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Brasil exporta menos que China, Índia e Rússia

As exportações brasileiras mais do que duplicaram nos últimos seis anos, mas o desempenho do País ficou aquém da performance de seus competidores diretos – Índia, Rússia e China – no mesmo período. O diagnóstico foi feito pela Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). O setor exportador está preocupado com a desaceleração do crescimento das vendas externas e prepara um documento que será apresentado ao governo, no fim deste mês, com reivindicações e sugestões para estimular a atividade.

Os dados recém-levantados pela entidade mostram que as exportações brasileiras cresceram 149,6% entre 2000 e 2006. No mesmo período, as vendas externas avançaram 188,5% na Rússia, 183,6% na Índia e 288,9% na China. Num prazo mais longo, a diferença é ainda maior. No período de 1980 a 2006, enquanto as exportações chinesas aumentaram 5,254,3% e as indianas, 1.299,6%, as vendas externas brasileiras avançaram 592,8%. O dado positivo é que as vendas brasileiras aumentaram acima da média mundial (86,9%).

Segundo a AEB, o País perde dos emergentes por conta de dificuldades internas. De forma geral, as exportações brasileiras estão muito concentradas na venda de commodities e manufaturados considerados estáticos, que não têm o dinamismo de produtos de ponta, explica o vice-presidente da AEB, José Augusto de Castro.

Os manufaturados representam 35% das vendas brasileiras (excluindo commodities industrializadas, como açúcar refinado), taxa que salta para 70%, no caso da Índia, e para 90%, na China. Na Rússia, há predominância do petróleo e de diamantes na pauta. Os manufaturados são mais estáveis, não estão sujeitos a flutuações de preços como as commodities diz Castro. O crescimento das exportações não decorreu de uma política agressiva (do governo), mas porque a demanda externa está alta, diz o presidente da AEB, Benedicto Moreira.

Na segunda-feira passada, representantes do setor exportador reuniram-se no Rio para discutir os rumos do comércio exterior do País. Na prática, o setor está preocupado com a desaceleração das vendas externas. A AEB estima que as vendas externas brasileiras deverão avançar ao redor de 16% neste ano e talvez algo entre 8% e 10% em 2008. O último ano de crescimento mais forte foi 2004 (32%). Desde então a performance vem caindo. Enquanto isso, as importações deverão manter um ritmo de expansão perto dos 30% em 2007 e 2008.

As estimativas da Fundação Centro de Estudos em Comércio Exterior (Funcex) indicam exportações de US$ 158,5 bilhões, 15% acima do ano anterior. De janeiro a outubro, as importações cresceram 28% e deverão fechar o ano em US$ 118 bilhões. As importações aceleraram. Vamos realmente entrar em 2008 com um ritmo anual de 30%, afirma o economista da Funcex, Fernando Ribeiro.

Moreira argumenta que o câmbio baixo (de R$ 1,74 na quinta-feira) chega a dar aflição muito grande. Se os preços externos (de produtos e commodities) baixarem um pouco, vai ter uma quebra, afirma. Ele explica que o superávit comercial de fato é elevado, na casa dos US$ 40 bilhões. Mas, para o presidente da AEB, está todo mundo com a visão bloqueada pelo saldo.

A questão também preocupa executivos que conhecem de perto o comércio exterior. O presidente da Mogno Consultoria e do conselho de administração da Embraer, Maurício Botelho, resume a questão: Esse câmbio está duro de agüentar.

Botelho, que participou da reunião na semana passada, acrescenta que, além do câmbio, o País enfrenta dificuldade na competitividade interna e ainda deverá encontrar problemas no longo prazo, em dez anos, já que outros países têm investido, alguma das vezes a fundo perdido, em tecnologia.

O documento base da AEB está praticamente pronto. Algumas das medidas defendidas pela entidade são privatização da gestão portuária no País, consolidação e simplificação da legislação ligada ao comércio exterior, desburocratização de procedimentos, desoneração tributária das vendas para fora e melhorias na logística.

O presidente da AEB também alerta que é um risco o País partir para uma nova rodada de abertura comercial, que tenderá a ampliar as importações, sem fortalecer as exportações das empresas nacionais.

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