Mercado

Bunge freia expansão de aportes em curso para comprar usinas

A Bunge, uma das maiores empresas do agronegócio, freou a expansão dos investimentos em curso para ter mais dinheiro em caixa e poder fazer aquisições “a preços razoáveis no Brasil e em outras partes do mundo”.

O presidente mundial da Bunge, Alberto Weisser, considera que a situação financeira da empresa é provavelmente a melhor dos últimos 15 anos. A companhia tem US$ 1,5 bilhão em caixa, rating triplo B, e está pronta para “oportunidades que sem dúvida vão ocorrer”.

O executivo reiterou que a Bunge não está cortando empregos e que os investimentos globais de US$ 1 bilhão serão mantidos. “A idéia a princípio era sermos mais agressivos. Mas agora freamos um pouco para ter caixa disponível para possíveis aquisições para acelerar fatias do mercado.”

A empresa mantém conversações com usinas de açúcar no Brasil para eventuais aquisições, conforme já noticiou o Valor. Weisser sempre sinalizou interesse da empresa de investir mais no setor sucroalcooleiro, mas reclamava que as usinas estavam muito caras.

O cálculo é simples: a construção de uma usina nova custa o equivalente a US$ 70 por tonelada de cana (considerando a sua capacidade de moagem). Até meados de 2008, o preço para compra de uma fábrica no Brasil era superior a US$ 100. Agora, parece claro que o “preço razoável” nos planos da Bunge é abaixo dos US$ 70.

Weisser explicou que uma das razões pelas quais a Bunge não fez aquisições até agora em certas áreas do Estado de São Paulo é que algumas usinas “estão antiquadas e com dificuldades logísticas, e precisamos ter vantagem comparativa e custos baixos”. A Bunge priorizou outras regiões. Tem projetos de construção de três usinas no Tocantins, dentro do plano de investimentos globais de US$ 1 bilhão anual. E adquiriu usinas em Minas Gerais e no Mato Grosso do Sul nos últimos dois anos.

A Santa Juliana, em Minas, já começou a operar e este ano vai processar 1,5 milhão de toneladas, mas aumentará a moagem até chegar a 4 milhões de toneladas por ano. A do Mato Grosso do Sul inicia as operações em 2010 e um dos projetos de Tocantins deve começar a operar em 2011.

Apesar da freada, no Brasil, a Bunge irá manter o ritmo de construção das usinas no Tocantins e das ampliações em Minas Gerais e no Mato Grosso do Sul.

A empresa tem uma visão positiva a longo prazo sobre a demanda por açúcar, que cresce 3% ao ano, e também de etanol. A previsão de Weisser é de que a venda de etanol vai crescer primeiramente dentro do Brasil e depois na Europa e na Ásia. O ritmo de avanço das vendas deve ser menor nos EUA, onde o etanol de milho se impõe.

A Bunge já tentou aproveitar a crise para se expandir no fim de 2008, quando ofereceu US$ 4,4 bilhões pela americana Corn Products International. O negócio foi interrompido no último minuto, com a rejeição de acionistas ao preço oferecido.

Ontem, o anúncio de que a Bunge estava negociando com a GMR, na Índia, valorizou as ações da companhia indiana, mas os dois lados disseram que ainda não há nada concreto.

Em Davos, onde ocorre o Fórum Econômico Mundial, Weisser mostrou-se otimista com as perspectivas do setor agrícola para 2009, no meio da mais dramática crise financeira e econômica dos últimos tempos.

“A vantagem do agronegócio é que as pessoas precisam se alimentar”, argumentou. Ele avalia que o excedente de carnes nos EUA e na Europa, por causa de excesso de produção, está diminuindo. Com isso, as margens voltam a subir e crescerá a demanda por grãos e farelo de soja.

Na área de óleos vegetais, a expectativa de Weisser é de que a demanda suba 4%. Ele vê impacto positivo também para preços no campo, pois os estoques mundiais estão baixos e a produção foi menor em 2008. Este ano, a produtividade deve ser menor e essa é uma das razões pelas quais os preços vão continuar relativamente bons.

Quanto aos preços do açúcar, Weisser disse que estão subindo porque os excedentes da Índia acabaram. Ou seja, vai existir demanda por açúcar do Brasil.

Em dezembro, a crise global fez a Bunge rever as estimativas de ganhos. Só a desvalorização do real provocou uma perda de US$ 225 milhões, que a empresa espera recuperar. A questão foi o tempo da desvalorização, segundo Weisser, porque ocorreu em 2008 e os estoques só serão vendidos neste ano.

Outro problema foi o aumento da inadimplência, que levou a companhia a fazer provisão de US$ 160 milhões no fim do ano. “Na Ásia, Europa e Oriente Médio, clientes não honraram os contratos. Ficamos com as matérias-primas e tivemos que vender com preço mais baixo. Agora que os preços pararam de baixar, o risco diminuiu e os clientes voltaram.”

Weisser minimizou, porém, essa situação. “Quando o preço sobe, quem não honra os contratos são os produtores, e quando caem são os clientes. Desta vez, o que aconteceu é que a queda de preços agrícolas, frete e energia foi espetacular, e nos deu alguns problemas”.

A Bunge também está mais conservadora na concessão de financiamento a produtores. O executivo disse que toda a indústria do agronegócio, que perdeu muito dinheiro com créditos em 2006-2007, está sendo mais cuidadosa nos empréstimos, no momento.

No Brasil, a Bunge fornece um terço do financiamento do produtor. “Existe falta de crédito a ser coberto pelo governo, principalmente no Brasil. No resto do mundo, a nossa participação no financiamento é muito menor”.

“A crise global é séria e vai tomar tempo. Não imagino recessão no Brasil, China e Índia, mas o crescimento será menor”, concluiu.

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