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Cenário agrícola já sinaliza discreta melhora em 2009

Todos os sinais indicam que o agronegócio brasileiro não conseguirá repetir, em 2009, o desempenho observado no ano passado. Mesmo com o aprofundamento da crise financeira global em setembro e a guinada dos mercados globais a partir de então, o setor comemorou, em 2008, recordes na colheita de grãos, na receita agrícola (“da porteira para dentro”) das principais lavouras e nas exportações.

Ainda que os custos tenham subido, as margens foram em geral positivas e as vendas de insumos como fertilizantes, defensivos e máquinas foram bem até o terceiro trimestre, garantindo polpudos resultados para as empresas desses segmentos. Com todos esses avanços, o PIB do campo voltou a aumentar, reforçando ainda mais o papel de liderança mundial do país em frentes como soja e carnes, açúcar e etanol, café e suco de laranja.

Mas aquele era um tempo de crédito farto, demanda turbinada por países emergentes e máximas históricas dos preços internacionais das commodities, também garantidas por boa dose de especulação. Esse tempo passou. O crédito secou, a safra que está sendo colhida foi financiada a fórceps, as compras de insumos sofreram desaceleração, houve um refluxo na onda mundial dos biocombustíveis e diversas cooperativas, empresas de grãos, usinas sucroalcooleiras e frigoríficos entraram em parafuso. A inadimplência subiu e as demissões multiplicaram-se.

Apesar da euforia anterior a setembro – e da performance geral até então, com algumas exceções -, foi o pessimismo que se seguiu ao debacle financeiro e à desaceleração econômica global que marcou as primeiras projeções para o agronegócio brasileiro em 2009. Daquele ponto de vista, exacerbado em dezembro, era melhor pular logo para 2010. Mas, passado o primeiro trimestre, o setor recuperou a cor – ainda que a crise suína recentemente irradiada a partir do México tenha alimentado novas incertezas.

De qualquer forma, as últimas estimativas oficiais mostram que o clima deixou de atrapalhar e a colheita da safra de grãos 2008/09 deverá somar 137,6 milhões de toneladas, ante as 134,7 milhões previstas no início do ano, enquanto a receita agrícola das 20 principais lavouras do país (incluindo cana e laranja) chegará a R$ 153,8 bilhões, acima dos R$ 150 bilhões previstos em fevereiro.

É verdade que em 2008 a colheita rendeu 144,1 milhões de toneladas e a receita foi de R$ 161 bilhões, mas a relativa melhora no cenário agrícola, ainda que discreta e sujeita a intempéries, já abre novas perspectivas para o plantio da safra próxima safra de grãos (2009/10), que começa a ser plantada no fim do terceiro trimestre.

Para a próxima temporada, os produtores rurais também deverão contar com um Plano de Safra do governo de cerca de R$ 100 bilhões em crédito rural, ante os R$ 78 bilhões de 2008/09. Para Brasília, é mais uma medida de auxílio aos agricultores diante da secura de financiamentos concedidos por bancos e tradings.

Desde a crise, o governo prorrogou prazos para pagamento de dívidas e injetou mais de R$ 17 bilhões em medidas de apoio ao setor, além de linhas de crédito de R$ 10 bilhões para agroindústrias e R$ 2,3 bilhões par a estocagem de etanol, em uma tentativa de socorrer as usinas.

A partir das ferramentas de apoio e dos preços ainda atraentes de commodities como soja e milho nos mercados internacional e doméstico, que elevaram as margens dos produtores em um quadro de insumos até 50% mais baratos que na safra passada, mesmo as vendas de fertilizantes voltados ao plantio do ciclo 2009/10 deram sinais de reação, ainda que a demanda permaneça cerca de 20% menor que a observada nesta época de 2008.

“O ano de 2009 deve ser melhor para as misturadoras de fertilizantes”, diz Carlos Dalton Heringer, presidente da Heringer, segunda maior empresa do país no ranking de vendas de adubos ao consumidor final. Mesmo assim, ressalva, o segmento ainda busca regular os estoques que engordaram desde outubro e deverá investir menos.

