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Mercado começa a tirar o racionamento do cenário

O discurso propalado pelo governo nos últimos meses, de que não deve ser preciso adotar racionamento de energia este ano, começa a ganhar eco entre importantes participantes do mercado. Grandes bancos de investimento e consultorias econômicas estão convencidos de que é cada vez menor a probabilidade de ser decretado o corte compulsório de consumo de eletricidade. A expectativa, de acordo com relatórios divulgados nos últimos dias por BTG Pactual, J.P. Morgan e Bank of America Merrill Lynch (BofA), deve-se à melhora do regime de chuvas, à previsão de entrada em operação de novos projetos de geração ao longo do ano e, principalmente, à queda do consumo de energia.

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Para o J.P. Morgan, esse cenário reduz o risco de racionamento inclusive para o próximo ano. “A combinação de um consumo de energia mais fraco, ocorrido por um aumento da tarifa e uma campanha de racionalização, melhor hidrologia e a partida de nova capacidade nos próximos meses deve expandir as margens de reserva reduzindo risco de racionamento para 2016”, afirma o banco, em relatório a clientes assinado pelos analistas Marcos Severine, Henrique Peretti e Carolina Yamaguchi.

“A probabilidade de um racionamento é cada vez menor, já que atingir a meta de 30% [do nível de estoque]

dos reservatórios no final de abril parece muito provável”, afirmam Antônio Junqueira, João Pimentel e Julia Ozenda, que assinam o relatório do BTG Pactual.

A opinião do banco está em linha com a visão do BofA. “Os receios de implementação obrigatória de um racionamento de energia parecem ter ficado menores, mas não por uma boa razão, isso é atribuído mais ao enfraquecimento da economia e à redução subsequente na demanda, e não a uma melhora nas perspectivas de abastecimento hídrico”, afirma relatório assinado por Felipe Leal e Luiz Antonio Leite.

“Não é um motivo nobre, mas, na prática, vamos escapar desse racionamento por causa de uma perda de dinamismo da economia, em particular do segmento industrial”, afirmou Fabio Silveira, diretor de Pesquisas Econômicas da consultoria GO Associados, para quem o consumo de energia no setor industrial vai recuar 3% em 2015, em comparação com 2014.

Para o economista Francisco Lopes, sócio da consultoria Macrométrica, um racionamento pode ser evitado pelo movimento de correção do valor real da tarifa de energia elétrica desde 2014, o chamado “realismo tarifário”. Segundo ele, boa parte da crise energética atual não deve ser creditada à seca, mas à política de redução de valor real das tarifas de energia. “Pode-se concluir então que a correção do valor real dessas tarifas para o nível de 2012, o que praticamente já ocorreu, deve resolver boa parte do problema”, explicou ele.

A avaliação dos grandes bancos e consultorias de investimentos está em linha com análises recentes feitas pelo banco Brasil Plural, a consultoria Tendências e o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), em reportagem recente publicada pelo Valor. Segundo o Ibre-FGV, a alta de 60% do preço da tarifa residencial neste ano deve levar a uma redução de demanda de 7% a 10% por unidade consumidora. Em entrevista concedida ao Valor, o ex-diretor do Banco Central e sócio do Brasil Plural, Mário Mesquita, afirmou que o uso de térmicas e a melhora do regime de chuvas pode evitar o “aperto quantitativo” da demanda, que também pode já estar sendo feito via preço.

Na última semana, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) reduziu, de 83% para 80% da média, a previsão de chuvas para o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, o principal do país, em março. O órgão também reviu, de 29,8% para 28,9%, a expectativa de nível dos reservatórios das usinas das duas regiões no fim deste mês.

Na próxima sexta-feira, é esperada a primeira divulgação oficial do operador sobre a previsão do regime de chuvas para abril e do nível de armazenamento nos reservatórios para o fim do próximo mês, quando termina o período chuvoso. O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, tem dito que é preciso chegar a 30% de estoque no fim de abril, para evitar um racionamento este ano, considerando que o nível de armazenamento das usinas recua, em média, 20 pontos percentuais durante a estação seca, entre maio e novembro, chegando ao fim do período com 10%, considerado limite mínimo de operação das hidrelétricas.

De acordo com o ONS, porém, seria necessário um volume de chuvas de 85% do histórico para março e abril no Sudeste e Centro-Oeste para que os reservatórios alcancem 35% de armazenamento no fim do período chuvoso. Com isso, considerando um regime de chuvas de 70% da média histórica entre maio e novembro, os lagos das usinas chegariam ao fim do período seco com 10% de armazenamento

O órgão, no entanto, já projeta uma queda da ordem de 3 pontos percentuais sobre a previsão de crescimento do consumo de energia em 2015, passando para apenas 0,2% sobre 2014. Com isso, seria preciso um volume de chuvas de 74% do histórico para março e abril, fazendo com que os reservatórios cheguem no fim do período úmido com 31% da capacidade.

As estimativas do ONS estão no mesmo patamar das previsões do instituto de meteorologia Climatempo. Segundo o meteorologista Alexandre Nascimento, o regime de chuvas no Sudeste deve ficar entre 80% e 85% da média em março e cerca de 80% em abril. Com isso, diz ele, os reservatórios hidrelétricos devem terminar o período úmido com estoque de 30% a 32%.

“A primeira semana de abril deve fechar acima de 100% da MLT [média de longo termo, ou média histórica de energia natural afluente, volume de energia que pode ser produzido a partir das chuvas]”, afirma Nascimento. “Mas a expectativa para o mês de abril é de pouca chuva. A partir da segunda semana, a chuva vai ser bem escassa”, completou.

As previsões preliminares do Climatempo para o regime de chuvas para os primeiros meses do período seco no Sudeste são de 77% da média histórica para maio, 68% para junho, 1% acima da média para julho e 98% do volume histórico para agosto.

Duas importantes consultorias do setor elétrico, PSR e Thymos Energia, porém, contestam a política operativa do governo e avaliam que seria necessário um racionamento de energia este ano. Para a Thymos, que projeta risco de racionamento de 60%, a decisão do governo de não fazer um programa de corte compulsório da demanda pode levar a uma operação do sistema com sérias restrições no futuro.

Para a PSR, é de 37% o risco de chegarmos a novembro com os reservatórios abaixo do limite prudencial de 10% no subsistema Sudeste/Centro-Oeste. O cálculo, incluído em relatório distribuído a clientes na semana passada, foi feito a partir de simulação dos cenários hidrológicos para os próximos meses, considerando agravantes, como atrasos adicionais nas obras de novas usinas e ineficiência das turbinas de hidrelétricas em operação.

No documento, a PSR contesta a versão difundida pelo governo de que o sistema de geração atravessa a pior crise hídrica dos últimos 100 anos e demonstrou robustez ao ter conseguido driblar condições supostamente tão adversas. De janeiro de 2012 a dezembro de 2014, o armazenamento dos reservatórios das hidrelétricas saiu do nível mais alto para o nível mais baixo registrado na série histórica de 81 anos.

O triênio 2012-2014, porém, foi o 16º mais seco da história e desautorizaria a explicação oficial. “Os fatos mostram que as afluências dos últimos anos foram apenas uma ‘turbulência moderada’, e não um furacão inédito”, diz o boletim “Energy Report”, da PSR. Para a consultoria, isso evidencia que o problema é estrutural (falta de capacidade de geração) e não conjuntural (escassez de chuvas).

(Fonte: Valor Econômico)

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