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Brasil se prepara para adoção do etanol como um novo combustível mundial

Grandes navios cargueiros sendo carregados com açúcar são uma imagem

familiar nas docas de Santos, no sudeste do Brasil. Lá, esta cena há muito tempo é um símbolo do poder imenso dos produtores de cana-de-açúcar do país.

Recentemente apareceu neste cenário um novo símbolo do poder dessa

indústria: os terminais de etanol – um derivado da cana-de-açúcar -, cujo

surgimento indica uma mudança que terá implicações para o futuro dos

combustíveis mundiais. O mercado mundial de etanol aumentou de 28 milhões de litros em 2000 para 49 milhões de litros no ano passado.

“Dentro de 15 anos, o mundo terá um eixo orientador diferente no setor de combustíveis”, garante Jean-Paul Prates, um analista da indústria do petróleo que trabalha no Rio de Janeiro. “Se a produção de etanol continuar a crescer, a geopolítica dos combustíveis mudará completamente”.

Prates pode estar exagerando um pouco, mas o açúcar, o etanol e o petróleo já estão se misturando nos mercados globais. “A correlação entre os três produtos se constitui em um fato de peso”, afirma um importador londrino. “Há fundos hedge (fundo que investe no comércio a prazo de mercadorias para reduzir os riscos e a possibilidade de prejuízos) voltados para o setor de energia que vêem o etanol como a próxima grande tendência. Mas eles não são capazes de comprar títulos futuros do etanol, já que não há mercado para isso. Portanto, há uma nova e grande onda de investimentos no horizonte,rumando para o setor açucareiro”.

E o Brasil está mais bem posicionado do que qualquer outro país produtor

para aproveitar essa onda. Das 145 milhões de toneladas de açúcar produzidos anualmente no mundo, o Brasil é responsável por 28 milhões de toneladas, deixando bem para trás o concorrente mais próximo. Isso corresponde a cerca de 40% do açúcar negociado nos mercados mundiais, e esta produção está aumentando em quase 20% ao ano.

“O Brasil é o maior produtor de açúcar do mundo, e também o país que produz com os menores custos, e isto faz de nós a nação que determina os preços globais”, afirma Paulo Diniz, diretor-financeiro do grupo Cosan, o maior produtor de açúcar e de álcool do Brasil.

O crescimento rápido desta indústria no Brasil é um resultado da desregulamentação implementada na década passada. Antigamente, o governo

controlava não só os preços, mas também quem produzia que quantidade de açúcar ou de álcool anualmente, e a quem esses produtos poderiam ser vendidos. A desregulamentação coincidiu com uma grande desvalorização do real, um fator que se somou às enormes vantagens naturais do Brasil, em termos de clima e solo, para o cultivo da cana-de-açúcar.

Embora desde então o real tenha passado por grande valorização, os

produtores brasileiros mantiveram uma vantagem competitiva.

De fato, Diniz, da Cosan, afirma que a vantagem brasileira no que se refere a tamanho e custos de produção permitiu que o Brasil superasse o efeito negativo representado por um real mais forte sobre os mercados de

exportação, algo que contribuiu para o aumento recente do preço. O açúcar

não refinado está sendo vendido a cerca de 17,5 centavos de dólar a libra, contra o valor de dois anos atrás, de apenas cinco centavos a libra (mas um preço inferior a um patamar recente de cerca de 20 centavos).

A expansão do Brasil no setor no decorrer dos últimos dez anos obrigou outros produtores de baixo custo, como Austrália e Tailândia, a reduzirem a produção. Com a recuperação dos preços, esses países emergiram do processo de reestruturação, e estão novamente faturando alto, embora os produtores continuem relutando em investir na expansão. Um outro fator que está por trás dos altos preços é a remoção gradual de distorções nos mercados globais, especialmente a recente determinação da

Organização Mundial do Comércio (OMC), no sentido de que a União Européia (UE) acabe com os subsídios à exportação do açúcar a partir do próximo ano.

Toby Cohen, da Cizarnikow, uma empresa londrina de corretagem e consultoria, afirma que as exportações da UE diminuirão de quase 8 milhões de toneladas neste ano para cerca de 1,5 milhão de toneladas no ano que vem. “Grande parte da demanda global é preenchida pelas exportações da UE, e os produtores brasileiros serão capazes de ocupar este espaço”.

Diniz afirma que o terceiro grande fator de estímulo à alta dos preços é a nova relação entre açúcar, etanol e petróleo.

Sempre houve uma forte correlação entre os preços do etanol e do açúcar: cerca de dois terços das usinas açucareiras brasileiras são capazes de modificar a sua produção de açúcar para álcool, ou vice-versa, em uma questão de horas. A correlação entre o petróleo e o etanol nunca foi tão forte, mas isto está mudando. “Hoje o mundo está descobrindo o etanol”, afirma Diniz. “A demanda chegou a níveis nunca antes vistos. O preço da gasolina comandará o preço do etanol e, portanto, o do açúcar – de forma que o preço do açúcar aumentará, saindo do controle brasileiro”.

O mercado doméstico brasileiro demonstra o quanto pode aumentar a demanda por etanol. A gasolina vendida nos postos brasileiros contém 25% de etanol, a maior porcentagem de álcool na gasolina do mundo. Mas os consumidores podem também comprar o etanol puro, e o desenvolvimento no Brasil da tecnologia “flex fuel” permite que eles decidam que combustível comprar. Os carros flex fuel, que são movidos a gasolina, a álcool, ou a uma mistura em qualquer concentração dos dois combustíveis, respondem por 70% de todos os carros novos vendidos no Brasil.

Ainda não se sabe se esta é uma tendência que tomará conta do mundo.

Preocupações de ordem ambiental fizeram com que aumentasse o interesse pela idéia, mas para que seja dado um salto rumo à adoção generalizada do álcool, seria necessária a existência de reservas bem mais abundantes.

Mas existem iniciativas na UE no sentido de aumentar a proporção de etanol na gasolina de 5% para 10%. Isso geraria um grande aumento da demanda, e o Brasil seria o melhor candidato para atender a este aumento.

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