Mercado

Álcool - onde ficam os outros custos?

É preocupante que na controvérsia sobre abastecimento e custo do álcool quase não tenham chegado ao noticiário informações sobre o pior dos custos com a decisão de reduzir de 25% para 20% a mistura de álcool anidro à gasolina para consumo interno: o aumento da poluição atmosférica, principalmente nas grandes cidades, com fortes reflexos para a saúde das pessoas e nos custos da saúde pública, como têm demonstrado vários estudos.

Repete-se o quadro de 2003, no início do atual governo federal, quando, para permitir a exportação de álcool anidro para a Suíça e o Japão (que o utilizaram para diminuir a emissão de poluentes por veículos em suas cidades), se decidiu reduzir a mistura aqui – aumentado a poluição nas nossas cidades. Naquele momento, entretanto, tal como agora, passou batido o problema da poluição, encoberto pelas questões econômicas e financeiras. E não deveria ser assim, no momento em que o mundo todo está às voltas também com graves problemas decorrentes da emissão de poluentes que intensificam o efeito estufa e agravam os chamados desastres naturais.

Quem consultar o inventário de emissões que o Brasil apresentou em 2004 verá que já em 1994 as emissões geradas pela queima de combustíveis fósseis – as piores – no País representavam quase um quarto do total brasileiro, que já superava 1 bilhão de toneladas de dióxido de carbono por ano.

A julgar pelo noticiário, parece esquecido o fato de que o etanol vai assumindo uma importância muito grande no panorama energético mundial exatamente porque pode substituir combustíveis fósseis e reduzir o nível de emissões de gases poluentes, previsto para aumentar 60% até 2030. Mas, para agravar o quadro, nossas usinas repetem o procedimento de 1989/1990, quando, para se beneficiar dos preços do açúcar no mercado externo, deixaram o mercado interno desabastecido de álcool. Naquele momento, os carros a álcool representavam mais de 90% do mercado de automóveis novos no País. Em seguida, caíram para quase zero, e o mercado do álcool como combustível só se recuperou mais recentemente, com os carros flexíveis.

Mais grave ainda, as usinas romperam agora o acordo de manutenção de preços que haviam firmado com o governo brasileiro, de novo porque o mercado externo está mais atraente, é o melhor dos últimos 20 anos. Com isso o preço interno do álcool vai de salto em salto. E já se fala até em reimportar da Índia álcool brasileiro! Talvez se argumente que é a lei do mercado, não há como garantir preços. Em termos.

Porque os números são afetados também por outros fatores que nada têm que ver com aquela lei – ao contrário, entram em cena para contrabalançar quando há fatores que puxam para baixo os preços.

Quem se lembra das leis do mercado quando se trata de redução de impostos no mercado interno (isenção de ICMS) ou na exportação? Quem se lembra delas na hora de renegociar dívidas bancárias com taxas de juros muito favorecidas ou de financiar investimentos nas mesmas condições? Também os horizontes que se desenham são preocupantes. Afirma-se que os projetos em andamento permitirão aumentar a produção em 20%.

Mas que significará isso diante das projeções segundo as quais, em 2010, o mercado externo para o álcool brasileiro estaria em 15 bilhões de litros anuais, 400% a mais que os 3 bilhões deste ano, e que também o mercado interno estaria em 15 bilhões de litros (hoje a produção total está em 17 bilhões de litros anuais)? Como se vai dar essa expansão? Com que influência nos preços? Começa também uma guerra de informações sobre as reais possibilidades energéticas do etanol e sobre seus custos, incluídos todos os fatores. Fora os preços, há quem lembre os altos custos, para o consumidor brasileiro, da transferência das culturas de alimentos para regiões distantes, a partir do início da expansão da cultura da cana, principalmente no Estado de São Paulo. Como há quem tente fazer outras contas, adicionando ao balanço energético o consumo com transporte da cana e também do etanol para os locais de mistura. E ainda há quem acrescente a essas externalidades os custos para a saúde humana dos aldeídos emitidos na combustão.

Ou o das emissões na queima da cana.

A guerra de informações não é só no Brasil. Há poucas semanas, correu mundo um estudo da Universidade de Cornell que concluía não ser o etanol viável porque, contabilizados todos os custos, consumiria mais energia para ser produzido e transportado do que a energia que poderia gerar.

Outro estudo, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, entretanto, garante que estudos desse tipo estão com sua base de informações defasada, por não levarem em conta outras possibilidades, como a produção também a partir de utilização do bagaço (New Scientist, 4/2). No âmbito da própria Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) se desenvolve mais um estudo, segundo o qual o álcool representa apenas 30% da energia que pode ser gerada pela cana. Outras possibilidades estariam na utilização do bagaço peletizado e da palha, aumentando muito a geração de energia – embora seja preciso gaseificar, eliminar o alcatrão, o material particulado, a amônia, o enxofre, o ácido clorídrico (boletim do Fórum Social do Clima, 8/2).

Não por acaso, o próprio presidente Bush referiu-se recentemente à possibilidade de substituir combustíveis fósseis por etanol celulósico. E o homem mais rico do mundo, Bill Gates, anuncia que vai investir por aí. Pode significar que o horizonte seja realmente promissor. Nem por isso, entretanto, nos podemos furtar a uma discussão mais aberta. Nem fazer a sociedade pagar qualquer preço.

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