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Biodiesel permitirá corte em importação de óleo

Com a tecnologia do biodiesel etílico já dominada e sua aplicação aprovada pelos testes de campo, falta pouco para que caminhões, ônibus, locomotivas e tratores brasileiros movidos a óleo diesel passem a rodar com um percentual desse combustível limpo e 100% renovável no tanque. “Isso deve acontecer em dois anos e meio, no máximo”, avalia Miguel Dabdoub, coordenador do Projeto Biodiesel Brasil, que desenvolve os ensaios no Laboratório de Desenvolvimento de Tecnologias Limpas (Ladetel) da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto. O produto também foi testado com sucesso em carros, motores e geradores elétricos.

O biodiesel da USP pode ser obtido por meio da reação química de óleos vegetais – soja, amendoim, girassol, babaçu, macaúba, caroço de algodão, milho, mamona, pequi ou dendê — com o álcool extraído da cana.

Por convenção internacional, a produção de qualquer biodiesel deve partir de um óleo vegetal e um álcool (que pode ser metanol de petróleo e gás natural ou etanol de cana). Além da equipe de Dabdoub, dezenas de pesquisadores espalhados pelo Brasil trabalham em outros cinco projetos que buscam alternativas para o diesel de petróleo.

O grande desafio na USP foi justamente usar o etanol (abundante no país, maior produtor do mundo), porque os processos à base de metanol e óleo de colza (canola) utilizados na Europa não são facilmente aplicados para o álcool de cana.

O biodiesel etílico tem a vantagem também de poder ser produzido a partir de oleaginosas com diferentes índices de produtividade e adaptação às características regionais brasileiras. A soja, por exemplo, produz apenas 400 litros de óleo por hectare. Outras produzem mais óleo, mas são menos cultivadas. Exemplos: girassol, 800 litros/ha; mamona, 1.200 litros/ha; babaçu, 1.600 litros/ha; pequi, 3.100 litros/ha; macaúba, 4.000 litros/ha; e dendê, 5.950 litros/ha.

Segundo Dabdoub, o novo combustível não exige modificações no motor. Para demonstrar a eficiência da nova tecnologia, ele fechou parcerias com grandes empresas e usinas de álcool da região de Ribeirão Preto, fontes, também, em boa parte, dos recursos financeiros que o laboratório utilizou nas pesquisas.

Participam, entre outras, a International Engines South America (motores para caminhões), a PSA Peugeot-Citröen, a Valtra (antiga Valmet, fabricante de tratores), a America Latina Logistica a Branco (empresa paranaense fabricante de equipamentos para usinas elétricas), e a Carol (cooperativa de agricultores da região de Orlândia).

Segundo Dabdoub, é fundamental um incentivo à expansão da fronteira agrícola, sem a qual não se alcançará a produtividade necessária para uma boa capacidade de produção de biodiesel. “É preciso haver plantio extensivo de várias oleaginosas nas diversas faixas regionais.”

A idéia é que o biodiesel complemente inicialmente o óleo diesel comum na proporção de 5%, fórmula conhecida como B5, de forma similar ao que ocorre com a gasolina, que recebe cerca de 25% de etanol. Com isso já seria possível reduzir em 33% – de um total de 6 bilhões de litros – as importações brasileiras de óleo diesel.

Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), a frota nacional consome hoje cerca de 37 bilhões de litros de diesel por ano. A projeção da agência é que esse volume suba para 40 bilhões de litros em 2005. “Se houver oferta suficiente, o biodiesel nacional poderá ser usado no futuro de forma integral”, avalia Dabdoub.

Além de totalmente renovável, o biodiesel produz menos poluentes que o diesel de petróleo. “Nosso combustível poderá até ser exportado no futuro, pois é 100% verde”, diz o coordenador do Projeto Biodiesel.

Na visão dos empreendedores, o maior obstáculo pela frente é de ordem normativa e de viabilidade microeconômica. Segundo Juan Diego Ferrés, diretor da Granol, que fabrica óleo vegetal em Osvaldo Cruz (SP), é inegável que os efeitos macroeconômicos são potencialmente positivos. “Mas como investidor de US$ 20 milhões numa grande unidade de produção de biodiesel, estou ansioso pela definição de um marco regulatório que determine uma mistura de 5%.”

Atualmente, dois projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional propõem a adição obrigatória de 5% de biodiesel no óleo diesel. Ferrés, que é também presidente da comissão de biodiesel da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), avalia que a soja é hoje a única oleaginosa com escala suficiente para permitir a adição imediata de 5% .

A Granol está investindo US$ 20 milhões em nova fábrica em São Simão (GO). O financiamento é de bancos privados europeus ligados a empresas da Comunidade Econômica Européia (CEE).

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