Alta do petróleo gera dilema entre inflação e ajuste fiscal

A forte alta dos preços do petróleo nos últimos dias colocou o governo em uma situação delicada. Se a Petrobras reajustar o preço da gasolina, que está com defasagem em relação à cotação externa, haverá um impacto sobre a inflação. Se não o fizer, a empresa corre o risco de reduzir seu resultado e, conseqüentemente, sua contribuição para o superávit primário.

Os economistas de bancos e analistas da Petrobras passaram os últimos dias debruçados nessas contas. A defasagem do preço da gasolina na bomba do posto de combustível, de acordo com várias análises, vai de 11,25% a 25%. Para o Bradesco, a defasagem atual está acima de 20%, mas a média do ano, em 6%. ” Com um reajuste de 20%, o impacto na média das projeções de mercado para o IPCA seria de 0,6 ponto percentual para 2004 ” , informa relatório da equipe liderada pelo economista Octávio de Barros.

Outro grande banco considera que, descontando-se a parcela fixa da Cide (contribuição sobre combustíveis), a defasagem na bomba é de 15%. Como o litro é vendido com 75% de gasolina e 25% de álcool, o percentual necessário de reajuste seria de 11,25%. O impacto no IPCA seria, portanto, de 0,47 ponto percentual, considerando-se o peso da gasolina no índice, de 4,22%.

A analista deste mesmo banco lembra, porém, que apesar da perda na gasolina, a Petrobras ainda não perde dinheiro com o óleo diesel, de onde vem sua maior fonte de receita entre os derivados de petróleo. ” No início do ano, a empresa tinha uma folga de 20% a 30% no preço do diesel. Essa margem foi zerada, mas ainda não é negativa ” , explica. No ano passado, a política da Petrobras de praticar preços internos superiores ao do mercado externo contribuiu para o lucro de R$ 18 bilhões da estatal. O resultado do primeiro trimestre deverá ser divulgado na terça-feira.

Os analistas consideram que é a partir de agora que a política da Petrobras começará a ser colocada em xeque. No governo Fernando Henrique Cardoso, a empresa adotara a estratégia de alinhamento dos preços com as cotações internacionais. Essa política mudou na gestão Luiz Inácio Lula da Silva. A Petrobras passou a adotar preços de tendência e fez uma única intervenção no preço da gasolina e do diesel, há um ano, quando baixou o valor nas refinarias em 6,5%.

” A regra de alinhamento de preços é mais saudável. Quando há escassez e o preço fica defasado, consome-se mais do que deveria e não se incentivam alternativas ” , afirma Raul Velloso, especialista em contas públicas. Segundo ele, o impacto inflacionário de um possível reajuste da gasolina seria administrável via política monetária. ” Sabemos como lidar com a inflação. ”

Para Velloso, ainda é cedo para avaliar o impacto do resultado da Petrobras nas contas públicas porque não se sabe como ficará a posição líquida entre as importações e as exportações da estatal. A expectativa dos analistas é de que o saldo negativo na balança comercial da Petrobras aumente este ano. Entre outros fatores, a analista Fabiana Fantoni, da Tendências, ressalta que a Petrobras deverá reduzir seu excedente exportável este ano porque parcela maior da produção será direcionada ao mercado interno.

No ano passado, a Petrobras contribuiu com cerca de 70% do superávit primário gerado pelas estatais, de acordo com o economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura. ” O superávit primário foi de 4,32% do PIB e a Petrobras respondeu por 0,44 ponto percentual desse total ” , explica. Para este ano, a previsão da contribuição das estatais para o superávit primário é de R$ 11,9 bilhões. Desse total, R$ 7,45 bilhões (62,6%) viriam da Petrobras, seguida de Itaipu e da Eletrobrás.

Para Pires, de maio de 2002 até o fim do ano passado, a Petrobras fez um colchão de R$ 2 bilhões ao cobrar do consumidor brasileiro mais do que os preços no Golfo do México, usados como referência. ” De janeiro para cá, a empresa perdeu cerca de R$ 500 milhões por não ter aumentado o preço. Mas segue com um colchão de R$ 1,5 bilhão ” , diz. Por isso -e pelo fato de que será difícil explicar para a sociedade um aumento depois de um

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