“Até quando vamos perder dinheiro?”, pergunta Mário Campos, do Siamig

As recentes medidas do governo da China para incentivar a economia interna geram preocupações em todas as partes do mundo. Não seria diferente para o setor sucroenergético brasileiro, que tem na China importante importador de açúcar.

Mas além da China, o setor sucroenergético brasileiro enfrenta, dentro do próprio país, uma instabilidade muito grande tanto dentro do campo político como no econômico.

 

Esta é uma das avaliações do executivo Mário Campos, presidente do Siamig, entidade que representa as usinas de açúcar e de etanol de Minas Gerais. Confira a entrevista.

Quais os impactos das recentes medidas adotadas na China para o setor sucroenergético brasileiro?

Mário Campos – Vivemos uma instabilidade muito grande, tanto no campo econômico como no campo político. Mas isso não impacta apenas o nosso setor. Digo o seguinte: se no ano passado [2014] estava ruim, agora, neste ano, todos os setores [da economia brasileiro] estão ruins junto conosco. E isso não muda nossa posição. Ainda continuamos em um cenário ruim.

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Qual o cenário para o setor?

Mário Campos – Temos um cenário de excesso de oferta, tanto de açúcar, de etanol ou de cana. E esse excesso de oferta é vendido de forma muito abrupta, rápida. Um exemplo é o etanol. Vendemos nesse ano por preço mais baixo que o do ano passado. E isso não ajuda em nada o setor. Mas temos de ser otimista, porque pelo menos estão vendendo.

Fale mais, por favor

Mário Campos – Nos últimos anos, com a crise muito feia, como a de hoje, mas não se vendia. E quando olhamos para a frente, faço algumas perguntas e uma delas é

Até quando nós vamos perder dinheiro, como estamos perdendo, e não vamos conseguir internalizar, em termos de ganho, o preço do etanol? 

Campos, do Siamig: é preciso precificar as externalidades do etanol. O quanto antes

O que pode ocorrer?

Mário Campos – Acho que teremos novidades nos próximos meses. Os grupos empresariais não estão confortáveis com isso. Estão pensando em alternativas para equalizar esse problema.

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Dê um exemplo

Mário Campos – Tenho hoje convicção de que os grupos econômicos têm que se juntar para ter força de mercado. Não temos de outro lado as distribuidoras, que têm força? Assim como há as grandes comercializadoras, é preciso arrumar uma forma legal, que seja transparente, de fazer isso [juntar e ter força de mercado].

Que mais?

Mário Campos – Quando a gente olha no horizonte de curto e de médio prazo, o país não tem a menor condição de ser importador de 20 bilhões de litros de gasolina [como prevê o Ministério das Minas e Energia para até meados da próxima década]. Como está, o setor sucroenergético não irá investir, porque hoje estamos com excesso de oferta. O outro ponto é o açúcar.

Como?

Mário Campos – Até que ponto nossos concorrentes [Índia, Tailândia] terão condições de manter o açúcar a 10, 11 cents de libra-peso? Quanto de subsídio ainda a Tailândia e a Índia terão de dar a seus produtores para o preço atual?

Que mais?

Mário Campos – Por fim, temos neste ano a Cop 21 [conferência do clima a ser realizada em dezembro, em Paris]. E temos visto alguns países taxando o carbono. Essa agenda, de taxar o carbono, voltou para o país. Sempre batemos nessa tecla, das externalidades positivas do etanol, que precisam ser precificadas de alguma forma. E eu acredito que o governo tem de encontrar uma forma de precificar essas externalidades.

 

Não está um pouco devagar, já que a Cop 21 será realizada dentro de pouco mais de três meses?

Mário Campos –  Não necessariamente está devagar. E não sei se será algo para a Cop 21. Voltando: estamos em uma instabilidade política e econômica preocupante. Qualquer tipo de decisão tem que ser analisada pelo impacto político e econômico.

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