Mercado

Desempenho medíocre

O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2005, de apenas 2,3%, não chega a surpreender, mas é frustrante. O resultado ficou muito aquém do desejável para um país que tem problemas cujas soluções seriam mais facilmente alcançadas por meio do crescimento rápido. Fica abaixo também do ritmo que, em anos recentes, o Brasil mostrou ter condições de manter.

Pior ainda, é um crescimento muito menor do que o de outros países com os quais o Brasil procura se equiparar, como China, que cresceu mais de 10%, Coréia do Sul, mais de 8%, e Índia, mais de 8%. Até a Argentina, que ainda tem problemas estruturais a resolver, apresentou resultado muito melhor, com crescimento de mais de 9%.

O número anunciado pelo IBGE não surpreende porque a atividade econômica vinha perdendo vigor desde o quarto trimestre de 2004. Naquele período, o crescimento chegou a 4,9% em relação a igual trimestre do ano anterior. No primeiro trimestre de 2005, o aumento foi de 2,8%. Houve pequena recuperação no trimestre seguinte, com crescimento de 3,4%, para em seguida recomeçar a desaceleração, com aumento de 2,6% no terceiro trimestre de 2005 e de 2,3% no período outubro-dezembro.

Outra forma de comparar os resultados – o desempenho de um trimestre em relação ao trimestre anterior – dava indicações ainda mais precisas de que o número final de 2005 seria medíocre. No terceiro trimestre, o PIB encolheu 0,9% em relação ao segundo e, desde a divulgação desse resultado, já se projetava para 2005 um crescimento muito próximo do que foi anunciado. As projeções dos economistas do setor privado oscilavam entre 2,2% e 2,6%.

O resultado mais decepcionante no ano passado foi o do setor agrícola, que cresceu apenas 0,8%, o menor aumento desde 1997. A quebra da safra de produtos importantes na composição do PIB agropecuário, em decorrência da seca, bem como o registro de casos de febre aftosa em alguns Estados no último trimestre do ano passado estão entre os fatores apontados pelo IBGE para esse mau desempenho. Em relação à de 2004, a produção de algodão diminuiu 26,7% no ano passado; de milho, 16,5%; de café, 13,1%; de fumo, 2,8%; de laranja, 2,3%; e de arroz, 0,3%.

Cresceu a produção de mandioca (11%), soja (3,3%) e cana-deaçúcar (1,3%).

Num ano desastroso para o setor agrícola, o governo ou demorou para estimular a produção ou agiu de maneira insatisfatória. Não há sinais de que tenha mudado o comportamento de algumas das principais autoridades que contribuíram para agravar o problema no campo, de modo que predomina o desânimo entre os agricultores.

No setor industrial, o melhor desempenho foi da indústria extrativa mineral – a produção de petróleo, gás e minério de ferro puxou o crescimento -, enquanto a indústria de transformação e a de construção civil, que mais empregam, cresceram apenas 1,3%. É interessante observar que, em 2004, o crescimento do PIB foi impulsionado principalmente pela indústria de transformação e pelo comércio, o qual, em 2005, cresceu 3,3%.

Um resultado animador anunciado pelo IBGE é o aumento do consumo das famílias pelo segundo ano consecutivo. Em 2005, a expansão foi de 3,1%, graças à elevação da massa salarial real (estimada em 5,2%) e ao crescimento nominal de 37% das operações de crédito às pessoas físicas.

Dados referentes a 2006 não mostram uma mudança substancial do ritmo de atividade da economia em relação ao último trimestre de 2005. A dispensa dos trabalhadores temporários contratados no fim do ano fez crescer a taxa de desemprego em janeiro. O rendimento real médio encolheu 1,2% em relação a dezembro. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas constatou que, depois de dois meses de crescimento, a confiança do consumidor diminuiu em fevereiro. Os preços estão estáveis ou até em ligeira queda, como constatam alguns índices.

Os fatores inflacionários estão, assim, controlados. O que se espera é que o Comitê de Política Monetária (Copom) leve isso em conta e baixe mais rapidamente os juros, para que a economia possa recobrar fôlego.

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