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Fabricantes de máquinas são retrato da crise

O desempenho do setor de bens de capital, formado por fabricantes de máquinas e equipamentos, é o retrato mais fiel da retração dos investimentos da indústria brasileira. Depois de 22 trimestres de altas consecutivas, o setor amargou uma queda de 20,8% no primeiro trimestre, sem perspectivas de melhora substancial. A carteira de pedidos, ainda com projetos antigos, está minguando cada vez mais, com nível baixíssimo de encomendas.

O clima de baixo-astral esteve presente numa das maiores feiras do setor de máquinas e ferramentas ocorrida em São Paulo, na semana passada. Nos corredores do evento, o que mais chamava a atenção, além das moderníssimas máquinas, era o grande número de estudantes diante da presença reduzida de compradores. Por isso, qualquer venda, por menor que fosse, era amplamente festejada e divulgada.

E mbora contasse com 1.300 expositores, a feira não conseguiu atrair nenhum banco privado, ao contrário do que ocorreu em outras edições. “Acho que seria meio constrangedor para as instituições financeiras participarem da feira e negarem todos os pedidos de crédito”, brincou um dos expositores. Apenas o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) esteve no evento.

A Indústrias Romi, uma das líderes do setor de máquinas, também participou da feira com 17 equipamentos em seu estande. Para afastar o pessimismo do mercado, a empresa não abriu mão de lançar uma nova geração de produtos, com tecnologia mais moderna. A esperança é diminuir um pouco os prejuízos do primeiro trimestre. Além da receita líquida cair 50%, o número de novas encomendas está 60% menor que em igual período do ano passado, afirma o diretor de comercialização da empresa, Hermes Alberto Lago Filho.

Segundo ele, os segmentos de produção intensiva ligados aos setores automotivo e agrícola a inda estão bastante indefinidos, sem programação de médio e longo prazos. A única área que tem salvado o nível de atividade é a de energia, excluindo o setor sucroalcooleiro. No caso de petróleo, gás e energia elétrica, ainda existe alguma demanda, diz Lago Filho. Ele comenta que, embora a produção tenha caído de forma expressiva, a empresa vem tentando manter sua estrutura.

Para manter a mão de obra especializada, resultado de muito investimento em qualificação nos últimos anos, a Romi decidiu reduzir a jornada de trabalho. Em vez de três turnos, como antes da crise, os funcionários agora trabalham apenas quatro dias por semana. “Não podemos abrir mão desses trabalhadores, nos quais investimos tanto nos últimos anos.”

Na Ergomat, a situação não é diferente. Apesar de reduzir o quadro de funcionários nos últimos meses, a empresa tem procurado manter o pessoal com maior nível tecnológico. No último trimestre, os neg ócios da companhia encolheram 30%. “Nossa expectativa é que o segundo semestre seja um pouco melhor. Pelo menos, temos recebido algumas consultas nas últimas semanas”, afirmou o diretor de vendas da empresa, Alfredo Ferrari.

O movimento também foi percebido pela Dedini, líder mundial na fabricação de equipamentos para o setor sucroalcooleiro. Mas o vice-presidente executivo da empresa, Sérgio Leme, não tem esperança que a indústria de máquinas e equipamentos retome os níveis pré-crise rapidamente. Para ele, isso só deve ocorrer por volta de 2012. “A retomada será mais cadenciada, mais equilibrada.” Para este ano, o executivo prevê que os negócios tenham redução entre 20% e 25%.

Nos últimos anos, a empresa decidiu diversificar sua atuação para além do setor sucroalcooleiro. Até 2004, os projetos de açúcar e álcool respondiam por 80% dos pedidos da companhia. Hoje e ssa participação está em 45%. O restante refere-se aos setores de mineração, siderurgia, energia elétrica, petróleo e gás. A estratégia salvou a empresa de prejuízos ainda maiores, já que o setor sucroalcooleiro vive um momento de graves problemas financeiros, com suspensão de projetos.

Na avaliação do vice-presidente da Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Adilson Primo, presidente da Siemens Brasil, a queda no volume de investimentos no País ocorreu tão velozmente e de uma forma tão intensa que assustou. “Vínhamos crescendo a uma taxa de 20% ao ano e, de repente, essa taxa despencou. Não podemos perder a competência acumulada em 10, 15 anos.”

Segundo dados da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), algumas áreas tiveram o faturamento reduzido em cerca de 60% no primeiro trimestre do ano. O único segmento que se manteve em terreno positivo, com alta de 11%, foi o chamado de bens sob encomenda, cujos pedidos foram feitos antes da crise.

“As empresas precisam olhar para o futuro e levar em consideração que os indicadores internos têm apresentado ligeira melhora nos dois últimos meses”, afirma o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP. Apesar dos sinais de recuperação, no entanto, poucos se arriscam a dizer quando os investimentos serão retomados.

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