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Em plena seca, canaviais têm ‘hidrelétrica’ sem produzir

Enquanto a estiagem deste Verão ameaça o abastecimento de energia elétrica por conta da seca nos reservatórios das hidrelétricas, os canaviais da região de Ribeirão Preto (SP) guardam capacidade para fornecer energia por um ano inteiro para uma população de 5 milhões de habitantes.

Porém, a produção efetiva de energia nas usinas da região foi sete vezes menor em 2012. De acordo com a estimativa da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), foram 2 milhões de megawatts hora (MWh) gerados e exportados para a rede pela região.

De acordo com Zilmar José de Souza, gerente de Bioeletricidade da Unica e professor da Faculdade Getúlio Vargas (FGV/SP), a falta de uma política setorial de longo prazo para a eletricidade feita da biomassa da cana (bioeletricidade) é um dos principais obstáculos para que a produção deslanche. “Os leilões de energia promovidos pelo Governo Federal, que são a principal entrada no setor elétrico brasileiro, precisam ser aprimorados”, diz Souza.

Ele explica que a energia excedente produzida pelas usinas compete nos leilões com outros tipos, que têm menor custo de produção, como a eólica. Isso torna a bioeletricidade da cana menos competitiva.

“Para voltarmos aos leilões de forma mais regular, o atual preço não tem sido o ideal. No último leilão de 2013, o preço médio foi de R$ 138/MWh e vendemos apenas quatro projetos de bioeletricidade da cana”, diz.

Hoje, as usinas usam o bagaço da cana para a produção de energia, que serve para abastecer a unidade. O que sobra, ou energia excedente, é exportada para a rede para ser vendida por meio dos leilões às distribuidoras.

Toda a estrutura requer um investimento de aproximadamente R$ 150 milhões. Diante os atuais preços oferecidos, é possível que a capacidade siga adormecida nos canaviais.

Região é capaz de gerar 36% da produção de Belo Monte

O volume de energia gerado pela região atualmente já é significativo -daria para abastecer Ribeirão e Jaboticabal por um ano- pois a maioria das 180 usinas com capacidade para produzir e exportar energia para a rede estão instaladas aqui.

Mas, se a capacidade teórica de produção de energia -de 14,5 milhões de MWh- fosse colocada em prática, a região produziria cerca de 36% do que a hidrelétrica de Belo Monte será capaz de fornecer em 2019.

“Em um momento como este, de falta de chuvas e baixas nos reservatórios das hidrelétricas do país, a geração de energia a partir de biomassa seria uma alternativa importante”, diz Zilmar José de Souza, gerente de Bioeletricidade da Unica. Além de aumentar a produção nas usinas que já exportam o excedente para a rede, uma política setorial específica para a bioeletricidade poderia ainda incluir mais 200 usinas do País nesse mercado. Para Zilmar, o ponto chave é definir um preço adequado para cada fonte e promover leilões específicos de bioeletricidade.

“Tenho certeza que, se conseguirmos incorporar os benefícios de cada fonte ao sistema, a bioeletricidade será mais valorizada, pois se trata de uma energia renovável, que evita emissões de CO2, altamente complementar à fonte hídrica, produzida ao lado dos grandes consumidores, mitigando perdas e custos em transmissão”, diz.

Em 2012, as usinas do Centro Sul do País produziram 11,1 milhões de MWh, o equivalente para poupar 5% da água nos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste. Em todo o Brasil, a estimativa é que o setor sucroalcooleiro tenha exportado para a rede 15 milhões de MWh, o equivalente a 15% do que a Usina de Itaipu gerou em 2013.

Até 2035, segundo a Secretaria de Energia do Estado de São Paulo, o potencial da biomassa da cana seria de 51 milhões de MWh, quase quatro vezes o que a Usina Belo Monte produzirá a partir de 2019, quando deve entrar em operação.

Esforço também deve focar a produção de etanol

Os esforços para alavancar a produção de energia a partir da biomassa nas usinas precisam ser feitos em harmonia com toda a cadeia produtiva.

“A política setorial para a bioeletricidade precisa ser acompanhada de uma política para o etanol, as produções tem de estar ligadas”, diz Zilmar José de Souza, gerente de Bioeletricidade da Única.

Segundo o especialista, as vendas de energia podem contribuir para toda a cadeia produtiva, mas os esforços não podem ser voltados somente para um produto.

“É preciso incentivar a produção e fazer com que o etanol seja competitivo no mercado para a produção como um todo crescer.”

No ano passado, nos dois leilões promovidos pelo governo, foram 11 projetos de venda de energia da cana, com fornecimento a partir de 2018.

Ao todo, nesses projetos, as unidades receberão investimentos de R$ 1,4 bilhão.

“Isso chega para toda a cadeia produtiva, que precisa de uma política de longo prazo.”

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