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Fontes renováveis têm 45% de participação na matriz

Os caminhos que levam a um modelo energético no Brasil com maior participação de fontes renováveis limpas, contraponto para os poluentes combustíveis fósseis, passam pelos canaviais. A geração hidráulica de eletricidade, hegemônica na matriz elétrica brasileira, deverá continuar a ser a principal fonte de energia, mesmo com o avanço da fronteira hidrelétrica Amazônia adentro.

As fontes alternativas de energia, como a geração eólica (produção de eletricidade com a força dos ventos), também vem ganhando espaços, embora ainda estejam longe de proporcionar geração em grande escala. A julgar pelas opiniões do físico José Goldemberg, no Instituto de Energia e Eletrotécnica (IEE), da Universidade de São Paulo (USP), descritas acima, o Brasil tem tudo para continuar a ser uma referência no uso de fontes renováveis de energia.

Segundo os dados do Balanço Energético Nacional (BEN), levantamento produzido anualmente pelo Ministério de Minas e Energia, o Brasil desfruta, graças às suas riquezas naturais, de uma matriz energética muito mais “limpa” que a da maioria dos países do mundo. O BEN de 2006, o último levantamento disponível, relativo ao ano de 2005, mostra que, no Brasil, as fontes renováveis de energia tiveram 45% de participação na matriz energética brasileira – sendo o restante fontes não renováveis. No mundo todo, a média da participação das fontes renováveis foi de 13,1%, enquanto que nos países da OCDE, foi de apenas 6,1%.

Com a autoridade de quem dedicou boa parte da vida acadêmica à pesquisa na área de energia e já esteve à frente da Secretaria de Meio Ambiente paulista, Goldemberg acredita que, futuramente, “o bagaço da cana-de-açúcar deverá proporcionar uma capacidade de produção de energia elétrica semelhante à da usina de Itaipu”. O bagaço de cana, que antigamente era considerado um resíduo, hoje é visto como uma matéria-prima de alto poder calorífico, além de ser renovável, uma vez que a cana volta a crescer após o corte, e de não emitir poluentes na atmosfera.

Na safra 2006/07, ainda em curso, foram moídas 400 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, com uma capacidade de cogeração de energia instalada nas usinas sucroalcooleiras do Brasil de cerca de 3 mil MW, segundo ele. “Desse total, 2.400 MW são consumidos pelas próprias usinas, sobrando 600 MW para a comercialização”, diz.

Com a expansão esperada para a atividade sucroalcooleira, na esteira principalmente do sucesso do etanol, a expectativa é de que o esmagamento da cana deverá atingir a marca de 600 milhões de toneladas até 2020. “Isso deve resultar em uma capacidade de produção de energia de cerca de 12 mil MW, quase a potência instalada de Itaipu”, disse ele.

Ao mesmo tempo, a cana deverá continuar a oferecer o etanol, uma alternativa à gasolina limpa e renovável. “O álcool produzido a partir da cana-de-açúcar, que atualmente substitui a gasolina em 40% na frota automotiva brasileira, deverá continuar a ampliar a sua presença com o sucesso que vem sendo verificado na comercialização de automóveis flex-fuel”, diz Goldemberg.

Além do potencial proporcionado pela cana-de-açúcar, o Brasil deverá continuar a desfrutar da imensa riqueza energética ainda não explorada nos rios brasileiros, de acordo com Goldemberg. “A energia hidrelétrica continuará a ser a grande fonte de energia no futuro”, diz Goldemberg, a despeito do esgotamento dos potenciais hidráulicos mais próximos dos grandes centros de consumo e dos entraves à viabilização desses empreendimentos.

A geração hidrelétrica, de acordo com o BEN, respondeu em 2005 por 74,6% da produção de eletricidade, que foi de 402,9 terawatts-hora (TWh). Se considerar a geração das pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) – usinas hidrelétricas com até 30 megawatts (MW) de capacidade -, essa participação cresce em 1,7 pontos percentuais.

Goldemberg lembra que os novos aproveitamentos hidrelétricos de maior porte estão na área de influência da Amazônia Legal, o que tende a provocar a reação contrária de ambientalistas e a tornar mais complexos os projetos de licenciamento ambiental. Outro problema será o encarecimento da energia a ser produzida por esses projetos, diante da necessidade de construção de linhas de transmissão de grande extensão.

Goldemberg cita o caso das duas usinas do Rio Madeira e da hidrelétrica de Belo Monte, cujos projetos vêm recebendo contestação. Ele acredita que os problemas em relação ao aspecto ambiental desses projetos deverão ser resolvidos e as usinas, construídas. Para Goldemberg, o processo de licenciamento ambiental demanda paciência, uma vez que a própria legislação ambiental é complexa, e que o empreendedor esteja disposto a pagar mais para incorporar medidas de compensação aos projetos.

Entre as chamadas fontes alternativas, Goldemberg considera que há potencial para o crescimento no Brasil, que já possui um programa específico, o Proinfa, para incentivar alternativas de geração elétrica – pequenas centrais hidrelétricas, energia eólica e biomassa (bagaço de cana, principalmente). A tendência, lembra Goldemberg, é o custo dessas alternativas se baratearem com o passar do tempo, reduzindo o custo de geração de energia, o que amplia a sua competitividade.

“A energia eólica, por exemplo, ainda não é competititva no Brasil, mas já é na Alemanha”, diz ele. “O álcool também não era competitivo em relação à gasolina no início do Proálcool”, acrescenta. Por isso, Goldemberg acredita que é necessário o subsídio para essas fontes alternativas, o que inclui também o biodiesel.

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