Que será um 2009 melhor do que se esperava em dezembro de 2008, concordam especialistas como Alexandre Mendonça de Barros, do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do braço agrícola da MB Associados, e Fabio Silveira, da RC Consultores.

Mesmo a Confederação da Pecuária e Agricultura do Brasil (CNA), particularmente preocupada com o acesso dos produtores rurais ao crédito – 42% deles “muito endividados”, segundo pesquisa da entidade – e que acredita que o plantio ficará “engessado” em 2009/10, não vê queda da produção no horizonte.

Conforme Rosemeire Cristina dos Santos, assessora técnica da CNA, os produtores precisarão de R$ 78,8 bilhões apenas para custear as safras de algodão, arroz, feijão, milho, soja e trigo, entre outros grãos, em 2009/10, além de R$ 27,7 bilhões para a cana e R$ 14,2 bilhões para o café. Na bovinocultura de corte, o valor necessário chega a R$ 34,4 bilhões; na de leite, a R$ 12,6 bilhões.

Os valores referem-se apenas ao custeio – o Plano de Safra oficial inclui recursos para comercialização e investimentos -, o que sugere que os produtores ainda terão que tirar uma boa parcela de recursos do próprio bolso, como já aconteceu em 2008/09. Segundo a Agroconsult, os sojicultores de Mato Grosso, por exemplo, arcaram com 40% do custeio da produção do ciclo que termina, ante 10% em anos anteriores.

Os valores calculados por Rosemeire podem mudar de acordo com o comportamento dos preços, mas esses, até agora firmes, ainda terão de testar sua força nos próximos meses de plantio no Hemisfério Norte (que concentra mais de 90% da produção global de cereais) e de incertezas em relação à demanda mundial, revista diversas vezes para baixo desde 2008.

Daí porque mesmo quem está seguro de que vai crescer no Brasil em 2009, como a multinacional francesa Louis Dreyfus Commodities, mantém a cautela. Como realça Kenneth C. Geld, presidente da subsidiária brasileira do grupo, toda e qualquer projeção depende da evolução da atual conjuntura.

Por mais que commodities ligadas à alimentação humana normalmente sejam as últimas a sofrer com crises econômicas, mudanças de dietas, com a migração para produtos mais baratos, são normais. Assim, é preciso esperar para acompanhar o consumo nos EUA enquanto a massa salarial não para de cair e também a demanda chinesa, que agora vive o retorno de milhões de pessoas para zonas rurais.

A China, motor do crescimento da economia global nos últimos anos, é a principal importadora de soja do mundo. E para a soja, carro-chefe do agronegócio brasileiro, Silveira, da RC, prevê receita externa de US$ 14,5 bilhões em 2009, ante US$ 18,2 bilhões no ano passado. O céu, portanto, não é estrelado.

No primeiro trimestre, em grande parte graças a uma demanda chinesa surpreendentemente aquecida, as exportações brasileiras do chamado complexo soja (grão, farelo e óleo) renderam US$ 1,4 bilhão, quase 41% mais que no mesmo mês de 2008, e lideraram a pauta do setor, deixando as carnes para trás – embarques de US$ 914 milhões, queda de 15,3% na mesma comparação.

Segundo o Ministério da Agricultura, no total, as exportações do agronegócio somaram US$ 4,8 bilhões no mês, 0,3% acima de março de 2008, mas o resultado foi garantido pelo aumento dos volumes vendidos ao exterior, já que os preços médios das exportações recuaram, como era de se esperar.

Em volume, cresceram em março os embarques de produtos como soja em grão (82,2%), açúcar bruto (49,6%), suco de laranja (29,3%) e carne suína in natura (17,9%). Ainda assim, e graças a volumes menos vistosos no primeiro bimestre e aos preços médios menores, o primeiro trimestre fechou com exportações de US$ 12,6 bilhões, queda de 9,4% sobre igual intervalo de 2008.

O resultado reforça a expectativa de queda das exportações do agronegócio em 2009 pela primeira vez em uma década. O horizonte é pior para as carnes, mais caras e vulneráveis a apertos de cintos, e o quadro pode se tornar mais sombrio dependendo da evolução da paranoia com a gripe suína.

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