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Com menos dinheiro, produtor de grãos abre mão da tecnologia

A próxima safra brasileira de grãos será plantada com menos tecnologia. A procura por fertilizantes e defensivos tem sido menor que em anos anteriores, reflexo da menor rentabilidade obtida pelo produtor na última safra e do atraso na negociação da dívida com fornecedores. Segundo a Associação Nacional de Difusão de Adubos (Anda), entre janeiro e setembro as vendas de fertilizantes somam 13,07 milhões de toneladas, volume 17,7% inferior ao do mesmo período do ano passado.

Eduardo Daher, diretor-executivo da entidade, diz que a redução das entregas se verifica principalmente nas culturas de grãos, com destaque para a soja, uma vez que as entregas para culturas perenes e semiperenes, como café, cana-de-açúcar e citros, cresceram em relação ao ano passado. A cana é a grande vedete deste ano, diz.

A Anda informa que cresceram as entregas do produto nos Estados com importante produção de café, cana e citros, como São Paulo, Minas Gerais, Alagoas, Pernambuco e Espírito Santo. Nos Estados com forte tradição na produção de grãos, as entregas caíram acima do índice global. Em Goiás, as entregas de adubo caíram 36% entre janeiro e setembro, no Rio Grande do Sul a queda foi de 33%, e em Mato Grosso do Sul o recuo bateu 32%. Já em Mato Grosso, a queda foi de 21%, no Paraná a redução está em 20% e na Bahia as entregas diminuíram em 19%.

Daher salienta que boa parte dessa queda no consumo de fertilizantes decorre da redução de área plantada no próximo verão. Ele destaca também que 2004 foi um ano excepcionalmente bom para o setor, com volume de entregas efetivas em 22,8 milhões de toneladas. A previsão para 2005 é de entregas entre 19 milhões e 20 milhões de toneladas, o que representará recuo entre 12% e 14% sobre 2004, mas em volume próximo ao da safra de 2002.

DEFENSIVOS

No setor de defensivos, as vendas computadas também são menores. Os produtores de grãos deverão reduzir ao máximo a aplicação de fertilizantes e defensivos na lavoura na safra 2005/06, diz o presidenteexecutivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), Cristiano W. Simon.

Nos meses de agosto e setembro, as vendas de herbicidas e fungicidas caíram 30% na comparação com o mesmo período do ano passado. A Andef ainda espera uma pequena recuperação, mas prevê que o setor fechará o ano com faturamento 20% menor, ao redor de US$ 3,5 bilhões.

Simon diz que o setor de insumos, como um todo, deve sofrer o impacto da redução da área plantada e do menor uso de tecnologia. Sua estimativa é de que a venda de calcário, para correção do solo, caia 45% nesta safra. Produtividade e produção deverão ser menores, diz o executivo.

Para Daher, da Anda, a redução no plantio é uma decisão acertada do produtor na hipótese de ter de empregar menos tecnologia na lavoura. Problemas de crédito, ou de cadastro, também estão dificultando as compras dos agricultores, segundo ele. É grande a expectativa quanto às entregas de adubos de outubro, mês de pico para o setor. Daher disse ainda que os preços dos fertilizantes caíram, em linha com a nova configuração cambial, considerando que entre 65% e 70% dos componentes são importados. A menor demanda também influi para a queda dos preços de adubos.

Cristiano Simon diz que o desempenho negativo neste ano deve ser visto como um fator cíclico no agronegócio, decorrente da queda nos preços mundiais das commodities, em especial o da soja, e dos problemas climáticos enfrentados na última safra de verão, com perda de até 85% da produção no Sul do País, que reduziram a renda do produtor. Em 2006/07, o setor espera se recompor, com expectativa de reação nos preços mundiais da soja e mudanças no câmbio. O real não pode continuar nesse nível de valorização em relação ao dólar, diz Simon.

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