
Safra 2026/27 superior a 34 milhões de toneladas, etanol de milho e cooperativas estão no centro das perspectivas traçadas por Miguel Ruben Tranin, presidente da ALCOPAR (Associação de Produtores de Bioenergia do Estado do Paraná), em entrevista ao Jornal Cana 360.
Após uma safra marcada por forte impacto climático, o dirigente avalia que o setor entra em um novo ciclo, com expectativa de crescimento produtivo, reorganização industrial e avanço estratégico na integração entre cana, milho e proteína animal.
Safra: recuperação após seca e base para crescer
“A última safra foi desafiadora”, disse Tranin. “A seca prolongada e rigorosa afetou a produtividade, justamente em um momento em que o estado vinha de um processo relevante de renovação de canaviais. Ainda assim, voltamos a superar a marca de 30 milhões de toneladas, alcançando cerca de 34 milhões de toneladas de cana, com produção de açúcar considerada positiva”, explicou.
O estado mantém posição de destaque nas exportações. Aproximadamente 2,7 milhões de toneladas de açúcar foram produzidas, com cerca de 80% destinadas ao mercado externo. A logística é um diferencial competitivo, com estrutura dedicada no Porto de Paranaguá, incluindo berço próprio para açúcar e elevada capacidade de estocagem, o que permite embarques em ritmo elevado.
No etanol, o cenário foi mais pressionado por preços abaixo do esperado, influenciados por movimentos globais de oferta. Mesmo assim, o presidente da ALCOPAR classifica o ciclo como “uma boa safra” diante do contexto.
Clima favorável e mais moagem
Para a safra 2026/27, a palavra-chave é otimismo cauteloso. As chuvas no início do ciclo e projeções climáticas mais favoráveis reforçam a expectativa de recuperação agrícola. No campo industrial, diversas unidades ampliaram capacidade de moagem, com plantas que saíram de patamares próximos de 1,5 milhão de toneladas para volumes acima de 2 milhões de toneladas por unidade.
Esse movimento indica, segundo Tranin, que o Paraná pode finalmente romper o histórico de estagnação na faixa dos 30 milhões de toneladas e entrar em um novo patamar produtivo. O dirigente também vê o setor em processo de recuperação após anos difíceis, quando diversas unidades industriais foram perdidas no país.
Etanol de milho: movimento irreversível
Um dos pontos centrais da entrevista é o etanol de milho no Paraná, tratado como vetor estratégico de diversificação da bioenergia. O estado reúne características consideradas favoráveis: forte presença de cooperativas, oferta de grãos próxima às usinas de cana e estrutura logística robusta via Paranaguá.
Tranin avalia que o avanço é “irreversível”. Além do etanol, ele destaca o papel dos coprodutos, como DDG/DDGS, na cadeia de ração animal. No entanto, a visão paranaense vai além da exportação do insumo: o foco está em agregar valor internamente, transformando grãos e coprodutos em proteína animal — frango, suínos e, potencialmente, bovinos — para exportação.
Cooperativas e integração cana-milho-proteína
A integração entre usinas e cooperativas é vista como peça-chave. Com forte tradição cooperativista, o Paraná pode estruturar modelos de parceria em que o milho esteja disponível regionalmente, reduzindo custos logísticos e fortalecendo cadeias locais.
Outro ponto estratégico citado é o uso da entressafra da cana. Tranin lembra que o setor sucroenergético é um dos poucos com grandes indústrias paradas por cerca de três meses ao ano. A produção de etanol de milho nesse período é vista como oportunidade para elevar a utilização dos ativos industriais, gerar renda adicional e ampliar empregos.