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Etanol, preço real. Gasolina, preço político

Muitos que criticam o elevado preço do etanol em plena safra se esquecem ou não querem (por interesses que desconhecemos) tocar em dois pontos importantes para resolver a disparidade do preço na bomba do etanol e da gasolina — assuntos esses que já tratei várias vezes neste Jornal do Brasil.

O primeiro ponto são três perguntas: 1ª) Por que a indústria automobilística não melhora a eficiência do consumo dos veículos que utilizam etanol?; 2ª) Por que depois de 40 anos de implantado o etanol como combustível ainda temos que conviver com veículos que consomem 30% mais do que a gasolina?; e 3ª) Por que o governo federal, em troca da absurda reserva de mercado para as montadoras instaladas no Brasil (aumento do IPI para os importados), não exigiu dos fabricantes locais uma data limite para que os veículos que utilizam etanol melhorem a sua eficiência de consumo?

Curioso em todo esse imbróglio é que até o presente momento não vi nenhuma autoridade tocar nesse assunto da eficiência de consumo do etanol. Por que os governantes que dizem tanto defender os interesses dos consumidores se calam diante desse fato?

O segundo ponto é a explicação para o título desse texto. O jornal O Estado de S. Paulo, de 09/09/11, diz, em EUA têm exportação recorde de etanol, que “O Brasil deixou de ser o país com menor custo de produção de cana-de-açúcar do mundo. Austrália, África do Sul e Tailândia já conseguem produzir açúcar a um custo menor. Segundo dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), de 2005 para cá, os custos de produção cresceram cerca de 40% – de R$ 42 por tonelada de cana para R$ 60”.

Segundo a matéria citada, alguns fatores para esse aumento nos custos da cana-de-açúcar (já conhecidos de longa data) “foram provocados pelo chamado custo Brasil, como a forte valorização do real e a carga tributária elevada, que reduz a competitividade das empresas nacionais”.

Alguém pode perguntar: e a gasolina não teve aumento de custo neste mesmo período pelos mesmos motivos do etanol? A resposta correta é: sim, e muito mais!

Vejamos os números oficiais da Petrobras (petrobras.com.br). De acordo com os números da estatal, no primeiro trimestre de 2005 (1T05), o custo de extração do barril de petróleo (com participação governamental) foi de US$ 13,65. No primeiro trimestre de 2011 (1T11) esse custo foi de US$ 30,48, ou seja, no mesmo período em que a produção da cana-de-açúcar teve um aumento de custo da ordem de 43%, o custo para extrair o barril de petróleo teve um acréscimo de 123,32%!

No que se refere ao refino, no mesmo período analisado para a extração, o mesmo saiu de US$ 1,74/barril para US$ 4,53, ou seja, teve um aumento de 160,34% (quase que triplicou). Ou seja, os custos tanto de extração como de refino subiram três e quatro vezes mais, respectivamente, do que os do etanol.

E mesmo diante dessas evidências, a Petrobras – pressionada pelo seu acionista maior, o governo federal – é obrigada a manter o preço da gasolina artificialmente congelado. Comparando o preço da gasolina praticado pela Petrobras (abaixo do custo) com o preço atualizado do etanol e o aumento da frota dos veículos flex (que consomem 30% mais), o resultado não poderia ser outro: o consumidor está optando pelo derivado fóssil, o que provocou a desaceleração dos investimentos no setor sucroalcooleiro.

Que ironia! Há pouco tempo, lutávamos “com unhas e dentes” para derrubar os subsídios ao etanol de milho e as barreiras alfandegárias dos Estados Unidos para que pudéssemos exportar o nosso eficiente e avançado etanol de cana-de-açúcar. O negócio era produzir para abastecer o mercado interno e exportar, cada vez mais, principalmente para os Estados Unidos. Importar etanol de milho dos Estados Unidos? Impossível!

Infelizmente, em função da falta de bons gestores nos primeiros escalões do setor energético federal (na maioria ocupados por políticos e seus neófitos apadrinhados), o atual cenário do setor de combustíveis era algo inimaginável algum tempo atrás: a) redução na mistura de etanol na gasolina (a partir do próximo dia 1º passa de 25% para 20%); b) maior consumo e importação de gasolina (com aumento da poluição); e c) importação de mais de 1 bilhão de litros de etanol dos Estados Unidos!

Tudo isso, com gastos bilionários sob o olhar complacente dos nossos governantes.

Humberto Viana Guimarães é engenheiro civil e consultor, formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento

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