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Mercado de combustíveis vive período de turbulência

Para consultor proposta de alteração no ICMS não terá impacto imediato

João Chierighini

“Pós-guerra sem bomba”. Essa é a definição do consultor João Chierighini para o período que se avizinha no mercado de combustíveis, diante dos diversos fatores que implicam na oscilação de preços do produto.

A Petrobrás divulgou sua nova tabela de preços para a gasolina-A reajustando em 7,0%, demonstrando buscar a paridade internacional, mas sem absorver toda volatilidade externa.

Nas usinas, o etanol segue subindo. A Esalq apurou que o hidratado subiu 1,49% na semana e o anidro +0,86%.

Os preços do etanol e da gasolina seguem também se elevando nas bombas. Somente na última semana, a ANP apurou alta de 0,6% para etanol hidratado e 0,3%% para a gasolina-C. Podem parecer baixos os índices, mas neste ano a GC subiu 37% e o HD ao consumidor 52%.

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“Se por um lado os preços estão recordes, os custos também estão, por motivos diferentes: Crise de energia na Europa e na China que limita a produção de insumos para fertilizantes, a crise de oferta de containers que é agravada pelo congestionamento nos portos mundo afora pelos novos critérios sanitários para atracação, altos preços do petróleo e o Real que acumula 6% de desvalorização frente ao dólar neste ano, entre outros, são apontados como as causas desse movimento”, avalia o consultor, que concedeu a seguinte entrevista ao JornalCana:

JornalCana: O aumento da gasolina deverá dar maior flexibilidade às vendas de etanol hidratado?

João Chierighini: O aumento de preço da gasolina-A definido pela Petrobras nas refinarias, apenas estabelece novo patamar de referência para os preços do etanol hidratado e anidro. Em intervalo curto, as distribuidoras repassam esse aumento à rede varejista (postos) e está dado novo patamar de preço. Na verdade, o mercado lê esse novo patamar de preços a partir do anúncio do reajuste.

JornalCana: As usinas deverão controlar a demanda de etanol via preços mais elevados?

João Chierighini: As usinas não controlam a demanda. O próprio mercado estabelece os níveis de consumo em função dos preços relativos:

(1) Relativos à gasolina: Dado que há percepção pela maioria dos consumidores da relação de 70% entre o preço do hidratado e da gasolina-C (posto) como ponto de decisão para consumo de um ou outro nos veículos flex;

(2) Relativo à renda: Independentemente da relação entre os preços do hidratado e da gasolina na bomba, o valor deles em relação à renda das famílias pode, e deve, impactar o consumo.

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JornalCana: Se os preços estão tão elevados, por que o consumo ainda continua forte?

João Chierighini: Eis a pergunta que faço a todos para reflexão. Porque a demanda não cai? A demanda cai sim! Veja que o hidratado, impactado pelo alto preço relativo à gasolina, tem sua demanda reduzida sistematicamente. Da 1ª quinzena de janeiro deste ano para a primeira quinzena de setembro, a paridade do hidratado com a gasolina sai de 70,5% para 78%, o preço do hidratado subiu 48,3% (de R$ 3,04/L para R$ 4,50/L) ao consumidor e a demanda recuou 20,2% (saídas de hidratado das usinas).

A demanda presumida da gasolina-C nesse período subiu 25%, ocupando o espaço deixado pelo hidratado. Os combustíveis do ciclo Otto (gasolina e hidratado) se mantêm em patamar elevado pela recuperação em curso da economia: O PIB acumulado do ano está em 6,4%. O índice reflete uma base de cálculo fraca sim, mas também afirma uma incontestável recuperação.

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JornalCana: Na última semana, Jair Bolsonaro questionou…“Nós somos autossuficientes em combustíveis, por que esse preço atrelado ao dólar? Eu posso agora rasgar contratos? Como fica o Brasil perante o mundo? Estamos recuperando a nossa imagem no mundo”. Qual sua opinião sobre as indagações do presidente?

 João Chierighini: Há uma certa impropriedade nessa frase do presidente, quando questiona se temos que “aceitar os preços dos combustíveis atrelados ao dólar se somos autossuficientes em combustíveis”. Primeiro porque não somos autossuficientes: Importamos gasolina e diesel. Segundo porque o preço é fruto do mercado e a Petrobras não poderia “rasgar o contrato” com os acionistas e decidir vender seus derivados por preço abaixo do mercado. É uma questão de governança empresarial.

Sobre a imagem do Brasil, “o mundo” não está preocupado com nossa imagem, e sim, com seus próprios interesses econômicos e geopolíticos. O consumo de gasolina dos EUA, China e União Europeia juntos representam 54% da demanda global. O Brasil, país de porte também continental, participa com 3%.

A China, Índia, EUA e União Europeia queimam 78% do carvão mundial, e somos nós brasileiros que poluímos?

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JornalCana: A Câmara dos Deputados votou a proposta de alteração de ICMS dos combustíveis. Acredita que a medida permitirá a redução imediata do preço dos combustíveis?

João Chierighini:  Pode trazer alívio na cadeia comercial, mas não redução imediata, já que o preço é definido pelo mercado. Quando há um alívio de custo em qualquer etapa da cadeia, há uma imediata incorporação desse alívio à margem, posteriormente o mercado busca novo patamar de competição entre todos os operadores.

JornalCana: Os efeitos climáticos continuam impactando os canaviais nesta safra, com reflexos na produção de etanol hidratado, já que a prioridade está na produção de anidro, que teve crescimento de 26,4% no ciclo atual, em atendimento aos contratos e regramentos da portaria ANP-67. Diante deste cenário, quais são as perspectivas de preços do biocombustível para a entressafra, que será mais longa desta vez?

João Chierighini:  Enquanto houver mercado, os preços seguirão ascendentes. Historicamente, no início de março os preços tendem a cair com a entrada do ciclo novo (real) da cultura de cana-de-açúcar. Na safra passada houve uma ruptura de padrão com o atraso na entrada da safra 21/22. Somado a isso, com a percepção dos efeitos do clima seco sobre o canavial e consequente menor oferta de produto final, os preços se elevaram e seguiram em ascensão até os dias de hoje.

A expectativa do mercado de uma safra 22/23 melhor talvez não seja suficiente para reduzir os preços. Se a safra se iniciar mais tarde novamente os preços podem repetir o movimento. Ouçamos os Agrônomos, e oremos aos Deuses!

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