Confira os planos da Novozymes sobre etanol 2G

Como se dará o desenvolvimento do etanol celulósico, ou 2G, no Brasil? Quanto representa a enzima no custo de produção de um litro de etanol celulósico?

As perguntas acima integram entrevista exclusiva para o Portal JornalCana com Daniel Cardinali, gerente de desenvolvimento de negócios da Novozymes para etanol celulósico para América Latina. Confira.

A Novozymes é uma multinacional de origem dinamarquesa da área de biotecnologia com sede em Bagsværd e com unidade em Araucária (PR). Criada em 2000 após desmembramento da empresa-mãe Novo Nordisk, possui domínio sobre o mercado mundial de enzimas.

Daniel Cardinali, gerente de desenvolvimento de negócios da Novozymes para etanol celulósico para América Latina, comenta sobre mercado, custos e a estrutura da companha no Brasil.

JornalCana – Descreva a participação atual da Novozymes nas unidades de etanol celulósico implantadas no Brasil

Daniel Cardinali – No Brasil somos parceiros de Granbio e Raizen, fornecendo enzimas para ambas as unidades de produção de etanol celulósico. Além disso, gostamos de estar cada vez mais próximos de nossos parceiros, identificando suas necessidades e buscando soluções que possam beneficia-los. No final das contas, sabemos que o que realmente importa para nossos parceiros é obter o menor custo de produção por litro de etanol, e o desenvolvimento de coquetéis enzimáticos mais eficientes é apenas uma das ferramentas para isso.

Cardinali, da Novozymes: busca de coquetéis enzimáticos mais eficientes por meio de parcerias de longo prazo com os clientes (Foto: Divulgação)

Como?

Daniel Cardinali – É importante pensar na otimização dos processos existentes nas plantas e nas sinergias entre os mesmos. Vale ressaltar que temos mais de 20 cientistas no Brasil dedicados exclusivamente à conversão de biomassa em etanol, e também um time de especialistas que oferece suporte técnico nas próprias plantas. Buscamos também muito foco nas parcerias com atores da cadeia de valor que são capazes de impulsionar o fortalecimento e sucesso da indústria 2G, como por exemplo, CTC, ABBI e BNDES.

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É possível quantificar uma média de quanto (%) é a enzima nos custos de produção de um litro de etanol celulósico?

Daniel Cardinali – Primeiramente devemos nos lembrar que as enzimas são, por natureza, componentes muito específicos. Atualmente, ao analisarmos as diversas plantas em operação no mundo, observa-se não somente diferentes tecnologias para fracionamento de biomassa ou pré-tratamento (como explosão a vapor, tratamento ácido e tratamento alcalino), mas também distintos resíduos agrícolas, como palha e bagaço de cana-de-açúcar no Brasil, palha de milho e trigo nos Estados Unidos, sabugo de milho na China e palha de arroz na Europa, sem citar as culturas energéticas. Tudo isso para mostrar que é muito difícil quantificar, em média, a contribuição das enzimas na produção de um litro de etanol celulósico. Isso também reforça a importância de parcerias estratégicas e de longo prazo com nossos clientes, que possibilitam o desenvolvimento de coquetéis específicos para o binômio biomassa/pré-tratamento.

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Há estimativas?

Daniel Cardinali – De acordo com nossas estimativas e dependendo do tipo de tratamento a que foi submetida a biomassa, as enzimas podem representar de 15% (em processos muito ácidos, que requerem menor utilização de enzimas) a 30% dos custos operacionais de uma unidade 2G que esteja operando em condições otimizadas.

Como a Novozymes prevê o mercado de etanol celulósico no Brasil no curto prazo (até 2020), no médio (2030) e no longo prazo (após 2030), diante o cenário econômico mundial?

Daniel Cardinali – A Novozymes iniciou o desenvolvimento de seus coquetéis enzimáticos em 2001, quando o petróleo era cotado a 20 dólares o barril. De lá para cá muito coisa mudou no cenário econômico mundial, inclusive com altas e quedas no preço do petróleo,  mas sempre mantivemos nosso comprometimento com o desenvolvimento de produtos cada vez mais eficientes. O etanol celulósico é estratégico para a Novozymes e nosso interesse é de longo prazo.

Explique mais, por favor

Daniel Cardinali – Com relação ao Brasil, continuamos acreditando que nosso pais reúne, possivelmente, as melhores condições no mundo para o mercado de etanol celulósico e, mais amplamente, uso da biotecnologia industrial; seja pela disponibilidade de biomassa (volume e custo), infraestrutura já existente, demanda por etanol e papel fundamental do setor sucroenergético no pais.

E os custos de produção?

Daniel Cardinali – Este ano, o BNDES, juntamente com o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), publicou um estudo muito interessante e completo sobre o potencial competitivo do etanol celulósico no Brasil no curto (2016-2020), médio (2021-2025) e longo prazos (2026-2030), no qual observa-se claramente a redução do custo de produção ao longo dos anos. De nosso ponto de vista, essa é uma tendência natural, já observada em outras indústrias nascentes, como etanol de milho nos EUA ou tecnologias eólicas e solar. Dito isso, pensamos que a indústria está passando por uma fase de validação tecnológica e gostaria de ressaltar a importância de politicas publicas no desenvolvimento e consolidação de novas tecnologias e indústrias emergentes.

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Como é o mercado de enzimas? Lastreado em contratos de longo prazo (um ano, por exemplo)? É uma proteína 100% importada? Se sim, qual o recente impacto do dólar forte? Se ele (dólar) sobe 10%, significa que a enzima tem mesma alta?

Daniel Cardinali – Atuamos em diversos segmentos do mercado de enzimas para aplicações industriais, com unidades de produção e de P&D em diversas localidades, como China, Dinamarca, Estados Unidos, Brasil, etc. Sendo assim, temos experiência em lidar com os aspectos transacionais e operacionais relacionados ao mercado de enzimas e com as flutuações cambiais, buscando minimizar os impactos em nossos parceiros. Conforme já mencionado anteriormente, acreditamos muito nos benefícios de parcerias de longo prazo com nossos clientes.

Fique à vontade para discorrer mais sobre a Novozymes e o setor sucroenergético

Daniel Cardinali – Para nós tem sido um prazer imenso interagir com um setor tão importante e tradicional para o Brasil. Além disso, aprendemos muito sobre e com o setor nos últimos anos, período em que este tem demonstrado muita resiliência. Esperamos que nossas soluções em biotecnologia contribuam com a manutenção e fortalecimento do setor sucroenergético, que sabemos, é peça-chave na matriz energética do País, que demanda agora por combustíveis líquidos de fontes renováveis e mais sustentáveis.

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