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Coincidências ajudaram o programa

Foi por uma série de coincidências e pura necessidade de se economizar o petróleo que o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) nasceu, na opinião de dois dos pais do projeto, os irmãos Cícero Junqueira Franco, de 73 anos, e Eduardo Diniz Junqueira, de 79. No comando da Usina Vale do Rosário, uma das gigantes do setor, em Morro Agudo, ambos vão além e defendem que o Proálcool poderia ter sido um sucesso bem antes, desde os anos 30, se tivessem dado certo os embriões de políticas públicas para o fomento do uso de etanol da cana como combustível alternativo. O Proálcool foi exumado e ressuscitado em 1975, resume Cícero. Ele e o irmão lembram que, entre 1939 e 1945, o Brasil não tinha refinarias e a gasolina enfrentou, como outros produtos, problemas para ser importado, em virtude da 2ª Guerra Mundial.

Até 1939, o álcool era usado sem política definitiva, mas, com o bloqueio, o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) foi obrigado a estabelecer um plano de emergência para produzir o combustível e misturá-lo, em até 2%, à gasolina. Aí nasceu, talvez, o primeiro Proálcool. Foi estabelecido um plano de novas usinas para fazer exclusivamente o álcool e, em São Paulo, surgiu uma dezena de destilarias, explica Cícero. Mas o controle era total do IAA, completou Eduardo, citando o instituo, braço do governo que controlava o setor. Mas a guerra acabou, o abastecimento da gasolina foi normalizado e o álcool caiu em desuso.

Depois de 1945, o IAA usou a mistura do álcool à gasolina como válvula de escape para os excessos de cana. A produção de açúcar era controlada pelo IAA, que definia quem ia fazer, quanto seria feito, por quanto e para quem os produtores iriam vender. E toda vez que sobrava cana, o IAA a destinava à produção do álcool e autorizava a mistura de 5% a 12%.

O cenário não mudou até a crise do petróleo, em 1973, quando o governo foi obrigado a buscar no álcool a alternativa para reequilibrar a balança comercial, já que 80% do óleo para o refino era importado. À época, o então presidente da Petrobrás, Ernesto Geisel, já estava indicado para ocupar a Presidência da República e um dos seus diretores, Shigeaki Ueki, fora escolhido para ser ministro de Minas e Energia, responsável por encontrar uma saída para a crise. Ueki convocou muita gente da iniciativa privada para criar planos para economizar petróleo, diz Cícero.

Um dos consultados foi Lamartine Navarro, da Associação Brasileira dos Distribuidores de Gás Liquefeito de Petróleo e sócio de Cícero em uma fazenda. O que o setor sucroalcooleiro pode propor?, perguntou Navarro a um grupo de usineiros. Me lembrei que o álcool era uma válvula de escape para a cana e talvez fosse também para o petróleo, disse Cícero.

O grupo, liderado por Navarro, desenvolveu um trabalho, em abril de 1974, cujo objetivo principal era usar o álcool em 20% como mistura. Entregamos o trabalho a Ueki. Ele convocou técnicos do ministério, do Conselho Nacional do Petróleo, da Petrobrás e mandou analisar o projeto que foi o embrião do Proálcool, dizem os irmãos.

Mas houve uma segunda coincidência para que o Proálcool desse uma arrancada no início. Graças à disparada no preço do açúcar em 1971, que chegou a US$ 1.500 a tonelada, o IAA, que, cabe lembrar, controlava tudo, conseguia vender, por US$ 750 a tonelada, o açúcar que comprava das usinas a US$ 150 a tonelada.

Com o caixa cheio, o instituto desovou recursos, entre 1971 e 1972, num plano de modernização e realocação das usinas. Pequenas usinas foram transformadas em usinas médias. Destilarias independentes foram construídas. Mas sempre com dinheiro obtidos da venda do açúcar, salienta Eduardo. Quando veio o Proálcool, em 1975, o setor estava revigorado por causa do plano e, em dois ou três anos, a produção passou de 600 milhões de litros para 2,5 bilhões de litros, diz Cícero.

Eles fazem questão de lembrar que o Proálcool não teria dado certo sem o desenvolvimento da indústria de base para usinas e sem a competência da engenharia automotiva brasileira. O nascimento do motor a álcool foi um dos maiores avanços da engenharia automotiva, afirma Cícero.

Ele lembra, às gargalhadas, de uma viagem feita entre Morro Agudo e Pereira Barreto. Na ocasião, compramos um Fiat 147, um dos primeiros a álcool, e vi no jornal que tinha sido inaugurado um posto em Pereira Barreto com o álcool. Enchi o tanque aqui, cheguei lá e o japonês do posto disse: a bomba está aí, mas o combustível não chegou, conta Cícero. E a volta? Fui na farmácia, no supermercado, comprei álcool, enchi o tanque e o carro veio falhando.

Mas cheguei. Nem tudo no Proálcool, entretanto, foi acerto e nem todos sempre colaboraram. Os irmãos lembram que, apesar de aliada no começo do Proálcool, a Petrobrás percebeu que o álcool era concorrente de toda uma cultura baseada no petróleo e chegou, segundo eles, a bloquear o programa.

Um dos erros – talvez o que deu razão à Petrobrás – foi a febre pelos carros a álcool, que superou 90% dos veículos novos vendidos em 1984 e 1985. Num certo período, a Petrobrás colaborou muito, mas depois chegou a bloquear um pouco o programa com um receio, talvez até com razão, porque vender 90% de carro a álcool era uma loucura, uma quantidade que o setor produtivo não estava preparado, conclui Cícero.

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