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Aéreas devem perder US$ 6 bi em 2005

Como conseqüência do alto preço do petróleo -que tem impacto direto no querosene dos aviões-, as companhias aéreas internacionais esperam a queda no crescimento do número de passageiros até o fim do ano, além de perdas de US$ 6 bilhões.

Para Giovanni Bisignani, executivo-chefe da Iata (International Air Transport Association), entidade que congrega 265 companhias no mundo e representa 94% do tráfego aéreo internacional, as empresas têm de aprender a conviver com o combustível caro e buscar alternativas para cortar custos. “A situação é crítica. E os governos têm de entender que não somos vacas de dinheiro.”

Segundo ele, a distância que antes separava as aéreas “low cost/ low fare” (baixo custo/baixa tarifa) das grandes empresas já diminui bastante. Entre os efeitos dessa aproximação, estão, de acordo com o CEO, o desaparecimento total dos bilhetes aéreos em papel até o fim de 2007 e a adoção da identificação de bagagens por meio de freqüências de rádio.

A seguir, trechos de entrevista concedida à Folha.

Folha – Como o sr. avalia o mercado internacional de aviação?

Giovanni Bisignani – Enquanto o tráfego internacional de passageiros está mostrando crescimento de 8,8%, vemos um incremento de dois dígitos no Oriente Médio, na América Latina, na África e na América do Norte. O altíssimo preço do combustível impactou dramaticamente os custos de nosso negócio. O crescimento do transporte de cargas, que foi de 3,5% no primeiro semestre de 2005, ficou bem abaixo do crescimento de dois dígitos de 2004. Já esperamos uma queda no crescimento do número de passageiros transportados até o fim do ano.

Folha – O que acontecerá nos próximos dez ou 20 anos?

Bisignani – Em longo prazo, a aviação tende a crescer o dobro do crescimento do PNB (Produto Nacional Bruto). As previsões para médio prazo são de crescimento anual de 6% para os negócios de carga e passageiros. Os mercados do futuro são China e Índia.

Folha – E o Brasil?

Bisignani – O bom desempenho econômico do Brasil, com crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 4,9% em 2004 e de 3,5% esperados para 2005, leva a uma expectativa de crescimento de 5% no tráfego de passageiros nos próximos anos. Tudo isso, no entanto, não leva a uma indústria lucrativa. Toda a indústria [mundial] está cambaleando com perdas de US$ 35 bilhões desde 2001, e nós esperamos mais US$ 6 bilhões de perdas para 2005. O preço elevado do combustível é o principal fator nessa previsão terrível. Na América Latina, há uma mistura de resultados. Onde os governos têm uma visão forte da política e interferência limitada no funcionamento do negócio, há algumas histórias de grande sucesso, como a LAN Chile. Em outros casos, a situação é desesperadora, com muitas aéreas tecnicamente falidas. Os governos devem ser fortes para ajustar sua agenda política, regular a segurança e deixar as aéreas seguirem seus negócios.

Folha – Como o aumento do petróleo afeta a aviação?

Bisignani – O preço elevado do óleo está matando nossa lucratividade. Se o preço médio no ano ficar em US$ 47, o Brent [o petróleo do mar do Norte], a aviação perderá US$ 6 bilhões. O preço médio em agosto superou US$ 50, e a situação pode ficar pior. O preço alto intensifica a necessidade de evoluirmos para uma indústria de custo baixo, com novas formas de gestão. Uma das primeiras coisas que os passageiros observarão é que os bilhetes de papel desaparecerão até o fim de 2007, com o implemento global do e-ticket. Isso, combinado com o uso comum de quiosques para check-in, o fim da papelada no processamento de cargas, o uso de códigos de barra em cartões de embarque e o uso de freqüências de rádio para identificar bagagens, economizará US$ 6,5 bilhões por ano.

Folha – Há algum problema especial relacionado ao suprimento de combustível no Brasil?

Bisignani – Definitivamente. O governo brasileiro continua a impor a tributação de PIS e Cofins nas compras. Isso dá um custo adicional de quase 10%, ou US$ 100 milhões por ano.

Folha – Como o sr. avalia a concorrência entre as aéreas brasileiras?

Bisignani – A indústria não está equilibrada. As aéreas competem ferozmente por rendimento, mas grande parte da base de custos é controlada por monopólios. A situação é crítica. E os governos têm de entender que não somos vacas de dinheiro. Somos fornecedores de um sistema de transporte global que dá suporte ao desenvolvimento econômico.

Os aeroportos são uma grande causa de preocupação no Brasil. No mundo inteiro, pagamos US$ 42 bilhões por ano aos aeroportos, 12% de nossos custos. No Brasil, o governo está envolvido, quando deveria ser uma atribuição do mercado decidir sobre investimentos. Pagamos taxas elevadas em aeroportos principais para subsidiar aeroportos menores e inviáveis. O envolvimento político prejudica a competição.

Folha – A Varig se recupera?

Bisignani – A Varig é um membro muito importante de nossa organização desde 1945. Está enfrentando alguns desafios difíceis, mas acreditamos que ela finalizará seu processo de reestruturação e que isso a conduzirá a um novo modelo de negócio. Adaptará sua organização à nova realidade de custo mais baixo do setor.

Folha – As ameaças de terrorismo ainda são problema para o setor?

Bisignani – Quatro anos após o 11 de Setembro, a segurança é maior, mas o sistema ainda é uma confusão. As aéreas e clientes pagam uma conta de US$ 5,6 bilhões por essa ineficiência. Precisamos usar nossos recursos eficientemente, não precisamos de burocracia.

Folha – O “low cost/low fare” [baixo custo/baixa tarifa] é o futuro do negócio? Ou haverá sempre clientes para pagar mais pelo conforto?

Bisignani – O abismo entre as aéreas “low cost/low fare” e as grandes empresas está diminuindo. Desde 2001, as associadas da Iata melhoraram sua produtividade em 34%, ampliando a habilidade de competir de perto com as “low cost/low fare”. A maioria já tem tarifas baixas e está trabalhando duro para combinar isso com baixo custo. O grande diferencial das grandes, além do conforto, é a rede de interconexões e destinos.

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