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Jank garante: a cana não vai prejudicar outras culturas

O presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), Marcos Sawaya Jank, tem hoje um grande desafio pela frente. Assumindo a direção da Unica, que agrega os produtores de álcool e açúcar, assume também a tarefa de mudar a imagem do setor e de abrir caminho no mercado internacional para o etanol brasileiro. Tudo isso aliado ao conceito de sustentabilidade. “Se os países desenvolvidos aceitarem uma discussão séria sobre eficiência energética dos biocombustíveis, incluindo aí subsídios dados, estaremos totalmente abertos para debater princípios, critérios e indicadores sociais e ambientais, que poderiam ser consensualmente aplicados na produção de biocombustíveis, oriundos das diferentes matérias-primas existentes.”

Aqui vão os principais trechos da entrevista:

Fala-se muito que o Brasil poderia ser centro de uma Opep do etanol. O senhor concorda?

Essa hipótese não existe. O petróleo, além de finito, é restrito a poucos países, a maioria vivendo permanentes conflitos, que tentam formar um cartel de venda. O etanol é renovável e pode, por isso, ser produzido em centenas de países. Além disso, não há possibilidade de “Opep” numa situação em que todos os combustíveis renováveis respondem, juntos, por menos de 1% da produção dos fósseis.

O Brasil tem muito a ganhar com o etanol?

Teria, não fosse a visão equivocada de autoprodução que predomina no mundo. Os lobbies agrícolas têm forçado os seus governos a adotarem soluções nacionais de alto custo, a exemplo dos subsídios para a produção de etanol de milho nos EUA e de etanol de trigo e beterraba na União Européia (UE). Ocorre que os biocombustíveis deveriam ser tratados em escala mundial, como parte da solução global para os problemas de aumento dos gases de efeito estufa e mudança climática. Claramente as melhores opções se encontram na região tropical do planeta: cana-de-açúcar, no caso do etanol, e palma, no caso do biodiesel. Aliás, foi essa a tônica que o presidente Lula imprimiu no lançamento da parceria estratégica UE-Brasil, semana passada em Bruxelas: os biocombustíveis representam uma oportunidade extraordinária para dezenas de países da América do Sul, África e Ásia, mas é fundamental que os países ricos abram seus mercados para eles.

Os empresários brasileiros estão prontos para exportar?

A atual expansão da cana é basicamente motivada pelo crescimento da frota flex, que representa 80% dos carros novos. Mas a oferta de cana esta crescendo muito e precisamos agora trabalhar a abertura do mercado externo. A abertura de capital das empresas brasileiras e a internacionalização do setor serão naturais neste processo, mas o mercado mundial ainda precisa se consolidar. Vamos criar estruturas de representação do setor nos EUA, UE e Ásia, para conversar com governos e sociedade local, tentando derrubar mitos e preconceitos que ainda cercam o setor. E também participar dos debates da formulação das políticas públicas nos diversos países.

A cana vai invadir as terras brasileiras, gerando falta de outras culturas vitais?

Comunicação deve ser uma das prioridades do setor. É errado temer a monocultura de cana. Dados censitários mostram justamente o contrário: uma diversificação do uso da terra graças ao incremento tecnológico nos últimos 60 anos. Como também é falso o dilema alimentos versus energia.

Como assim?

Vamos lá: o Brasil poderia suprir toda a demanda de etanol dos EUA, de 136 bilhões de litros, e da UE, mais 14 bilhões de litros, em 2020, com apenas 22 milhões de hectares de cana.

O que isto representa?

Somente 6,5% da nossa área agrícola ou 11% da área disponível em pastagens. Se as plantas de etanol mais eficientes, que são as nossas, tivessem espaço no mercado mundial, a discussão não seria esta, e sim a de “alimentos mais combustíveis”. Isso sem falar do enorme potencial da bioeletricidade de origem vegetal.

Qual o potencial do processo de geração de energia da biomassa de cana?

Se o Brasil crescer mais do que 4% ao ano, vai faltar energia elétrica. A bioeletricidade é uma solução eficiente, renovável, de curto prazo, feita diretamente de bagaço e palhada da cana, amplamente disponível no coração dos centros de maior consumo, com oferta concentrada nos meses de menor hidrologia.

Por que o último leilão do governo em relação a este tipo de energia fracassou?

O que falta é um mecanismo de valoração mais adequada, no formato de preços que incentivem investimentos em energia limpa e renovável, que não depende de pesados subsídios como os que estão sendo usados na produção de energias “sujas” ou de elevado risco ambiental. Falta ainda uma solução definitiva para os problemas de conexão da bioeletricidade na rede elétrica.

O setor ainda precisa de incentivos governamentais?

De forma alguma. O que falta são políticas regulatórias que garantam o equilíbrio dos mercados de etanol e de bioeletricidade. No caso do etanol hidratado, é fundamental unificar as alíquotas de ICMS em todo o País, nos mesmos níveis hoje vigentes para o óleo diesel e o gás natural veicular. Em São Paulo, a alíquota de 12% permite amplo desenvolvimento do mercado de etanol. Em Minas, a alíquota de 25% inviabiliza o consumo de álcool nos veículos flex. A expansão da cana no Triângulo Mineiro deveria motivar o governador Aécio Neves a seguir o exemplo de São Paulo.

Qual a diferença entre os problemas de acesso a mercado na Europa e nos EUA?

Nos EUA, o maior problema é a tarifa fixa de US$ 0,14 por litro. Os presidentes Lula e Bush se encontraram duas vezes este ano para discutir cooperação agroenergética, mas a questão comercial do etanol ainda está longe de ser resolvida e depende de ações concretas do Congresso americano. Nas reuniões desta semana, a UE mostrou-se mais receptiva do que os EUA em aceitar maiores importações, ainda que de forma controlada. Mas a pressão dos europeus por certificações que atestem a sustentabilidade dos produtos será crescente.

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