Mercado

Desajustes tumultuam o mercado do álcool

A agitação no preço do álcool combustível é produto de uma circunstância excepcional, alimentada em boa parte pela alta do petróleo, que mudou de patamar há pelo menos dois anos. A persistência de cotações elevadas estimula a utilização de combustíveis alternativos, o que beneficiou o álcool, para o qual o Brasil tem tecnologia pioneira e experiência de uso. Some-se a isso exportações aquecidas e seria difícil que a gangorra dos preços não se movesse para cima.

Governo e usineiros fizeram um acordo de preços em torno de R$ 1,05 para o álcool que se revelou inútil. Enquanto as leis de mercado prevalecerem, os produtores procurarão naturalmente a melhor remuneração, seja produzindo açúcar ou exportando o combustível. Diante de uma demanda crescente e estoques inexistentes, o acordo naufragou, mas sem produzir desastres. O governo agiu acertadamente ao determinar a redução de 25% para 20% na mistura da gasolina ao álcool anidro. Já a zeragem da alíquota de importação de álcool terá efeito praticamente nulo, já que o Brasil domina o mercado internacional e seus concorrentes têm preços maiores. A taxação das exportações, que se encontra em estudo, tem de ser vista com cautela e pode ser apenas uma resposta temporária a situações críticas de abastecimento, em um grau superior ao do atual desequilíbrio do mercado. Para conter o aumento do preço da gasolina, o governo reduzirá a Cide em R$ 0,03. Segundo alguns analistas, será o suficiente para que o efeito para o consumidor seja nulo ou irrisório.

O álcool é uma solução e não um problema. A segunda onda de consumo em massa chegou agora, com o uso de tecnologia bicombustível nos automóveis. A frota desses veículos já ultrapassou a casa do milhão e tem sido a principal responsável por aumentos em torno de 10% ao ano na demanda do álcool. Ao ganhar espaço, a própria tecnologia permite a regulação entre gasolina e álcool em função dos preços de ambos e contribui por si só para o ajuste do mercado. Entra na equação da onda altista de preços as excelentes cotações do açúcar, que nos últimos dois anos aumentaram 220% (preços de final de período) e que trazem a cada ano novos recordes na exportação brasileira da commodity.

O governo e as empresas privadas têm feito esforço para vender a solução alternativa brasileira no mercado internacional. A oferta é tentadora diante do novo patamar de preços do petróleo. Aos poucos, as exportações estão ganhando velocidade. Elas saltaram de 300 milhões de litros há três anos para 2,4 bilhões de litros, uma fatia de 15% dos 14,4 bilhões de litros produzidos no ano passado. O negócio tem futuro e o presente é remunerador – os preços do álcool no mercado internacional mais que dobraram e estão na casa dos US$ 580 por mil litros. Um programa cuidadoso de expansão permitirá que o Brasil atenda a demanda internacional que, a médio prazo, tende a ser enorme. Para isso, entretanto, há necessidade de aperfeiçoar a organização do mercado doméstico.

Pelo lado da oferta, as usinas estão se expandindo e os grupos se consolidando em fusões, o que faz prever que a atual “febre” do açúcar possa se transportar para o álcool e garantir o aumento da produtividade e a evolução da oferta. Ela será necessária, porque com o advento do flexfuel o mercado para o produto é crescente e cativo, mesmo que nada de significativo ocorra no mercado internacional. A mão do governo, neste caso, deverá ser reguladora – zoneamento e controle – para conter os efeitos agressivos ao meio-ambiente da monocultura (que a cana-de-açúcar ainda é, em grande parte).

O gargalo maior é a virtual inexistência de estoques no mercado. A combinação de preços altos e demanda aquecida, dentro e fora do Brasil, tem feito a produção correr atrás do consumo. Ao governo competiria regular o mercado, agindo preventivamente nos casos de escassez, com os instrumentos de que já dispõem. A criação de um mercado futuro doméstico auxiliaria na coordenação dos preços, pois a formação dos contratos pode indicar com boa antecedência gargalos na produção e nos estoques. A minicrise atual é conseqüência de um mercado em expansão e é até positiva: aponta os problemas que empresas e governo terão de resolver para desenvolver um mercado promissor.

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