Mercado

CTA retoma plano do avião com motor movido a álcool

O projeto reinicia de onde parou nos anos 80, dos ensaios em vôo. O Centro Técnico Aeroespacial (CTA) retomou o projeto dos motores aeronáuticos a álcool, iniciado na década de 80 e interrompido anos depois por falta de recursos. A idéia é estender isso para todas as aeronaves que usam gasolina de aviação e baratear o custo do combustível. O litro da gasolina de aviação chega a custar até seis vezes mais que o do álcool, o que tem inviabilizado as operações aéreas em muitas regiões, especialmente as agrícolas.

A diferença exorbitante de preço entre a gasolina e o álcool, segundo o presidente da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), Adalberto Febeliano, tem levado muitos operadores de aeronaves a pistão a usar indevidamente o álcool, fazendo a conversão inadequada dos motores. Segundo a Abag, existem hoje entre 300 e 400 aeronaves voando de forma irregular com álcool no País, que tem a segunda maior frota de aviões leves no mundo.

Das 14 mil aeronaves leves em operação hoje no país, 12 mil são equipadas com motores a pistão, que usam a gasolina de aviação. Atentas ao potencial desse mercado para os motores de baixo custo operacional, as empresas Aeromot (RS) e Aeroálcool (SP) entraram no projeto do CTA para desenvolver a nova tecnologia e permitir a fabricação desses motores no Brasil.

Opções de conversão

A Indústria Aeronáutica Neiva, subsidiária da Embraer, também está desenvolvendo uma versão a álcool do avião agrícola Ipanema, projeto que teve como base a tecnologia desenvolvida pelo CTA. O Ipanema já tem mais de 900 unidades em operação no Brasil.

Segundo a Neiva, todos os modelos vendidos este ano serão entregues com motor a gasolina, mas 80% dos contratos foram assinados com a opção de conversão para álcool a partir de dezembro. Até lá a Embraer espera já ter certificado seus aviões para a nova tecnologia.

A nova fase do projeto do CTA terá como ponto de partida os ensaios em vôo que não foram realizados na década de 80. O avião utilizado nos testes, segundo o coordenador do projeto no CTA, Paulo Sérgio Ewald, será novamente o T-25, modelo de treinamento básico dos pilotos da Força Aérea Brasileira (FAB). “Já instalamos um novo banco de ensaios no CTA com instrumentação adequada para testar os motores. Numa outra etapa iremos investir em melhorias na infra-estrutura necessária ao desenvolvimento do processo de certificação dos motores a álcool”, explica o engenheiro. Segundo a direção do CTA, o projeto tem previsão de investimentos de R$ 1 milhão, somente para a parte de capacitação tecnológica.

Os recursos deverão ser repassados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pelo Departamento de Aviação Civil (DAC), parceiros do projeto. A empresa norte-americana Textron Lycoming, fabricante dos motores que equipam tanto o T-25 quanto o Ipanema, também deverá participar do projeto dos motores a álcool do CTA. A empresa é representada no Brasil pela Aeromot, que equipa seu monomotor Guri com motor Lycoming O-235. “Temos experiência nessa área com a produção de peças e a instalação de motores Lycoming em mais de 60 aviões Paulistinha”, comenta o presidente do grupo Aeromot, Cláudio Barreto Viana. Segundo ele, a Aeromot fez parceria com a Aeroálcool para o projeto do CTA. “Neste caso a Aeroálcool, que já tem conhecimento da tecnologia, se encarregaria do desenvolvimento de um kit para a conversão dos motores e a Aeromot ficaria com a fabricação e o suporte técnico do fabricante”. A certificação do motor estaria a cargo do CTA, órgão que homologa produtos aeronáuticos no Brasil.

O objetivo, segundo Viana, é estender o programa para outras aeronaves que usam motores a pistão no Brasil, como o Aerobuero, modelo com mais de 400 unidades em operação no país. A Neiva também deverá ser convidada para participar do projeto, de acordo com o presidente da Aeromot. “A empresa será uma usuária importante do motor que está sendo desenvolvido para o Ipanema, o avião agrícola mais vendido no Brasil”, disse.

Mercado potencial

Defensor incondicional da tecnologia do motor a álcool, o presidente da Abag, Adalberto Febeliano, disse que a escassez e o alto custo da gasolina de aviação impõem a necessidade de uma nova tecnologia de propulsão ou de uma nova alternativa de combustível para manter o setor em operação. “As dificuldades de abastecimento no mundo são crescentes. Existe um mercado potencial de centenas de milhares de aeronaves leves que poderiam utilizar o motor a álcool como alternativa à gasolina de aviação, cada vez mais rara e cara”. Além do custo mais baixo, segundo Febeliano, o álcool tem uma vantagem ambiental muito grande em relação à gasolina, pois não usa o antidetonante chumbo tetraetila, metal pesado e altamente poluente.

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