Artigo

Norte e Nordeste miram moagem de 58 milhões de toneladas na safra 2025/26 

"A previsão de 58 milhões de toneladas de cana, se confirmada, é fruto de muito trabalho, tecnologia e, claro, da esperança que nunca nos falta", escreve Renato Cunha

Norte e Nordeste miram moagem de 58 milhões de toneladas na safra 2025/26 

Artigo exclusivo publicado na edição 358 da revista do JornalCana

A cada nova safra, o setor sucroenergético do Nordeste brasileiro é desafiado a se reinventar diante de um cenário de incertezas climáticas, oscilações de mercado e necessidade crescente de inovação. 

Não é novidade para quem vive do campo que o clima é, ano após ano, o maior fator de incerteza para a produção de cana-de-açúcar. A safra 2024/25 nos mostrou isso com clareza: tivemos uma distribuição irregular de chuvas, com déficit acentuado no segundo semestre de 2024, compensado por precipitações acima da média no verão de 2025, e novo déficit a partir de março. O resultado foi um ciclo de altos e baixos, exigindo resiliência e capacidade de adaptação dos produtores. 

Mesmo assim, é possível repetir o volume de moagem da safra anterior, alcançando a marca de 58 milhões de toneladas de cana nas regiões Norte e Nordeste. Esse número é fruto de muito trabalho, tecnologia e, claro, da esperança que nunca nos falta. 

Flexibilidade para maximizar resultados 

Para enfrentar a imprevisibilidade do clima e aumentar a produtividade, o setor tem investido fortemente em tecnologia. A irrigação localizada por gotejamento, por exemplo, já é realidade em diversas áreas, permitindo melhor aproveitamento da água e maior resiliência dos canaviais. Novas variedades de cana, desenvolvidas por programas de melhoramento genético, têm se mostrado mais produtivas e resistentes, enquanto os bioinsumos e práticas de manejo sustentável ganham espaço, reduzindo custos e impactos ambientais. 

As entidades que represento atuam em parceria com universidades e centros de pesquisa, promovendo capacitação e disseminação de conhecimento. O objetivo é claro: garantir que o produtor nordestino tenha acesso às melhores ferramentas para elevar a qualidade da matéria-prima e a eficiência industrial. 

Mix de Produção e Mercados

Outro ponto relevante para o sucesso da safra é a definição do mix de produção entre açúcar e etanol. A dinâmica dos mercados interno e externo exige flexibilidade e capacidade de resposta rápida. Para 2025/26, projetamos um equilíbrio próximo entre os dois produtos, com ligeira vantagem para o açúcar (51,5% da cana destinada ao açúcar e 48,5% ao etanol). 

O Nordeste mantém seu papel de destaque como exportador de açúcar — cerca de 62% da nossa produção segue para o mercado internacional, principalmente pelos portos de Maceió, Recife e Suape. No etanol, o crescimento do hidratado é notável, reflexo da demanda crescente por combustíveis renováveis, enquanto o anidro enfrenta desafios ligados à instabilidade das políticas de precificação dos combustíveis. 

Desafios e Oportunidades

Crédito: gargalo que ameaça o avanço 

Não podemos ignorar um dos maiores entraves ao desenvolvimento do setor: o acesso ao crédito. As recentes medidas econômicas de perfil contracionista tornaram o financiamento mais escasso e caro. Alternativas como certificados de recebíveis enfrentam tentativas de elevação de taxação, enquanto os recursos de repasses e fundos constitucionais são cada vez mais disputados. Essa conjuntura dificulta investimentos essenciais em tecnologia, renovação de canaviais e práticas sustentáveis, ameaçando a competitividade do setor nordestino. 

O ambiente regulatório é decisivo para o futuro do setor. Destaco, como avanço, o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina, fruto do trabalho conjunto dos ministérios, especialmente o de Minas e Energia. Essa medida amplia o mercado para o biocombustível, melhora a qualidade da gasolina C e reforça o papel do Brasil na transição energética global. 

No entanto, é fundamental garantir regras claras e estáveis, que permitam ao produtor planejar e investir com segurança. A volatilidade dos preços internacionais e as pressões ambientais por soluções renováveis exigem políticas públicas consistentes, que valorizem o etanol de cana e reconheçam sua importância estratégica para o país. 

Apesar dos desafios, mantenho o otimismo. O setor sucroenergético do Nordeste tem demonstrado, ao longo dos anos, uma capacidade ímpar de adaptação e superação. A busca constante por inovação, a integração com políticas públicas e o compromisso com a sustentabilidade são os pilares que sustentam nossa resiliência. 

Para a safra 2025/26, a expectativa é de estabilidade na moagem, ganhos em produtividade e maior eficiência na alocação da produção entre açúcar e etanol. A possível expansão do mercado de anidro, caso confirmada pelas políticas governamentais, surge como uma oportunidade que pode alavancar ainda mais o setor. 

Seguimos trabalhando de forma articulada com os demais agentes da cadeia produtiva e com os governos federal e estaduais, buscando sempre condições que favoreçam o crescimento do setor e a geração de emprego e renda para milhares de trabalhadores que dependem dessa atividade. 

O Nordeste tem um papel estratégico na transição energética do Brasil e na segurança alimentar global. Continuaremos fazendo nossa parte, com responsabilidade, inovação e foco no futuro. 

Renato Cunha

Presidente do Sindaçúcar-PE e da Novabio

Presidente do Sindaçúcar-PE e da Novabio

Presidente do Sindaçúcar-PE e da Novabio