dentro da mina, o trabalho insano necessário para escavar o carvão, a promiscuidade das moradias, o baixo salário e a fome. Em protesto contra essas condições, os mineiros chegaram a organizar uma greve geral, reprimida pelo governo local.

O Brasil, de seu lado, hoje é o maior produtor de cana do mundo, seguido por Índia e Austrália.Essa fartura, porém, ainda convive com denúncias de trabalho precário no campo.

Só em São Paulo, maior região produtora do país, o Ministério Público do Trabalho registrou 21 mortes de bóias-frias desde 2004, supostamente por excesso de esforço. Foram três casos em 2004, número que subiu para nove no ano seguinte. Quatro mortes ainda sob investigação ocorreram em 2006 e existem cinco registros em 2007.

Governo adotou norma para proteger trabalhador Para o professor de engenharia da produção da pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-UFRJ) Rogério Valle, Lula poderia simplesmente ter admitido que ainda existem problemas nessa área, mas que há em curso uma série de ações para minimizálos.

Apesar do que chamou “raciocínio infeliz”, Valle evitou criticar o presidente.

— Não acredito que ele pense isso, mas que respondeu assim sob pressão. Foi realmente uma reação infeliz.

Para tentar melhorar as condições de trabalho, o governo estabeleceu em 2005 garantias mínimas de saúde e segurança nos canaviais, como tempo para descanso e alimentação, água fresca e sombra. Em 2006, o MP e o Ministério do Trabalho fiscalizaram 89 usinas do interior paulista, e nenhuma atendia a todas determinações. A fiscalização neste ano foi antecipada para março, no período de plantio. O objetivo é fiscalizar até dezembro mais de cem usinas.

“A comparação é equivocada do ponto de vista histórico, e não se justifica. (Lula) quis justificar uma condição de trabalho das mais indignas que existem no Brasil”

JACOB GORENDER

Historiador

“Ele foi esperto, ágil, e tapou a boca de muita gente. Mas as coisas não funcionam assim. Não é dessa forma que se faz o trato político internacional”

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